Microfugas analógicas: entre o toque e o feed

Por Redação

20/08/2025 09h17

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Por Vinícius Sarralheiro, Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e Coordenador do Lab 4C – Centro de Comunicação e Ciências Cognitivas (USP)

Vivemos atravessados por uma lógica que transforma tudo em desempenho. A hiperconexão, que um dia foi símbolo de liberdade, se converteu em uma espécie de obrigação. Estar sempre disponível, sempre produtivo, sempre presente… ainda que ausente de si. Não é à toa que o filósofo Byung-Chul Han descreve nosso tempo como a era do cansaço; uma sociedade marcada não pela repressão, mas pela autoexploração, onde cada sujeito se torna empreendedor de si, gestor do próprio tempo, do próprio corpo e, ironicamente, também do próprio esgotamento.

Os números escancaram o que, no fundo, o corpo já sente: Nunca estivemos tão disponíveis. Em 2024, o brasileiro passou, em média, 9 horas e 32 minutos por dia no celular, segundo levantamento da ElectronicsHub; o relatório Digital 2024 revela uma média de mais de 10 horas diárias na internet. E também nunca estivemos tão exaustos: 42% dos brasileiros afirmam sofrer com estresse crônico, segundo o World Mental Health Day (2024). O impacto é coletivo e um sintoma dos nossos tempos.

Mas o que chama atenção é que, frente a esse colapso silencioso, muitas pessoas começaram a buscar refúgio exatamente naquilo que parecia ter sido deixado para trás. Práticas manuais, simples e táteis – como tricotar, pintar, desenhar, fazer cerâmica, montar álbuns ou escrever à mão – ressurgem como microestratégias de sobrevivência emocional. Se antes a nostalgia parecia um desejo romântico de fuga, agora ela se reinventa como uma ferramenta concreta de busca pelo conforto. É como se as mãos tentassem costurar o que as telas insistem em fragmentar. Colorir vira ritual. Tricotar, resistência. Plantar, cuidado.

Por trás de cada caderno artesanal, de cada linha puxada no bordado, existe um desejo silencioso de desacelerar, de construir espaços de presença em um mundo que nos atropela com notificações, demandas e feeds infinitos. Não se trata mais de passatempo. Não é (somente) sobre estética. É sobre sobrevivência afetiva. E esse movimento, ainda que comece no íntimo, transborda para o coletivo – e, inevitavelmente, para o mercado.

O sucesso de marcas como Bobbie Goods revela essa virada mercadológica e marcária. Seus livros de colorir venderam mais de 150 mil exemplares no Brasil em poucos meses (Veja, 2025), mostrando que o desejo de tocar, criar e desacelerar se transformou não só em linguagem, mas em ativo comercial.

E, curiosamente, o paradoxo se mantém: enquanto buscamos respiro fora das telas, são também as redes que amplificam esse movimento. No TikTok, a hashtag #BobbieGoods já ultrapassa 142 mil vídeos, e o perfil da marca soma mais de 1,6 milhão de seguidores. Vídeos de journaling e caligrafia já somam milhões de visualizações no Instagram e no TikTok, criando novas comunidades e tendências. São registros de pessoas colorindo, montando bullet journals, escrevendo à mão, criando colagens, desenhando… – compartilhando não só o que fazem, mas também o próprio processo, quase como um manifesto coletivo pela pausa, pela lentidão, pelo toque. Porém, nessa lógica, o que era para ser pausa se converte, de certa forma, em novo conteúdo, nova estética, nova tendência. Compartilhar não é mais apenas sobre mostrar o que se faz, mas sobre transformar o próprio processo em espetáculo – uma pausa que, ainda assim, precisa ser postada, editada e engajada.

As marcas entenderam rapidamente que esse deslocamento não é apenas uma moda passageira, mas uma tendência de nosso tempo. O Boticário e o Burger King, por exemplo, lançaram suas próprias versões de livros de colorir, traduzindo esse desejo em experiências de marca. Papelarias premium, estúdios de cerâmica, feiras de bordado, encontros presenciais de journaling e até a volta das câmeras analógicas ganham tração, reafirmando que viver offline também virou branding. O analógico se converteu em ativo sensorial, afetivo, cultural e, sim, econômico.

No fim, talvez o grande paradoxo do nosso tempo seja esse: buscamos a pausa, mas a performamos; desejamos o silêncio, mas o narramos. Vivemos um cansaço que tenta ser curado pela própria lógica que o produz: uma pausa que, enquanto tenta ser refúgio, se torna também conteúdo, engajamento e mercado. Mas, ainda assim, há potência nesse movimento. Mesmo que mediados por telas, os gestos de pintar, desenhar ou simplesmente desacelerar são pequenas insurgências contra a lógica do “sempre mais”, são como microfugas analógicas. São lembretes de que, entre uma notificação e outra, ainda é possível resgatar o que o algoritmo não entrega: a presença, o toque, o tempo – mesmo que ele precise, ironicamente, ser postado no feed.

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.