Por Claudinei Lopes Júnior*
Nas últimas semanas, os “bebês reborns” têm ocupado uma posição de destaque na esfera pública. Seja pela onda intensa de críticas a publicações de mulheres que produzem conteúdos relacionados a essas bonecas hiper-realistas nas redes sociais e seja pelas matérias na impressa que questionam os limites que devem ser impostos aos “papais” e “mamães reborns”– como são chamadas as pessoas que colecionam esse tipo de boneca – pelo poder público, a arte reborn voltou ganhar notoriedade.
Na construção da expressão “bebê reborn”, a palavra reborn, que vem do inglês, significa “renascida(o)” e serve para designar bonecos que são feitos à mão com detalhes extremamente realistas. Isso inclui pele macia de silicone e vinil, olhos de vidro, cabelos naturais implantados, enchimentos com materiais que simulam a densidade corporal de um bebê real e outras características bem precisas que podem ser exigidas às artistas que confeccionam “bebês reborns”. Essas artesãs e artesãos são chamados no universo rebron de “cegonhas” e o processo criativo e de confecção são complexos podendo levar semanas. Inclusive, além das bonecas em si, há a oferta de simulações de partos tendo como mais uma prerrogativa de aproximação com a realidade: placenta e líquido amniótico sintéticos.
A origem das “bebês reborns” está na Segunda Guerra Mundial quando essas bonecas eram criações mais domésticas e amadoras. Como encontrar brinquedos era uma tarefa difícil dadas às decorrências da guerra, as famílias, principalmente, mães e filhas, se dedicavam a repaginar as bonecas mais antigas de modo as deixá-las mais realistas. Durante as décadas de 1980 e 1990, essa arte se consolidou e popularizou e assim “nasceram” as bonecas que dão vida aos “bebês reborn”. Outro fato curioso é que os ”bebês reborns”, além de serem objetos de coleção de adultos e crianças, eram utilizados também com propósitos de treinamentos médicos e de primeiros socorros e como ferramenta terapêutica para lidar com luto gestacional, solidão, ansiedade e até Alzheimer. Nessa última instância, os ”bebês reborns” operam como substitutos simbólicos que auxiliam na elaboração de perdas e traumas psicológicos.
O atual frenesi dos “bebes reborns” nas redes sociais deve nos alertar sobre alguns pontos. O primeiro deles se restringe a uma crítica exacerbada direcionada, especialmente, às mulheres adultas que colecionam bonecas hiper-realistas e que compartilham em seus perfis de redes sociais conteúdos relacionados ao universo “reborn”. Parece haver, por trás dessa vigilância, uma insistência em regular o comportamento feminino dentro de certos limites socialmente aceitáveis. As mulheres podem performar os rituais de cuidado, como o de alimentar e o de trocar roupas apenas na dimensão material e dentro do contexto de uma maternidade tradicional, funcional, produtiva e heteronormativa, como destaca Federici (2019). Quando exercem essas mesmas atividades de cuidado de forma lúdica com bonecas hiper-realistas e para o prazer próprio, as mulheres desafiam expectativas normativas de gênero. É perceptível essa diferença de gênero ao passo que homens, mesmo sendo adultos, possuem momentos de lazer com atividades lúdicas podendo, inclusive, colecionar carrinhos, álbuns de figurinhas da Copa do Mundo, livretos de histórias em quadrinhos (HQs) e até bonecos de ação. Portanto, o incômodo social diante de mulheres adultas que brincam, cuidam e interagem com bonecas hiper-realistas reflete o estranhamento que ocorre quando o cuidado é deslocado do espaço produtivo (como a maternidade biológica ou o trabalho doméstico) para uma dimensão simbólica, lúdica ou afetiva, não mediada pela lógica do capital ou da família tradicional.
O segundo e último ponto que destacamos sobre a arte reborn envolve os limites de consumo. Como um signo midiático, o “bebê reborn” ganhou destaque nas redes sociais não só pelos conteúdos da própria comunidade formada tanto por artistas que produzem os bonecos, tanto pelas colecionadoras. Celebridades e influenciadoras digitais também impulsionaram as discussões com a “adoção” e com o “nascimento ”de “bebês reborns”, além de divulgar a rotinas com as bonecas. No campo da produção audiovisual, a temática reborn é explorada também. Podemos destacar a personagem principal do filme Uma Família Feliz (2024), baseado no livro homônimo de Raphael Montes, interpretada por Grazi Massafera, que trabalha fazendo “bebês reborn” para vender; e podemos lembrar também da recente inserção de um “bebê reborn“ no remake de Vale Tudo, novela das 21h da Rede Globo.
No entanto, é preciso prestar atenção quando os limites de consumo simbólico, lúdico e terapêutico dos “bebês reborns” são atravessados por episódios como: “bebês reborns” sendo levados para unidades de saúde públicas para serem incluídos em campanhas de vacinação; ou solicitação de benefícios como: filas preferenciais e outros direitos destinados a mães ou crianças reais. Nesses momentos, sob uma ótica jurídica e ética, é preciso compreender que essas atitudes podem configurar fraude ou mau uso de serviços públicos. Ademais, o uso reiterado dos “bebês reborns” em situações sociais que exigem distinções objetivas entre realidade e ficção pode indicar quadros patológicos, como transtornos psicológicos. Assim, ao se tornar descolado da função simbólica e adentrar o espaço do direito e da vida social coletiva, o consumo de “bebês reborns” exige atenção crítica para que se possa delimitar fronteiras de um consumir consciente. Como aponta Perez (2020), os limites do consumo são éticos, cívicos e afetivos, e quando atravessados de modo desregulado, revelam a fragilidade das linhas tênues entre desejo, cidadania e responsabilidade social.
O consumo da arte reborn, portanto, não é apenas sobre o excesso ou a futilidade, mas sobre quem pode desejar, cuidar e expressar afeto – e em que condições isso é socialmente permitido. Além disso, a crítica ao consumo de “bebês reborns” deve se atentar para o momento em que o aspecto lúdico transborda seus contornos simbólicos e começa a interferir de maneira prejudicial na vida social concreta do indivíduo e do coletivo. Por fim, na verdade, o que devemos nos perguntar é qual é a lógica social, cultural e emocional da qual esse revival do fenômeno dos “bebês reborns” é sintoma, e o que seu consumo revela sobre as dinâmicas contemporâneas de produção de sentido, de afeto, performatividade de cuidado e mercantilização dos vínculos emocionais.
Sobre o autor:
Doutorando em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2023). Mestre em Média e Sociedade (2019) pelo Instituto Politécnico de Portalegre e bacharel em Comunicação Organizacional pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2020). Tem interesse em pesquisa na área de Comunicação, com ênfase nos assuntos referentes às narrativas ficcionais seriadas, Estudos de Gênero, Estudos Feministas, Estudos Queer e Estudos Decoloniais.