O gesto é uma sutileza dos erros que não param de intervir na vida cotidiana. Diz sobre um desejo de recomeçar e reparar as fissuras vividas. Respondo ao artigo de Alex Williams e argumento que a transição dos cliques para os gestos não é meramente técnica, sem embargo, é fenomenológica. Com base em Alfred Schutz, mostro como interfaces baseadas em gestos reconfiguram os motivos dos usuários, as estruturas temporais e a relevância social. Em última instância, defendo um design mais inclusivo e atento ao contexto, que reconheça os gestos como expressões de uma agência situada.
Contexto introdutório: Alex Williams descreve um fenômeno historicamente contingente: a migração das interfaces gráficas baseadas em ícones para ecossistemas centrados em gestos. Relata que 82% dos usuários hoje preferem controles gestuais (Statista, 2023), um dado que, em grande medida, sinaliza a crescente centralidade da interação corporificada na arquitetura da experiência do usuário. Crucialmente, essa mudança não é apenas técnica; ela é fenomenológica. Substituir cliques por deslizamentos reconfigura, simultaneamente, a estrutura temporal da ação, a condicionalidade da agência e o discurso normativo do design. Como observou Alfred Schutz, “o projeto da ação é construído no tempo interno” (Schutz, 1967, p. 70). Gestos como deslizar, pinçar ou arrastar comprimem a distância entre intenção e realização; o usuário que amplia um mapa com dois dedos não representa um objetivo, este o realiza instantaneamente.
Ambivalência entre produtividade e bem-estar: Essa contração temporal pode catalisar a eficiência e elevar a satisfação com a vida; contudo, também pode intensificar a conectividade constante, corroendo os limites do descanso. Notavelmente, a rápida adoção de scripts gestuais, mesmo entre crianças, revela o poder das tipificações sedimentadas: gestos como pinçar para ampliar ou dar dois toques tornam-se receitas prontas no Lebenswelt digital. Não obstante, toda tipificação carrega o risco de estereotipia. Interfaces que presumem duas mãos livres, iluminação estável e ambiente silencioso reproduzem uma identidade socialmente forjada, jovem, ágil, desimpedida. Usuários com tremores, cuidadores com bebês no colo, passageiros espremidos em ônibus enfrentam o descompasso entre script e realidade; o efeito cicatricial resultante degrada a usabilidade e reforça silenciosamente hierarquias de status social.
Naturalização e apagamento dos motivos: Williams afirma que os gestos parecem “mais naturais e intuitivos”. De fato, essa naturalização pode obscurecer os motivos porque subjacentes à ação. Quando uma interface reage apenas ao ato visível, ignorando biografia, contexto ou responsabilidades de cuidado, a razão do gesto desaparece. Em nível societal, tal apagamento alinha-se ao modelo da privação latente: a perda silenciosa de identidade e sociabilidade quando as condições plausíveis para a agência são minadas. Paradoxalmente, um design que busca libertar pode, ao negligenciar motivações antecedentes, enfraquecer a própria autonomia que pretende fortalecer.
Flexibilidade como justiça interacional: Entre os seis pilares do design propostos por Williams (simplicidade, acessibilidade, contexto, sugestões, testes e flexibilidade) o último normativamente decisivo. Interfaces flexíveis aceitam variações na velocidade dos gestos, zonas alternativas de toque e complementos por voz; em outras palavras, reconhecem estruturas de relevância plurais e dinamicamente hierarquizadas. Tal abertura mitiga o efeito de uma fissura da exclusão de quem está fora do script dominante e reconfigura a interface como um espaço genuinamente dialógico.
Gestos e biometria (segurança e status): A crescente fusão entre gestos e autenticação biométrica promete fluidez e maior bem-estar subjetivo; porém, interceptações maliciosas podem transformar esse ganho em ônus identitário. Com cerca de 2.200 incidentes cibernéticos diários (Symantec, 2024), qualquer violação erode rapidamente confiança e status. A lição parece legível: sem criptografia robusta e governança transparente, os gestos deixam de ser atalhos elegantes e se tornam vulnerabilidades normativamente pesadas.
Aprendizado de máquina, multimodalidade e excedente preditivo: O autor de The Evolution of User Interface Design prevê que o refinamento por aprendizado de máquina e a multimodalidade voz-mais gesto expandirão a acessibilidade. Entretanto, essa convergência reacende debates sobre ativação do mercado de trabalho pela IA. Se os sistemas antecipam intenções antes que se manifestem como gestos, quem controla o excedente preditivo, o usuário, o Estado ou a corporação? A antecipação pode reforçar desigualdades ou mitigar divergências, dependendo da governança algorítmica. Em termos práticos, programas de tecnologia inclusiva poderiam ensinar gestos alternativos a idosos ou pessoas com mobilidade reduzida, enquanto estratégias de design centradas no cuidado consultariam cuidadores formais e informais para mapear obstáculos invisíveis. Tais iniciativas catalisam não apenas a adoção, mas a coesão comunitária, moldando ambientes de trabalho-mímico menos excludentes e psicologicamente menos lesivos.
Implicações finais: Incorporar Schutz esclarece que toda inovação de interface reconfigura estruturas motivacionais que sustentam a vida social online. Gestos não são atalhos neutros; são dispositivos de presença que redefinem relevância, recodificam status e projetam futuros. Em última instância, a tarefa não é meramente otimizar a precisão do deslize, mas garantir que cada gesto reconheça, e valorize, a história, condição e expectativa de quem o executa. Um programa de pesquisa relevantemente integrado, que una engenharia, ciências sociais e design crítico, pode traduzir métricas de engajamento em indicadores de justiça, participação e bem-estar, tornando a virada gestual politicamente plausível, porém radical, em vez de um instrumento involuntário de exclusão.
Finalizo intervindo que as interfaces que incorporam gestos em suas jornadas de experiência e em suas camadas de interação se destacarão pela simplicidade e acessibilidade, bem como em relação ao contexto, sugestões, testes e flexibilidade. Isso é mais do que uma evolução de telas, traduz um apoio à justiça interacional.