Por Marina Rolim, fundadora e diretora criativa Cena7
Entre falas desinformadas, selfies constrangedoras e discursos rasos, a CPI das apostas nos mostrou pouco sobre as Bets e muito sobre como imagem, vaidade e despreparo seguem moldando o debate público no Brasil.
A Comissão Parlamentar de Inquérito que deveria investigar os impactos das casas de apostas no Brasil virou palco de vaidades, selfies e discursos rasos. No centro desse novo episódio, a influenciadora Virgínia Fonseca foi convocada para explicar seu contrato com a Esportes da Sorte. Mas a sua postura foi mais de personagem do que protagonista de um debate que exigia seriedade.
As perguntas certas (que não foram feitas)
O senador Izalci Lucas levantou a questão mais sensível da audiência: se o modelo de remuneração da influenciadora estaria atrelado às perdas dos seguidores que apostam por meio de seus links. Virgínia respondeu tecnicamente, dizendo que a bonificação vinha de um aumento de faturamento da empresa e não das perdas diretamente. Mas a pergunta que ficou no ar foi: Você sabe de onde vem o lucro dessas empresas?
A verdade é simples e desconfortável: casas de apostas lucram com as apostas das pessoas. Portanto, o crescimento no faturamento vem, principalmente, do prejuízo da base de usuários. O silêncio em torno dessa lógica revela o despreparo, tanto da influenciadora quanto dos senadores, para debater o impacto social desse tipo de publicidade.
O relatório da XP citou que os brasileiros apostaram entre R$ 100 bilhões e R$ 120 bilhões no ano de 2023. O valor já corresponde a cerca de 1% do PIB.
O teatro político e os egos em cena
Em vez de focar no centro da questão, a audiência se desviou. O senador Cleitinho transformou seu tempo de fala num ato de fã: elogiou Virgínia, desqualificou os políticos como “fonte de despesa” e ainda se levantou pedindo um vídeo selfie para as filhas. Um gesto que beira o constrangimento e que desencadeou uma sucessão de defesas egocentradas dos demais senadores. O que se viu ali não foi um inquérito, mas um duelo de egos.
A fala do senador Dr. Hiran, presidente da CPI, tentando evitar que “aquilo virasse um circo”, foi simbólica. Mas era tarde demais. O espetáculo já estava em curso.
A imagem da influenciadora: um desserviço à sua própria classe
Virgínia sentou à mesa da CPI com moletom estampado com o rosto da filha, uma garrafa rosa ao lado e um discurso que oscilava entre a ingenuidade e a evasividade. Reforçou que segue as leis e que não trabalha com plataformas não regulamentadas. A postura foi clara: a de inocente, de quem não sabe como funcionam as casas de apostas.
Virgínia não se posicionou como a empresária milionária que é. Não defendeu seus critérios, nem levantou o debate. Com isso, deixou no ar a mensagem de que influenciadores são apenas rostos bonitos e desinformados, incapazes de compreender o impacto de sua própria atuação.
Além disso, Virginia se recusou a revelar quanto recebeu pelas publicidades. Mas temos uma pista da grandeza envolvida quando lembramos que o influenciador Felca, com 7,5 milhões de seguidores, recusou uma proposta de R$ 50 milhões por apenas três meses de contrato com uma casa de apostas. Virginia tem mais de 50 milhões de seguidores, uma base de audiência bem maior que a de Felca. Ou seja, estamos falando de valores que ultrapassam qualquer padrão publicitário comum no Brasil.
Vale ressaltar que, logo depois da CPI, Virgínia divulgou nos stories 71% de desconto nos produtos da sua marca, a WePink. Com o espetáculo da CPI finalizado e a imprensa inteira focada na imagem dela, essa foi a estratégia comercial.
O que essa CPI realmente nos ensina
A CPI das Bets nos deixou poucas respostas concretas sobre as casas de apostas. Mas nos ensinou muito sobre imagem, discurso e responsabilidade. Influenciadores não são apenas publicidades ambulantes – são formadores de opinião. E o mínimo que se espera de quem movimenta milhões é consciência sobre o que promove e como se posiciona.
Do lado político, vimos mais um episódio de vaidade e despreparo. Do lado da influência, vimos uma oportunidade desperdiçada de elevar o debate.
Enquanto isso, o Brasil segue entre discursos vazios e curtidas fáceis. Mas no fim das contas, quem paga a conta, nas apostas ou nas redes, continua sendo o brasileiro.