Por Mariana Panhoni, diretora-executiva da ABAP
O debate sobre diversidade na publicidade já não é novo. A pergunta agora é outra: como transformar diversidade em prática estruturante dentro das agências?
Em um país continental, regionalizado e profundamente desigual como o Brasil, a criatividade não pode nascer de uma única lente. Se queremos campanhas que dialoguem com o Brasil real, suas periferias, múltiplas identidades e diferenças culturais e econômicas, precisamos incorporar diversidade não apenas como valor, mas como método.
Isso significa incluir novas perspectivas no processo criativo desde o início, na leitura do briefing, na definição do insight, na construção da narrativa e na tomada de decisão. Diversidade não é apenas quem aparece na tela. É também quem está na mesa.
Os dados mais recentes do Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, mostram que ainda há desafios importantes na representatividade. Mulheres negras representam 17% do quadro geral das agências e apenas 3% dos cargos de CEO. A presença de pessoas negras também diminui à medida que se avança na hierarquia. Esses números reforçam que ampliar o acesso e criar caminhos de desenvolvimento é uma necessidade estratégica, e não apenas simbólica.
Há ainda um ponto estrutural: diversidade também é oportunidade. Se a indústria quer refletir o Brasil, precisa criar caminhos reais para que talentos de diferentes origens, especialmente de baixa renda, consigam entrar e permanecer nas agências. O desafio não está apenas na retenção. Começa no acesso.
Felizmente, já vemos movimentos concretos nessa direção. A ABAP, Espaço de Articulação Coletiva do Ecossistema Publicitário, lidera o Banco de Talentos com foco em Diversidade, Equidade e Inclusão, ampliando pontes entre profissionais diversos e o mercado. O projeto conta com a parceria do Grupo Dreamers e da Wieden+Kennedy, fortalecendo ações de formação, inclusão e geração de oportunidades.
Virar o jogo não depende apenas de discurso. Depende de transformar diversidade em processo, compromisso e porta de entrada. Uma publicidade mais plural não é apenas mais justa. É também mais criativa, mais relevante e mais conectada com o Brasil que queremos representar.


