Ao valorizar a criatividade, a capital federal faz da economia criativa um pilar do seu desenvolvimento
Por Ilza Gonçalves
Por muito tempo, Brasília foi associada exclusivamente ao poder político, grande parte do imaginário construído sobre a capital federal foi moldado por essa perspectiva. No entanto, para além dessa imagem institucionalizada, pulsa uma cidade rica em diversidade cultural e potencial criativo. Ingredientes que, reunidos, formam a base de uma poderosa ferramenta de desenvolvimento: a economia criativa.
A economia criativa pode ser entendida como o conjunto de atividades econômicas baseadas no conhecimento, na criatividade e na cultura. Vai muito além das artes: abrange design, publicidade, arquitetura, moda, gastronomia, tecnologia, produção audiovisual, jogos digitais, artesanato, entre outros domínios que unem criatividade, propriedade intelectual e geração de valor. O Distrito Federal tem, nesse contexto, uma posição privilegiada.
De acordo com informações disponibilizadas no relatório Panorama da Economia Criativa do Distrito Federal, em 2022 o setor criativo teve participação de 3,5% no PIB do DF, totalizando 131 mil pessoas formalmente atuantes na área, podendo ser o DF considerado um cluster criativo do país, ocupando o terceiro lugar no ranking, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Isso não é coincidência. Trata-se de uma convergência entre políticas públicas, diversidade cultural e o alto nível educacional da população.
Essa vocação criativa não é recente, ela está no DNA da cidade. Brasília foi celeiro de grandes bandas de rock, transformou concreto em poesia e arquitetura em arte. É um verdadeiro museu a céu aberto, nascida do traço ousado de Oscar Niemeyer e da visão urbanística de Lúcio Costa. Reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa do Design, a capital floresce, a cada ano, com os ipês mais bonitos do mundo. Mais do que um centro de decisões políticas, Brasília sempre foi um território para ideias e possibilidades.
O título de Cidade Criativa do Design, concedido pela Unesco a Brasília, deveria servir como alerta e bússola. Alerta porque é preciso enfrentar o contraste entre o reconhecimento internacional e a realidade cotidiana de abandono e subutilização de muitos dos nossos espaços urbanos. Bússola porque a economia criativa, quando bem articulada com políticas públicas, planejamento urbano e investimento em educação e inovação, é capaz de transformar esses espaços em polos de cultura e convivência.
No DF, já temos exemplos maravilhosos: o Sesi Lab, no antigo Edifício Touring; a Praça das Avós, na 506 Sul; a Galeria dos Estados, com seus murais de grafite; e o crescimento de eventos como feiras de economia criativa, semanas de design, festivais musicais, eventos de games e tecnologia. Cada uma dessas experiências reforça a tese de que a criatividade pode e deve ser um motor de regeneração urbana.
É nesse ponto que a economia criativa se diferencia de outras matrizes econômicas: ela é, essencialmente, inclusiva e sustentável. Não depende da exploração intensiva de recursos naturais. Pelo contrário, recicla, ressignifica e valoriza aquilo que já existe, seja um espaço degradado, uma tradição cultural marginalizada ou uma juventude sem oportunidades. E, ao fazer isso, conecta o desenvolvimento econômico com a identidade e o pertencimento, promovendo orgulho local e coesão social.
É urgente que se olhe para a economia criativa com a mesma seriedade com que se olham grandes obras de infraestrutura. Porque ela é, sim, infraestrutura: humana, simbólica, cultural e está diretamente ligada à maneira como vamos viver, trabalhar, conviver e imaginar o futuro das cidades.
Sobre a autora:
Ilza Gonçalves reúne três anos de pesquisa acadêmica e mais de duas décadas de experiência prática em grandes veículos de comunicação. É mestre em Inovação em Comunicação e Economia Criativa, especialista em Marketing e formada em Jornalismo. Atuou em empresas como SBT, Grupo Metrópoles e Record Brasília, onde hoje lidera o marketing. Também tem experiência em agência de publicidade e acredita que uma comunicação bem-feita, unindo estratégia e criatividade, tem o poder de transformar realidades.