Uma árvore sem folhas ainda é uma árvore?
Por Pedro Bairon Sant’Anna Perez, editor de internacional no Contraponto Jornal
A obra Infocracia do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, apresenta uma hermenêutica crítica da contemporaneidade informacional, na qual se configura uma nova arquitetura de poder fundamentada na hiperabundância de dados. Han propõe o conceito de “Infocracia” como axioma explicativo de uma nova forma de dominação pós-disciplinar, caracterizada pela internalização do controle e pela performatividade algorítmica que molda subjetividades e comportamentos.
O autor sustenta que a informação, dissociada do conhecimento, opera como vetor de despolitização e conformismo, constituindo um regime de transparência que solapa a alteridade e o discurso dialógico. Dentre os enunciados paradigmáticos da obra, destaca-se: “A informação não é conhecimento. A transparência não é verdade”. Tais assertivas apontam para uma Epistemologia crítica que desestabiliza as narrativas tecno-libertárias. A infocracia, segundo Han, se efetiva mediante a simulação da liberdade e pela supressão da negatividade, instaurando um sistema no qual o excesso de comunicação degenera em ruído e dispersão. A reconfiguração do espaço público por meio da midiatização constante e da exposição voluntária contribui para o esvaziamento da esfera crítica e para a emergência de uma sociedade de desempenho autorreferente.
Todavia, é possível observar que a crítica empreendida por Han detém-se majoritariamente nas superfícies fenomênicas do problema — isto é, nas suas expressões contingentes e não em seus determinantes estruturais. Embora reconheça que: “o capitalismo, como um vírus mutante, adapta-se perfeitamente às novas formas de controle e liberdade”, o autor mantém-se em uma posição hermética quanto à proposição de alternativas que superem a dinâmica axiológica do capital. Tal hiato epistemológico evidencia uma inclinação à crítica cultural em detrimento de uma crítica político-econômica sistêmica. Essa postura pode talvez ser compreendida inclusive do ponto de vista mercadológico. Byung-Chul Han vem sendo um dos autores mais comentados do mundo, principalmente no campo da comunicação, criando conceitos novos quase que na totalidade de seus livros. Sendo assim, possivelmente não seria interessante do ponto de vista mercadológico se aprofundar na raíz do problema, na origem de todas essas “intersecções éticas”.
Nesse sentido, o pensamento de Han pode ser confrontado com as proposições de Jonathan Crary, especialmente em sua obra 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Crary elabora uma crítica ontológica ao regime de tempo contínuo imposto pelo capitalismo informacional, tanto no campo das redes sociais quanto em temáticas como a jornada de trabalho, identificando neste último o agente causal da vigília perpétua e da erosão das práticas não produtivas. Ao asseverar que 24/7 é o tempo do mercado, que busca eliminar tudo o que é improdutivo, inclusive o sono, e intensificar tudo aquilo que elevar os balanços das Big Tech’s, Crary se diferencia de Han ao estabelecer uma crítica imanente à lógica capitalista como substrato material da infocracia. Assim, a hermenêutica de Crary permite uma abordagem estrutural mais robusta, superando os limites do diagnóstico cultural desprovido de horizonte político-econômico concreto.
O afastamento do debate da intensificação informacional, sobretudo no meio digital, gera uma instabilidade material histórico-dialética, uma vez que, a “infocracia” nada mais é que um produto do modo de produção capitalista, dinâmica essa reconhecida pelo próprio Han: “o capitalismo, como um vírus mutante, adapta-se perfeitamente às novas formas de controle e liberdade”. Contudo, a obra não segue essa linha, se limita ao comportamento humano e a forte influência da vasta quantidade de informações lançadas ao homem cotidianamente.