2ª Edição-Brasília

Artigo de Opinião | Fala que eu NÃO te escuto

Por Redação

02/06/2025 15h00

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Por que a comunicação passou a ser o maior desafio na gestão de pessoas e o que fazer para derrubar a Torre de Babel corporativa

Por Daniela Diniz

Pode soar paradoxal, mas quanto mais ferramentas e plataformas de comunicação eu tenho, mais difícil e desafiador se torna o diálogo. É exatamente esse o sentimento das lideranças no Brasil. Apontada no Relatório de Tendências de Gestão de Pessoas, estudo produzido pelo Great Place to Work que ouviu mais de 2 mil gestores, como o maior desafio das organizações, a Comunicação se tornou um grande gargalo no mundo corporativo. Funcionários trocam mensagens entre si, mas não entendem bem o que estão dizendo; líderes marcam reuniões de alinhamento, mas terminam sem a clareza dos próximos passos; diretrizes corporativas são fixadas em intranets, mas na prática cada um segue fazendo o que bem quer, quando quer e como quer. Afinal de contas, o que está acontecendo com a comunicação nas empresas? 

Os comportamentos e atitudes que praticamos e vivemos nas organizações nada mais são do que o reflexo dos comportamentos e atitudes que vivemos na sociedade. Se o diálogo está mais difícil entre as famílias, nas escolas, na vizinhança e na comunidade de uma forma geral, não é uma grande surpresa que temos enfrentado tantas dificuldades em se comunicar também no mundo do trabalho. E aqui está um primeiro motivo desses ruídos nas mensagens. Vivemos hoje numa sociedade que fala mais, muito mais, mas ouve menos, muito menos. Como disse uma vez o escritor Rubem Alves: “sempre vejo anunciados cursos de oratória, mas nunca curso de escutatória; todo mundo quer aprender a falar, mas ninguém quer aprender a ouvir.”  

Se essa já era tendência num tempo mais remoto, hoje é uma realidade muito mais presente, especialmente pelo poder da internet em disseminar informações, potencializado pelo uso das redes sociais. Numa era em que todos têm espaço para publicar suas opiniões, estou mais interessado em conferir o engajamento dos meus comentários do que prestar atenção no que outro diz. Nesse sentido, a comunicação deixa de ser um canal de duas vias, essencial para que haja um diálogo. Afinal, a premissa básica na comunicação é que haja sempre um emissor e um receptor da mensagem – e quanto mais eficiente e clara for a comunicação, mais envolvido se sente o receptor e mais alinhado ele fica ao emissor. Se eu estou acostumado a apenas falar e não ouvir, perco a essência da comunicação e a mensagem passa a ser unilateral. Um desastre completo. 

Soma-se aos desafios tecnológicos outros elementos: novos formatos de trabalho que exigem um reforço maior na comunicação, e novas gerações que aprenderam a se comunicar de forma diferente – da abreviação das palavras às telas, temos atualmente múltiplas maneiras de passar e receber a mensagem. Tornando tudo muito mais difícil. 

Para enfrentar essa complexidade e desmontar a Torre de Babel corporativa, é preciso manter uma certa disciplina e promover alguns rituais. 

1. Entenda que a gestão de pessoas do século XXI pós pandemia é muito mais complexa, e que apenas uma comunicação em cascata – feita de cima para baixo – e de forma pontual, não vai surtir efeito. Ter consciência de que é preciso investir mais nessa área é o primeiro passo para mudar velhos hábitos e gerar novas abordagens para se comunicar. 

2. Envolva toda a liderança nesse processo. Explique aos líderes que o mundo mudou; que hoje há quatro gerações ocupando o mesmo espaço, múltiplos formatos de trabalho e inúmeras ferramentas de comunicação. A liderança precisa assumir novos comportamentos, que permitam uma escuta ativa e constante e diálogos mais abertos e mais genuínos. 

3. Promova sessões de feedbacks mais frequentes. Se a cartilha de gestão de pessoas do passado dizia que um feedback por ano era o suficiente – e bastava manter aquele formulário preenchido com os pontos fortes e os de melhoria – hoje há uma necessidade de conversas mais frequentes, que vão além de apenas apontar o dedo e a direção. E aqui a disciplina é fundamental para não escorregar no “pode deixar que sempre falo com o meu time”, e depois de um ano perceber que só falou mesmo naquela vez que foi obrigado pelo RH para preencher o tal formulário. Coloque, portanto, na agenda essas conversas individuais com cada um do time para passar as mensagens mais importantes e ouvir. Lembre-se da frase de Rubens Alves: desenvolva o hábito da “escutatória”. 

4. Deixe claro suas expectativas. Um dos grandes tormentos dos profissionais em início de carreira é não entender exatamente o que a empresa (e sua liderança) espera do seu trabalho.  É fundamental manter um ritmo de conversa com as equipes que transmita exatamente o que se espera de cada um e também explicar as possibilidades e oportunidades de crescimento na organização. 

5. Na dúvida, é melhor pecar pelo excesso, usando as ferramentas corporativas de comunicação (seja a intranet, o e-mail, whatsapp ou outras), o comunicado oficial do RH, a fala do presidente e, sempre, a liderança direta.  Quanto mais canais, desde que usados de forma alinhada e quase simultânea, melhor para fixar a mensagem e permitir um alinhamento maior dos times com a cultura e estratégia da organização. 

Sobre a autora:

Daniela Diniz é jornalista, especialista no mundo do trabalho, e diretora de Conteúdo e Relações Institucionais do Great Place To Work. Autora dos livros Grandes Líderes e Pessoas e 25 Anos de História da Gestão de Pessoas e Negócios nas Melhores Empresas para Trabalhar.