Por Serginho Aragão*
O tempo está passando, e as pessoas estão cada vez mais conectadas a aparelhos tecnológicos e a meios propagadores de informação. No entanto, um debate ainda não tem recebido a atenção que merece: quando vamos dar uma pausa e, mais do que isso, aprender a limitar o tempo de consumo desse vasto conteúdo, seja ele útil, inútil e tudo o que há entre eles?
É verdade que não é de hoje que nossa sociedade é bombardeada por mensagens publicitárias de todos os lados. Se voltarmos duas ou três décadas no tempo, já víamos um cenário em que, do despertar ao adormecer, éramos alvejados por milhares de mensagens diárias em outdoors, jornais, revistas, rádio, TV e até nas embalagens dos próprios produtos.
O que mudou de lá para cá é que a produção de conteúdo, antes limitada a poucas mãos, agora aumentou sua escala. Antes, em geral, apenas os grandes grupos e conglomerados de comunicação eram os detentores da informação jornalística. A verdade era a que era escrita ou falada por eles e seus jornais. No âmbito publicitário, por sua vez, cabia às agências a responsabilidade pelas redações e mensagens de cunho aristotélico.
Com a modernização e popularização (se é que podemos adotar esse termo em um país ainda tão pobre e desigual) dos celulares, todos passamos a ter vez e voz. Com uma câmera de celular apontada, você pode virar repórter, artista, bobo, vira o que quiser. Mas uma coisa é certa, muito conteúdo passou a ser produzido a cada novo dia.
Com isso, nossos smartphones, tablets e televisores passaram a ocupar um espaço cada vez maior em nossas vidas, como se fossem um membro da família. Daqueles de quem gostamos muito e não queremos nos afastar. E mais: daqueles que falam o tempo todo e têm sempre algo novo a dizer, seja relevante, engraçado ou tosco. Um “familiar” que está sempre ali, disputando nossa atenção.
Diante da enxurrada de informações e do nosso ímpeto de “estar por dentro de tudo”, o que nos resta é pular de uma tela para outra. E, assim, nossa atenção vai se fragmentando ao longo do dia. Falta foco. E quando vamos ver, começa a sobrar ansiedade. Ficamos dependentes.
As próprias plataformas, por sua vez, passam a compreender seu papel neste novo mundo. São as mediadoras entre os conteúdos e a sociedade. A verdade já não é quem pauta a relação. A questão é compreender esses comportamentos de consumo que são cada vez mais voláteis e garantir entregas que os mantenham ali, afixados. E ao entender isso, moldam e modificam seus algoritmos para valorizar conteúdos cada vez mais curtos: primeiro 30 segundos, depois 15, agora 3. Daqui a pouco, antes mesmo da primeira piscada, já teremos perdido o interesse.
E por que isso é preocupante e precisa ser debatido com seriedade? Não falo apenas dos mais jovens que estão perdendo o hábito da leitura. Nem me refiro à impaciência generalizada diante de um filme mais longo, e nem precisa ser uma pérola de Scorsese com suas três horas de duração. O ponto central é que esse déficit de atenção está nos fazendo perder a beleza da vida e, o que é ainda mais grave, o nosso senso de criticidade.
Na minha juventude, dizia-se que as novelas e o futebol na televisão eram instrumentos de alienação. Mas o panorama que se consolida hoje é, no mínimo, devastador. Talvez estejamos mesmo diante de um caminho sem volta. Será que já estamos vivemos o mesmo contexto retratado no início do filme Matrix, em que somos aprisionados em uma realidade forjada?
Se Neo optou por abrir os olhos e soube fazer a escolha entre as pílulas que lhe foram apresentadas, talvez ainda reste tempo para nós. Um detox digital. Uma definição pessoal de limites. E quem sabe um dia, voltar a controlar os nossos telefones, ao invés do contrário. O problema não é a ferramenta. Mas sim se permitir dominar por ela.
Bem, pelo sim ou pelo não, deixo a reflexão para aqueles que resistiram e chegaram até aqui: quando, afinal, iremos discutir com seriedade o momento de reduzir ou limitar este consumo desenfreado de conteúdo, que, ao invés de nos oferecer muito, acaba por nos tirar tudo?
Sobre o autor:
Formado em Publicidade e especialista em Marketing, ambos pela Universidade de Fortaleza, o professor Serginho Aragão dividiu sua vida profissional entre a comunicação governamental e as academias, onde ministrou em cursos de graduação e pós-graduação em diversas faculdades, durante mais de uma década. Atualmente, tem focado na concepção de estratégias para campanhas políticas, mas faz questão de produzir e compartilhar conteúdos mercadológicos que estimulem o pensamento crítico e a desrobotização.