Velozes, furiosos e incompetentes. Afinal, onde estão os grandes líderes?

Por Redação

09/07/2025 11h08

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Vivemos uma era marcada pela pressa, ruído e superficialidade. Corremos — mas para onde, exatamente? Enquanto o mundo se debate em guerras sangrentas e instabilidades diplomáticas, assistimos, quase anestesiados, ao colapso da liderança global e corporativa. Onde afinal estão os grandes líderes que podemos seguir não pelo medo, mas pelo exemplo, admiração, talento e coerência?

Os conflitos que hoje assolam o planeta — Israel e Hamas, as tensões com o Irã, envolvendo Estados Unidos e Catar por exemplo – economias importantes para a estabilidade mundial – dada as devidas proporções – e a prolongada guerra entre Ucrânia e Rússia — são apenas a face visível de uma crise mais profunda: a ausência de líderes preparados, íntegros e estrategicamente lúcidos. A verdade se tornou um luxo, os acordos são violados com frieza, e vidas humanas são tratadas como peças de um tabuleiro geopolítico distorcido.

No passado, (não tão distante de nós), o mundo já havia experimentado esse vórtice de imprudência. A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) ceifou entre 15 e 22 milhões de vidas — cerca de 9 a 11 milhões de militares e 6 a 13 milhões de civis. Já a Segunda Guerra Mundial (1939–1945) foi ainda mais brutal: entre 70 e 85 milhões de mortos, representando cerca de 3% da população global da época. Dessas, aproximadamente 50 milhões foram vítimas diretas de batalhas, genocídios e bombardeios, enquanto outras 20 a 30 milhões sucumbiram à fome, doenças e miséria que se seguiram ao conflito (fonte: ONU.com)

Os custos econômicos da Segunda Guerra também foram astronômicos. Somente os Estados Unidos gastaram o equivalente a US$ 5,74 trilhões (em valores corrigidos para 2024), algo como 35% do seu PIB à época. Ao redor do mundo, trilhões de dólares foram drenados de economias nacionais, o comércio global colapsou e diversas nações mergulharam em décadas de reconstrução. Não vou citar aqui outros conflitos de grande importância que retardaram o avanço da sociedade moderna e de sua população, pois esse artigo não é sobre guerras, nem tão pouco posições políticas, mas é sobre liderança (ou a falta dela). 

Esses números não são apenas registros históricos. Eles são alertas. E nos perguntam: que tipo de líderes permitimos ocupar as cadeiras de decisão hoje?

O que vemos não se limita ao palco político. Dentro das empresas, o retrato é parecido — e igualmente preocupante. Muitas organizações estão perdendo relevância, mercado e propósito porque são lideradas por executivos que confundem velocidade com direção, e visibilidade com visão. Falta escuta, falta análise crítica, falta a coragem de pensar antes de agir. Precisamos de líderes menos instagramáveis. Grandes marcas não se movimentam fazendo show business. Organizações autenticas não se sustentam falando o que não deve e dizendo coisas que não consegue provar que faz e entrega.

Um caso emblemático é o da Nokia, que no início dos anos 2000 era líder mundial em telefonia móvel. A empresa dominava o mercado com folga, mas falhou em compreender a revolução dos smartphones. A cultura interna era fragmentada, as lideranças ignoravam sinais externos e prevalecia a lógica de manutenção da hegemonia. Resultado? Em poucos anos, foi atropelada por Apple e Android, perdendo quase toda sua participação de mercado.

Poderia citar muitas outras e até mesmo marcas regionais e locais.  Mas a lição é clara: a falta de liderança competente, adaptativa e profunda pode destruir impérios — empresariais ou nacionais.

A pressa com que vivemos e tomamos decisões tem atropelado a escuta, o pensamento estratégico, a análise de cenários. Fala-se sobre propósito e valores com uma frequência quase publicitária, mas poucas organizações possuem líderes capazes de verdadeiramente viver e sustentar tais princípios no cotidiano, com inteligência emocional, clareza ética e capacidade de execução.

Assim como as guerras destroem culturas, cidades e futuros, o mau gerenciamento organizacional destrói marcas, pessoas e mercados. Estamos em um ponto de inflexão: ou buscamos lideranças mais competentes e humanas, (com capacidade analítica e amplo conhecimento técnico, cultural, e que goste de pessoas) ou seguimos rumo a um colapso ainda maior — veloz, furioso e cada vez mais cego.

Para mudar essa trajetória, é preciso perguntar: Quem está nos liderando — e com que preparo? Esses líderes escutam ou apenas reagem? Sabem decidir com base em dados e consciência — ou seguem reféns de vaidades e narrativas rasas?

Não podemos mais aceitar líderes que confundem ego com autoridade, ou que se movem por instinto em vez de inteligência. O futuro — das nações, das empresas, das próximas gerações — depende da coragem que tivermos hoje para exigir, formar e sustentar líderes de verdade. Porque propósito sem liderança é apenas retórica. E retórica não segura uma guerra — nem salva uma empresa.

Simone Moura
Fundadora da Ping Pong Estratégia e CMO da Medeiros Distribuidora & 365 Medeiros
Simone Moura é formada em comunicação social, especialista em branding, MBAs nas áreas de marketing, comportamento de consumo e neuro marketing, e cursos de especialização na Universidade de Harvard em disrupção e teorias jobs to be done. Mestre e Doutora em Comunicação e novas tecnologias pela Universidade do Minho, Portugal, e especialista em neurociência aplicada ao consumo Possui 30 anos de atuação profissional e já contribuiu para vários players de diversos segmentos como indústria, varejo, serviços e publicidade e propaganda. Simone tem vasta experiência em planejamento estratégico de comunicação com foco em propósito, posicionamento de mercado e gestão de branding. É embaixatriz da Ikigai Brasi. Fundou a Ping Pong Estratégia em 2010 e atua em todo o Brasil.