2ª Edição-Brasília

Artigo de Opinião | NR-1: do Brainstorm ao Bem-Estar

Por Redação

02/06/2025 13h00

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Por Newton Molon

Recentemente, uma paciente, que é da Comunicação e que está bravamente lidando com as próprias debilidades, me disse na sessão a seguinte frase: “(…) mas lá todo mundo já é burnaltado!”

Num primeiro momento não entendi o neologismo e, depois que eu entendi, ficou na minha cabeça a expressão “já é”. Quase como se fosse um título de pós-graduação, um leão de Cannes, uma cicatriz de guerra, ou um rito de passagem.

Mas Burnout é o quê, afinal? De maneira muito simplificada, seria como se uma violenta tempestade interna, feita de hiper demandas e fantasias relativas ao trabalho, esgotasse a vitalidade de uma pessoa. Daí ela sucumbe para não morrer. E pode levar meses para ela se levantar. Como isso pode ser um valor? Apenas se no ambiente de trabalho já estiver naturalizado que todos caminham sobre um campo minado e que pisar numa bomba de vez em quando faz parte do job.

Quando avaliamos o nível de sofrimento psíquico de trabalhadores, os publicitários não só se destacam, como disputam ranking na escala de suicídios no trabalho. E o meio vem acompanhando isso com muita tristeza, mas pouca indignação.

Só que a publicidade brasileira, desde os anos 80, sempre flertou com chefias assediadoras e com a irracionalidade do trabalho. A corda sempre foi esticada no limite. Basta sentar em uma roda com publicitários da geração X e millennials, para ouvirmos as mais assustadoras histórias de humilhação, desrespeito e violência psicológica com profissionais sofridas e/ou perpetradas por membros da roda.

Na época isso pelo menos rendia dinheiro suficiente para o assediado e as campanhas realmente faziam história. Hoje os tempos são bem outros. Prevalence a péssima cultura iniciada pelos gênios autoritários, mas o sistema de recompensas vem derretendo a cada ano e na agência, no cliente e no meio, está todo mundo medicado… “porque está muito puxado”.

A nova NR-1 pode representar uma possibilidade de quebrar esse ciclo. Trata-se de uma modificação fundamental nas normas de segurança no trabalho que valem para o país inteiro. Se antes uma empresa de construção tinha que colocar capacete nos trabalhadores para que um tijolo perdido não o matasse, a partir de 2026, toda empresa terá que cuidar de tudo isso, mas também dos riscos psicossociais que ela mesma gera para o trabalhador, exemplo: o tijolo pode ser um prazo, ou uma postura de líder.

Daí que entra burnout, stress, síndrome do pânico, assédio… Mas o foco da nova versão da norma regulamentadora não é a dureza da cabeça do sujeito para o tijolo e nem se o psicológico do publicitário aguenta o repuxo: é o que a empresa pode fazer para evitar que aconteça. E se a empresa não fizer, isso pode custar mais caro no bolso.

Isso significa para a empresa, no mínimo, reconhecer os riscos psicossociais que está gerando, pensar soluções, criar indicadores, implantar medidas de segurança e monitorar. Isso valerá para quase todo tipo de empresa.

Aqui em Brasília, tenho assessorado, antes da nova NR-1, as agências pioneiras na redução de risco psicossocial, e o que tenho visto é que as melhores medidas de segurança passam por: fomentar mais cooperação e menos rivalidade; escutar e promover escuta mútua, operar com metas mais factíveis, proteger os seus trabalhadores nas negociações externas e repartir melhor os seus ganhos.

Burnout todo mundo já conhecia. Mas você já ouviu falar em Brownaut? Esse ainda não é tão popular aqui no Brasil, mas é ainda pior. É quando durante uma tempestade a luz apaga e volta, só que com meia fase, não derruba a pessoa, ela segue de pé, se arrasta, vai, entrega o que dá e opera com o volume morto da sua vitalidade, mas não consegue parar para cuidar de si. Como uma rã na panela que já nem sente mais a temperatura da água esquentando.

Sobre o autor:

Newton Molon é psicanalista clínico, Doutor em Psicologia Social do Trabalho e das Organizações e diretor da Cápsula – saúde mental no ambiente de trabalho.