Labubu: entre a atração da ambiguidade e o desespero afetivo

Por Redação

04/06/2025 08h34

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Por Clotilde Perez

Há tempos, estamos experimentando a real dificuldade de enxergar o futuro, sensação agravada com a pandemia recentemente vivida. Com o sentimento de “sem futuro”, ficamos desestruturados, frágeis e até angustiados. Nesse sentido, “qualquer” manifestação de afeto e aconchego faz sentido e gera engajamento imediato. Como as relações humanas estão bastante prejudicadas dado o individualismo caraterístico dos nossos tempos, o afeto por animais, plantas e objetos diversos (portanto, muito seguros, manejáveis e controláveis) cresceu exponencialmente, no caminho de uma afetividade segura.

Assim, os símbolos nostálgicos, retrô, vintage e outros – com forte apelo ao passado – trazem o conforto do já vivido – o conhecido é confortável psiquicamente. E as redes sociais têm sido o principal veículo de manifestações estéticas mundo a fora, pela rapidez, facilidade e abrangência. Caso recente é a “febre”- fenômeno caracterizado por um movimento intenso de adesão por contágio, dos labubus: bonecos-monstros de pelúcia criados em 2015 pelo artista de Hong Kong, Ka Sing Lung, e comercializado pela chinesa Pop Mart.

Os bonecos-monstros apresentam-se na diversidade de signos cromáticos que atuam tanto para ampliar as inúmeras possibilidades de gosto e engajamento, quanto para remeter a ideia de totalidade. A totalidade é mais um signo de segurança psíquica. Interessante notar a estratégia da empresa comercializadora uma vez que instaura um aspecto atrativo adicional – a surpresa – ao adquirir a mercadoria não sabemos exatamente qual boneco estamos comprando.  A surpresa também é construtora de vínculo porque gera um sentimento de preparo, um preparo “de baixo risco”, uma vez que nada de mau ou arriscado se revelará, ao contrário, será “sempre” uma versão do bonequinho-chaveiro, ou seja, uma posição de preparo seguida de satisfação, regozijo, graça…

Os labubus são pequenos, liminares – animal mostro -, o que suscita a imaginação; é colorido, lúdico, versátil, raro (inclusive não está à venda no Brasil). Muitas camadas potencializadoras de vínculo. Importante lembrar que “monstro” tem inúmeras conexões etimológicas e uma delas é “aquilo que é digno de ser mostrado ou seja, de se exibir, dar a ver, e são sempre espetaculares, incorporam um espetáculo em si. Assim, sua liminaridade constitutiva entre animal e monstro; entre graciosidade e feiura – associada a pequenez e materialidade de pelúcia, os tornam manejáveis e controláveis, ou seja, é muito seguro, portanto, ele é ambíguo/liminar, mas o sentimento gerado não é ambíguo, é de adesão, afeto, acolhimento, segurança. O labubu também carrega a potencialidade de suscitar nossa compaixão – sentimento benévolo – de alguma maneira queremos partilhar do sofrimento dele ser mostro.

Como é um produto colecionável e versátil – estimula e pressupõe a aquisição de vários porque os usos também são amplos – foi pensado estrategicamente (talvez mais pela Pop Mart do que pelo artista que o criou) em linhas que são bastante expressivas da vida na sociedade contemporânea (hip-hop, flores, superstars, signos do zodíaco etc.), sempre no caminho da diversidade, personalização e amplificação das possibilidades de identificação com um público muito amplo.

Os labubus ativam o colecionismo que é um ato de afeto. Colecionar de alguma forma tem objetivo de “reter” o tempo passado, presentificando-o e levando-o ao futuro (a coleção raramente se completa – objetivo último). A coleção nos coloca em movimento, movimento de busca rumo ao futuro. De alguma maneira é um simulacro da própria existência passado-presente-futuro encapsulados na materialidade de objetos, coisas, mercadorias. Já as edições limitadas são estratégias comerciais de estímulo a busca e a competição, ou seja, intensifica o movimento em busca de uma saciedade – conseguir o que ainda não tem – condição inerente ao viver.

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.