Henry King foi um dos mais renomados cineastas americanos da década de 1920. É normalmente atribuída a ele a famosa frase: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. A inspiração para a ideia teria vindo do influente escritor Oscar Wilde que anos antes declarou: “Só existe uma coisa pior do que falarem da gente. É não falarem.”
A era da conectividade em que vivemos parece reverberar esses pensamentos, uma vez que a exposição nas redes sociais é altíssima e para se tornar um trending topic não são medidos esforços, pouco importando inclusive se as manifestações tenham potencial para provocar cancelamentos históricos: o importante é causar…ou lacrar!
Até que ponto devemos nos preocupar realmente com o que as pessoas pensam ou falam sobre nós?
Certa vez, em uma aula de um programa de negociação no ISE Business School, debatíamos sobre a confiança e como ela atua como uma espécie de sistema operacional das relações. Concluíamos que para saber se devemos ou não confiar em alguém o natural seria inicialmente verificarmos a reputação prévia da pessoa. Um participante, experiente executivo da área de tecnologia, perguntou como de fato poderíamos administrar a nossa reputação, se no fundo ela é a manifestação de uma realidade percebida pelas pessoas à nossa volta, sendo assim, por mais que nos dediquemos em construir uma imagem irretocável, sempre estaremos diante do escrutínio social e de vieses particulares que não conseguiremos modelar. Sem dúvida nenhuma é uma questão de grande relevância e motivo de boas reflexões.
A ideia do “falem bem ou falem mal…” faria total sentido se estivéssemos naufragados, como o personagem de Tom Hanks, e nossa única interação social fosse com a simpática bola de vôlei. Somos seres do mundo, interconectados com a sociedade, comunicando a todo instante a nossa forma de pensar, incluindo nossos valores, sentimentos, emoções, frustrações, desejos e uma infinidade de manifestações que orientam a forma como as pessoas nos enxergam e nos consideram.
Entretanto, volto a indagação do aluno e reconheço que não parece fazer tanto sentido focar em algo que não temos pleno domínio como base para o citado sistema operacional das relações. Parece que entramos em um beco sem saída ou que proponho alguma charada. Evidentemente, essa não é a minha intenção.
O polêmico radialista, escritor e produtor digital americano, Dennis Prager, apresentou certa vez sua equação matemática capaz de levar as pessoas à completa ruína: Infelicidade = Imagem – Realidade. Ou seja, quanto maior o gap entre a imagem projetada e percebida, e o mundo real, a vida como ela é, maior é o nível de infelicidade. Portanto, temos uma escolha a fazer. Ou mudamos a Imagem (Reputação) ou transformamos a Realidade (Caráter). Como vimos, focar na reputação pode não ser efetivo, então nos restaria investir na evolução do caráter.
É claro que não é tão trivial quanto uma operação aritmética simples, até porque todos nós tendemos a uma certa autoindulgência, basta lembrarmos da declaração de Al Capone, quando foi preso em 1931: “Passei os melhores anos da minha vida proporcionando os mais verdadeiros prazeres ao povo, ajudando-o a divertir-se, e tudo o que consegui com esse meu gesto foram insultos e a existência de um homem caçado”. Percebe-se que o mais perigoso chefe da máfia de Chicago, reconhecido naquele momento como inimigo número um das forças policiais americanas, não tinha nenhuma recriminação por seus atos e no fundo acreditava verdadeiramente que era um benfeitor. Imaginemos então, como você e eu, não seríamos capazes de tolerar e ressignificar erros que cometemos em busca da proteção de nossa autoimagem?
Se quisermos verdadeiramente entrar em uma jornada de transformação da nossa realidade, devemos ter foco, perseverança e profundidade. O caminho não é simples e nem fácil, mas o efeito do fortalecimento do caráter é inquestionável. Peter Drucker ensinou que “é através do caráter que se exerce a liderança” e o aprimoramento do caráter se dá pela prática de hábitos virtuosos.
Sejamos virtuosos! Essa é a única maneira de elevar o caráter e de fato construir uma sólida e inabalável reputação.
Sobre Raphael Müller:
Professor de Negociação do Núcleo de Estudos em Negociação, Conflito e Comunicação do ISE Business School. Diretor da área Alumni do IESE Business School (Chapter Brasil) e do ISE Business School e Diretor-Executivo e Professor do Núcleo de Estudos em Negócios de Mídia do ISE. É também consultor empresarial e conduz programas de mentoria executiva e aconselhamento de carreira para líderes de negócios de diversos setores.