Um tuíte do Bluesky

Por Redação

09/06/2025 15h53

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Remeto minha experiência no Bluesky, depois de ter desistido de interagir com X. Foram imersões inúmeras, tragos densos em cada gole de Space, até que o excesso de ruído me fez abandonar de vez a plataforma de Musk. Comparo algumas funcionalidades e exprimo minhas experiências em algumas telas, seguindo os oito estádios do Planejamento em UX, ainda que aqui eles não apareçam como partes, mas como marcas no corpo do uso. 

A experiência começa num frame que me pacifica: não pela tecnologia, mas pela pausa. Sinto um tempo outro. O enquadre é de começo, e nisso, a ancoragem se faz no pequeno gesto de ver surgir a hashtag #AcademicSky. Diferente do X, onde se corre atrás do algoritmo, aqui o tempo se abre para o encontro. Cada nova notificação carrega a promessa (nem sempre cumprida) de uma conexão relevante. E mesmo que a tela demore para abrir, que os três segundos pareçam três dias, ainda assim algo no campo de busca me devolve o sentido: encontrar alguém com quem compartilhar o que penso. 

Esta croniqueta nasce desse reencontro, e das perguntas que me atravessaram ao entrar nesse novo campo de experiência: que quadros estruturam o uso? Quais âncoras tornam a navegação relevante? Que ritmos organizam, ou desorganizam, o tempo do gesto? O que se transforma quando mudamos de mídia, e não apenas de interface?

O tom da experiência, o keying, como gosto de reclamar em Nosso UX,  mistura nostalgia e reinvenção. Há um quê de retorno à casa do passarinho azul, mas desta vez em silêncio, com menos espasmos. A borboleta voa mais lento. É um tom despretensioso: entre o lagarto e o voo, entre o gesto de procurar e a surpresa de achar. A ausência de publicidade é um estranhamento bonito: não sou interrompido por anúncios, e isso muda tudo. Diferente do X, que virou um terreiro de leads histéricos, aqui minha atenção não é vendida, esta se repousa.

O ritmo do app tropeça. A resposta vem no atraso: o carregamento lento faz o céu parecer suspenso em buffer. Vejo, sem embargo, um “faz-não-faz” no Banrisul, aguardando algo que não chega, como se os segundos se alongassem para além do suportável. Há ciclos ou padrões rítmicos recorrentes? Sim, o ciclo da hesitação. A cada clique, uma dúvida: vai abrir? Vai carregar? Ainda assim, quando finalmente se abre, o que aparece me faz ficar. A timeline, mesmo com seus soluços, é limpa, relevante — e me devolve algo que o X me tomou: o desejo sincero de interagir.

Reclamo, ainda, que papéis sociais os usuários assumem? Em minha bolha, os que cruzam meu feed são professores, pesquisadores, doutorandos, gente que, como eu, busca mais que curtidas: busca troca. Na minha última navegação, encontrei o pesquisador Mitsuhiro Tada, 多田光宏 — ao buscar por “Alfred Schutz”. Um encontro improvável, mas possível. A bolha acadêmica pulsa ali com uma dignidade que o Twitter deixou esvair: o céu, aqui, ainda parece promissor.

Existem laminações na experiência? Sim. As sobreposições — aquelas camadas de sentido que se insinuam entre um post e outro — operam de forma suave. Publicações sobre achados de pesquisa, bolsas, chamadas para artigos, reflexões de cátedra… Há ginga, mas é uma ginga ritualizada, quase litúrgica, própria do meio: o pesquisador se apresenta, compartilha, comenta com elegância. Há colapsos entre essas camadas? Apenas quando a tecnologia falha: o feed que não atualiza, o post que não carrega. A forma ainda não acompanha o conteúdo.

E é justamente aqui que a experiência esbarra. A preparação é ritualizada ou intuitiva? Deveria ser ritual , e em parte é , mas a lentidão força o improviso. A tática de uso, que deveria ser fluida, tropeça na demora das atualizações. O conteúdo é rico, mas o invólucro ainda é frágil. A execução das ações, curtir, postar, comentar, buscar, não é espontânea como poderia ser. Forma non sequitur materiam. É como se o céu precisasse de mais vento.

