Este não é um artigo de opinião. É um diagnóstico. Uma constatação que pulsa em silêncio nos bastidores do mercado cearense, ainda que muitos prefiram não verbalizar.
Parece que foi ontem, mas já se passou uma década. Dez anos em que o mercado de comunicação do Ceará — outrora vibrante, criativo, tecnicamente refinado — perdeu voz, força e, sobretudo, autoconfiança.
Aquilo que já foi referência em publicidade, branding e pensamento estratégico no Nordeste hoje caminha, salvo raríssimas exceções, para uma perigosa irrelevância. Assistimos a um esvaziamento gradual da potência criativa e da capacidade de articulação das agências, consultorias, assessorias e profissionais de alta performance locais.
Em algum ponto da história recente, o mercado sucumbiu à lógica autofágica: aceitar tudo, fazer de tudo, cobrar quase nada — e perder tudo. Perdeu-se foco, perdeu-se posicionamento, perdeu-se autoridade. E, inevitavelmente, perderam-se os próprios clientes.
Ao renunciar à estratégia em favor da execução, ao trocar valor por volume, muitos negócios locais deixaram de ser protagonistas e passaram a operar como departamentos de apoio dos grandes players. De inteligência a “bagaceira”, como diz o ditado popular.
É fato: há empresas extraordinárias fora do Ceará — e devemos nos orgulhar ao vê-las inspirando transformações aqui. Mas é preciso reconhecer: também temos, talentos excepcionais, com repertório, método e competência para entregar soluções de altíssimo nível. No entanto, o que sobra, com frequência, são os “Jobs” rasos, genéricos e mal remunerados.
E então, assiste-se a um paradoxo doloroso: profissionais locais altamente qualificados, com formação em instituições de excelência no Brasil e no exterior, sendo preteridos simplesmente por serem “daqui”. Enquanto isso, os mesmos clientes investem fortunas em projetos pasteurizados, vindos de consultorias que ignoram — ou sequer se importam com — a cultura, a história e o DNA das empresas que os contratam.
Essa lógica colonizada de valorização do que vem de fora corrói o senso de pertencimento e mina a confiança de um ecossistema inteiro. O recado é claro — e cruel: excelência local não vale tanto quanto o “sotaque “diferente.
E você, leitor, se for da área, provavelmente já viveu isso. Ou conhece quem tenha vivido.
Talvez tenhamos, em algum ponto da nossa trajetória, tropeçado na arrogância. Agências que se acreditavam inabaláveis insistiram no modelo full service — quando o mercado já exigia profundidade, especialização e inteligência estratégica. Ignoramos um oceano azul de possibilidades, muitas vezes por resistência a parcerias, por vaidade ou medo de dividir protagonismos. Veículos que não leram os sinais do tempo ficando para trás, incapazes de acompanhar a transformação dos hábitos de consumo de mídia das pessoas. Profissionais experientes, apegados a fórmulas consagradas, subestimaram a mudança do jogo. Mas o mundo girou — e não seguiu o roteiro que foi desenhado pela maioria.
O fenômeno extrapola as fronteiras da publicidade e do marketing. No universo dos eventos e da educação corporativa, paga-se R$ 30, 50, 100 mil por uma hora de palco de um palestrante “de renome” — para ouvir obviedades embaladas em LED. Enquanto isso, mestres, doutores e especialistas locais, com conhecimento profundo e resultados concretos, (e com vasta experiência em mercados externos) são convidados a “contribuir” às vezes gratuitamente ou por valores vexatórios.
A lógica se repete nas redes: veículos sérios e profissionais que dominam o assunto, perderam espaço para amadores que se autointitulam “especialistas em tráfego pago”, vendendo ilusões digitais com promessas irreais. Nomes e siglas bonitas que impressiona, mas o conteúdo é totalmente sem contexto. Como se postar carrosséis ou lançar um site ou um aplicativo bastasse para resolver os desafios de vendas e de posicionamento de uma empresa.
Na contramão desse cenário, emerge uma nova geração inquieta, estudiosa, com desejo genuíno de fazer diferente. Mas é preciso fazê-lo com consciência — e limites. Não basta conquistar clientes: é preciso estabelecer regras claras, escopos bem definidos e relações profissionais sustentáveis. Caso contrário, repete-se o ciclo: o cliente usufrui do talento, do esforço, do “algo a mais” … e parte, sem aviso.
É preciso dizer: o mercado local está frio, sem graça, apático e redundante. Saturado de discursos vazios, promessas ocas e relações desequilibradas. Muitos profissionais qualificados já migraram — para outros estados, outros países, outros setores, ou outras carreiras. Não por falta de amor ao que fazem, mas por esgotamento. Porque boletos não se pagam com permutas ou tapinhas nas costas.
Alguns brilham hoje em grandes centros, aplicando lá fora o que não lhes foi permitido exercer “aqui dentro”. Foram vencidos por um monopólio silencioso que, por anos, afastou mentes brilhantes em nome de favores, vaidades e remunerações precárias.
Não se trata de desmerecer o cliente, tampouco os colegas e entrantes de mercado. Mas é preciso reconhecer: essa dinâmica enfraqueceu nosso ecossistema. Valorizar o profissional local não é um gesto de caridade — é uma decisão estratégica. É sobre inteligência coletiva, sobre construir com quem está ao lado, e não apenas com quem aparece no feed. Porque não se trata de ter. Trata-se de ser. E o que tem valor não tem preço.
É chegada a hora de escolhas mais conscientes. Porque, às vezes, opta-se pelo mais barato — e se colhem resultados medíocres. E, quando enfim aparece quem sabe fazer, a remuneração financeira assusta. Até que se paguem milhões por um logotipo sem alma, ou por uma consultoria que não muda nada — exceto a conta bancária de quem vendeu.
É urgente resgatar o respeito.
Pelas consultorias que pensam.
Pelas agências que constroem valor.
Pelos especialistas que estudam o mercado com profundidade.
É tempo de reposicionar o mercado local. De honrar o que já fomos — não por nostalgia, mas por responsabilidade. Porque, quando o talento local vira subscrito, quem perde não é apenas quem cria. É todo o ecossistema que depende dessa criação para evoluir.
É hora de reconstruir. Com critério. Com orgulho.
E mesmo que o cansaço exista — e ele existe — é preciso lembrar:
sabemos o que fazer.
Já fizemos antes.
E podemos fazer melhor.