Atrofia social: a solidão na era das conexões

Por Redação

06/06/2025 09h33

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O que a IA e o excesso de estímulos estão fazendo com nossa saúde social?

Em tempos de terapia com IA e crises emocionais tratadas com bebês reborn, será que já não está na hora de admitir que algo saiu do eixo?

O excesso de informação, o ritmo acelerado das telas e a hiperpersonalização dos nossos mundos digitais nos deram autonomia, é fato. Mas também nos colocaram em um isolamento confortável, onde tudo gira ao nosso redor, mas quase nada nos atravessa em profundidade.

Estamos mais conectados do que nunca. E mais sozinhos do que jamais imaginamos.

Vivemos uma verdadeira era de excesso de informação ou infoxicação, e neste contexto, a individualidade virou mantra. Consumimos rotinas sob medida, conteúdos personalizados, jornadas profissionais solitárias e relacionamentos filtrados por uma tela através de curtidas e mensagens via DM.

No SXSW 2025 – um dos maiores festivais de inovação e cultura digital do mundo – o painel de abertura foi o conceito de saúde social como um bem sob ameaça. Enquanto a inteligência artificial evolui para ser uma companhia disponível, compreensiva e programada para não nos frustrar, nossas relações humanas, imperfeitas e imprevisíveis, vão sendo deixadas de lado.

O professor Scott Galloway, em uma das palestras mais emblemáticas do evento, provocou a plateia ao citar o crescimento da chamada Girlfriend AI – Ferramenta de IA que simula afeto, cumplicidade e validação emocional. Segundo ele, estamos ensinando uma geração a evitar rejeições reais ao se relacionar com parceiros perfeitos digitais. “Estamos treinando jovens a não serem rejeitados… porque podem ser amados por uma Girlfriend AI.”

Sim, uma IA que diz “bom dia” todo dia, que nunca questiona e que existe só para você. Imagina se relacionar sem ter que lidar com as questões do outro, apenas com as suas.

Conectando os pontos, a fala da psicoterapeuta Esther Perel trouxe o termo atrofia social. Segundo ela, estamos começando a esperar das nossas relações humanas o mesmo desempenho e previsibilidade que encontramos nos algoritmos. A paciência diminui. A empatia enfraquece. A frustração cresce. E tudo isso acontece enquanto vivemos uma crise de foco alimentada pela infoxicação — o excesso de estímulos, notificações, telas, feeds infinitos… Estado civil: Cansados! 

Estamos tão acostumados a trocar de tela, de aba, de estímulo, que carregamos essa lógica para nossas relações. Como aponta Johann Hari no livro Foco Roubado, quando a atenção se fragmenta, a intimidade desaparece. A consequência é uma epidemia de vínculos superficiais e solidão disfarçada de conexão.

Durante o evento, ouvi uma estatística que não sai da minha cabeça: De 2003 para 2020, perdemos 200% de horas de socialização mensal. Numa média mundial, o tempo médio mensal de socialização humana caiu de 60 para 20 horas. Isso não é apenas sobre mudança de rotina, é uma transformação profunda na forma como trabalhamos, consumimos informação, cultivamos relacionamentos e nos conectamos com o mundo.

Por mais que a gente cuide do corpo e da mente, se não cuidarmos das relações, a nossa saúde social adoece em silêncio. E quando ela adoece, tudo desanda: o senso de pertencimento, a criatividade coletiva, a empatia, o amor, a escuta, a colaboração – tudo o que nos torna humanos.

Não se trata de nostalgia. Também não é sobre demonizar a tecnologia.

A inovação virá e estará presente na nossa rotina independente de estarmos prontos ou não. É sobre reconhecer que, enquanto evoluímos no algoritmo, estamos regredindo afetivamente. Na pressa de seguir produzindo, performando, escalando… a gente às vezes esquece que nenhuma inteligência — por mais artificial que seja — é capaz de substituir a experiência de ser visto, ouvido e acolhido. Nos sentimos vulneráveis porque já não estamos no controle da nossa própria atenção.

Se saúde social virou pauta é porque, no fundo, sabemos: Estamos resolvendo problemas de produtividade e gerando outros de socialização.

Não dá pra resolver uma crise coletiva com esforço individual. Como propõe Johann Hari em seu livro, precisamos criar ambientes digitais e físicos que favoreçam a atenção, a escuta e a presença. Só assim a saúde social pode voltar a ser cultivada. Se conseguimos normalizar a distração, também podemos reaprender a presença.

Não vou longe, vou trazer práticas que podem nos deixar presentes em meio a tanto ruído:

  • Enviar um áudio inteiro sem cortar;
  • Escolher estar em uma conversa sem pegar no celular;
  • Marcar um café com alguém (e ir);
  • Lembrar que relação é treino. E como todo treino, exige tempo, disposição e vulnerabilidade. 

Parece óbvio, mas acredito que esses serão alguns dos nossos grandes desafios com a revolução tecnológica na era da informação. Talvez seja assim que a gente comece a se curar da atrofia social: com microgestos de humanidade, em meio ao ruído dos algoritmos. 

Até a próxima CENA. Afinal, ainda estamos escrevendo a história da influência.

Marina Rolim
Fundadora e Diretora Criativa Cena7
Marina Rolim é publicitária, especialista em marketing digital pela ESPM, criadora de conteúdo e professora de mídias digitais da pós graduação da Universidade de Fortaleza. Com quase 10 anos de experiência, vivenciou de perto a evolução do mercado de vídeos curtos, liderando o conteúdo de campanhas para marcas como Beach Park, RioMar Fortaleza e Iquine Tintas. Como fundadora e diretoria criativa da agência de conteúdo Cena7, Marina se destaca por criar narrativas impactantes e estratégicas para redes sociais, ajudando empresas regionais e nacionais a alcançarem seus objetivos por meio de vídeos criativos.