Fazem falta os amigos e o futebol que memora. Os novos, como diz o sábio ditado: Novum librum vetus substituit. Não escrevo sobre substituição, sem embargo, remeto o último gol que vivi. Não sei bem por que, mas nunca consegui chamar Google de “a”. Desde aquele livro técnico que folheei em 2006, sempre soou no masculino. O “império”, ao invés da “firma”, sipá, como já disse. Por isso mesmo, o título desta croniqueta já me apareceu inteiro: Gol do Google. E o foi, num jogo de um a zero do Botafogo sobre o PSG, tarde da noite, quando meu dedo foi fisgado por uma bolinha azul escondida no canto inferior da tela. Era mais de meia-noite no Brasil. E foi aí que começou o jogo dentro da tela do buscador.
Exprimo uma travessia pelas oito camadas do gramado de meu Diário da Experiência, ferramenta que me guia sempre que escrevo esta croniqueta, mesmo que o campo seja feito de toques e pixels.
A escolha do time já instaura o primeiro quadro. Botafogo contra PSG no Mundial 2025: o dado simbólico está lançado. O Google não apostou no jogador como cifra, mas como dono da bola. Um golaço de design numa era em que o vício do bet corrompe até a pausa do gole. Vi isso de perto em Montenegro, nas rua com cachorros de Nikšić, cada esquina uma casa de aposta. Que terror!
No frame do Google, depois do encontro com o game, o jogador encontra uma bola gigante e um goleiro faceiro em sua tela. A cena me levou de volta ao Gol Show, do Silvio Santos, onde a ludicidade era carnaval de várzea. Nada parecia estranho ainda. Cada jogada minha somava ao placar coletivo do Botafogo. E esse gesto simples, de jogar para a torcida, ancorou meu afeto ali. “Gooooooogle!”, gritei no íntimo, como nos tempos de antes da Alphabet.
O tom era de surpresa, euforia calma. A cada defesa do goleiro, sem nenhum embargo, uma micro-quebra no keying: o jogo reiniciava como quem finge que nada aconteceu. E eu, que só queria marcar vinte gols para o Botafogo, me vi subitamente acompanhando a cena com o coração de um torcedor em campo. Na imaginação, eu estava com Tio Kal e Marcelinho, meus botafoguenses do Ceará. O tom fazia com que a meta deixasse de ser minha: era da gente.
O ritmo era música, literalmente. Uma trilha em tom de caça-níquel de Atlantic City, cidade onde trabalhei enquanto steward há exatos vinte anos. Quando errava o gol, o som murchava; ao acertar, o som explodia. Cada deslizar de dedo sobre a bola fazia o jogo avançar com a fluidez do samba. E mesmo que os torcedores no fundo da tela pulassem todos igualzinho, sem camisa do Fogão, eu sabia que estavam comigo.
Eu não era “usuário”. Eu era ator-torcedor e jogador, um papel duplo, ritualizado. Reclamo que Google ali não era buscador. Era palco. Foi quando me dei conta: em dez anos, a firma será tudo, menos buscador. Isso, o ChatGPT já assumiu. A minha ginga, meu jeito de deslizar a bola, de vibrar a cada gol, de parar por uns segundos e pensar “e se eu estivesse no vestiário com Barboza, o zagueiro-matador?” – era minha laminação sensível. Quando percebi a hora, puxei a aba do navegador pro lado. Tela azul. Cena encerrada.
O jogo começou sem anúncio. Ao procurar “Jogo Botafogo” no buscador, nada. Mas ao digitar “Mundial”, lá estava ela: a bolinha azul, me esperando. Improviso puro. E cada vez que o goleiro me vencia, minha ginga era reinventada: um novo gesto com o dedo, um novo ângulo, uma nova desculpa pro erro.
Claro que as ações eram ritualizadas. Dedo, rosto, expressão. Gol ou não gol. O som mudava, o ritmo dançava com o goleiro. A cada tentativa, a performance se refazia. A cada defesa dele, eu ria. A cada gol, meus ombros vibravam. Era noite funda, mas a alegria era de domingo no Engenhão. Salve, o grande Méier.
Simulei domínio. Fingi que sabia o que fazia. Era tudo gambiarra elegante. O goleiro fingia também: ia pro lado, pro outro. Eu tentava imitá-lo, burlá-lo, ludibriar. E nisso aprendi. Por tentativa e erro. Por desejo de permanecer.
O jogo virou memória. Me lembrou os tempos do Kochav no Rio, os gritos na sala com minha irmã Aninha, com irmão Stephan, com o irmão Leandro. Era tudo camisa alvinegra. O gesto virou hábito. Cada acerto repetido, cada movimento memorizado.
E, às 16h, quando Botafogo enfrenta o Atlético de Madrid na sequência da competição, sei que Marcelinho estará jogando também. Cada um com seu celular, talvez sem saber um do outro, mas na mesma partida simbólica. A nossa vitória, seja no placar ou na experiência, já está garantida.