Mesmo assim, sigo. Porque a ausência de ruído é, por si, um valor. Porque aqui o conteúdo determina o ritmo, não o algoritmo. Porque, apesar do tempo travado, o céu ainda respira. Diferente do X, onde o ritmo vivido foi devorado pelo ritmo imposto, aqui o ritmo projetado ainda tenta dialogar com o vivido. E nisso reside a esperança.

Findo aludindo aos dois últimos estádio do Planejamento em UX, a Aprendizagem (Então) e a Interiorização (Onde?) dos legados do app. No Bluesky, o conteúdo é também disfarce. As funcionalidades ainda em construção se escondem atrás de postagens que simulam domínio, mas que, na prática, apenas camuflam dúvidas. Sim, os usuários aprendem, mas não pelo uso da ferramenta, e sim pelo jogo simbólico que o conteúdo permite. As “fabricações”, como diria Goffman, são inúmeras. O gesto do pesquisador que compartilha, o professor que comenta, a doutoranda que celebra um aceite, tudo isso ensina, mas de forma enviesada. Aprende-se mais por imitação do que por instrução.

A experiência com o hash vinculado ao céu temático, no meu caso, #AcademicSky, funciona como um roteiro de socialização: sigo os que compartilham papers, os que discutem teoria, os que celebram bolsas. Mas esse aprendizado é limitado à bolha. A forma, a estrutura, a arquitetura da plataforma ainda não ensina por si. O conteúdo molda, mas o sistema não acompanha. É como se a prática social fosse maior que a própria interface.

E assim, o que se internaliza é mais afeto do que função. O quadro que se reforça é nostálgico: viver, por alguns minutos, uma nova fase azul de um Twitter que não existe mais. A borboleta azul não substitui o pássaro antigo — mas evoca sua memória. Há pouca automatização perceptível: nenhuma IA intervém, nenhum algoritmo me empurra para o ruído. E talvez isso seja bom. Porque a experiência, por ora, ainda repousa em uma leveza manual.

As ancoragens se tornam quase rituais: abrir o app, esperar, clicar na hashtag, seguir alguém da bolha. Mesmo que tudo demore, o gesto de tentar se preserva. Ainda assim, me pergunto: o Bluesky tem aprendido comigo? E com os outros? Sinto que não. A falta de investimento, a ausência de monetarização e de estratégias de retroalimentação impedem que o ciclo se feche. A plataforma ainda não conversa com meu uso. O céu, por enquanto, só observa.Findo Nosso UX, contestando não apenas as formas, mas os modos de estar em rede. Experientia docet: minha travessia pelo Bluesky me ensinou que o céu ainda pode ser um lugar de encontro, e não de disputa. Que a borboleta azul talvez viva pouco, mas voe com graça. Que o silêncio entre uma notificação e outra pode ser, também, uma forma de escuta. E que, para quem busca sentido nas interações, talvez valha a pena esperar o carregamento de uma página se, do outro lado, estiver alguém que também busca, cum patientia, cum affectu, cum curiositate.

Kochav Koren
Auditor de pesquisa na Ernst & Young
Kochav Koren é auditor em pesquisa na Ernst & Young (EY). Professor designado na Universidade do Estado de Minas Gerais. Pesquisador visitante do Zentrum für Medien- Kommunikations- und Informationsforschung (ZeMKI) da Universidade de Bremen na Alemanha (2022) e Max Kade German-American Center da Universidade de Kansas (2018). Graduado em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda em Marketing, mestre em Sociologia e doutor em Estudos da Mídia. Possui mais de dez anos de experiência em pesquisa e oito anos em docência. Inventor do software Qualichat, desenvolvido em seu pós-doutoramento na UNICAMP, entre 2020 e 2022. Fundador do Ernest Manheim Laboratório de Opinião Pública.