Artigos

O futuro da produtividade não está em mais horas de trabalho, e sim em trabalhar melhor

Por Redação

15/04/2025 11h10

Compartilhe
  • Whatsapp
  • Facebook
  • Linkedin

Por Thais Requito, especialista em desenvolvimento humano, inteligência emocional e produtividade sustentável

Trabalhar mais significa produzir mais? 

Essa é uma ideia que nos acompanha há séculos, mas que merece ser revisitada diante de tantas transformações no mundo – e no mundo do trabalho. Para entender como chegamos até aqui – e como podemos nos livrar da produtividade tóxica – precisamos viajar no tempo e conhecer a história da produtividade.

O conceito surgiu no século XVIII, inicialmente ligado à capacidade da agricultura de gerar riqueza a partir de recursos naturais. Com a Revolução Industrial, a produtividade passou a ser sinônimo de eficiência no uso de máquinas e do trabalho humano, impulsionando os primeiros modelos de produção em larga escala. No século XX, a busca pela padronização e otimização de cada etapa do trabalho consolidou a ideia de que mais tempo de trabalho equivalia a maior produção. 

Esse modelo de produtividade foi pensado para um mundo industrializado, onde o trabalho dependia de repetição e presença física. Mas no século XXI, onde criatividade e tecnologia são protagonistas, faz sentido continuar medindo produtividade com as mesmas regras do passado?

Estudos mostram que profissionais exaustos são até 25% menos produtivos. Além disso, o burnout custa bilhões em absenteísmo e queda de produtividade para as empresas. O relatório Futuro do Trabalho 2025, do Fórum Econômico Mundial, também aponta a flexibilidade como um dos principais pilares do trabalho moderno, com impactos diretos na produtividade e no engajamento dos profissionais.

A recente proposta da deputada Erika Hilton de eliminar a jornada 6×1 e reduzir a carga horária semanal para 36 horas é um passo relevante nessa transformação. Empresas que experimentaram semanas reduzidas, como Microsoft Japão e Unilever na Nova Zelândia, relatam não apenas maior bem-estar dos funcionários, mas também um aumento de até 40% na produtividade. 

Países como Islândia e Reino Unido testaram modelos de jornada reduzida com ganhos expressivos de produtividade e satisfação dos trabalhadores. Esses dados sugerem que a produtividade não tem relação direta com a quantidade de horas trabalhadas, mas sim com a qualidade do tempo, a eficiência dos processos e o bem-estar dos trabalhadores.

Uma pesquisa do Datafolha revelou que 70% dos brasileiros apoiam essa mudança, o que demonstra um desejo crescente por novas formas de equilibrar trabalho e vida pessoal. Mas reduzir a jornada sem uma mudança na mentalidade de produtividade não resolve o problema. Sem mudanças reais nos processos e nas métricas de produtividade, a redução da jornada pode se tornar apenas um novo formato de sobrecarga, onde menos tempo significa mais pressão para entregar os mesmos resultados. Para que uma mudança desse porte funcione, precisamos falar sobre eficiência, autonomia e novas métricas de produtividade – e não apenas sobre horas trabalhadas.

A verdadeira produtividade sustentável não se resume a menos dias trabalhados. Hoje, empresas inovadoras já utilizam inteligência artificial e automação para eliminar tarefas repetitivas, liberando os profissionais para trabalhos mais estratégicos. Modelos baseados em eficiência – e não em horas trabalhadas – estão mostrando que é possível produzir mais, com menos desgaste.

Além disso, empresas que investem em cultura organizacional saudável, segurança psicológica e liderança regenerativa conseguem reter talentos por mais tempo e fomentar um ambiente de inovação contínua. Um estudo do Fórum Econômico Mundial mostrou que organizações com políticas inclusivas e modelos flexíveis têm 35% mais chances de superar concorrentes em desempenho financeiro.

A mudança na jornada de trabalho é um passo importante, mas não podemos parar por aí. A verdadeira revolução da produtividade sustentável passa por redefinir prioridades, melhorar as relações de trabalho e criar ambientes que favoreçam a criatividade e o aprendizado contínuo.

Empresas que entenderem e aplicarem isso agora sairão na frente. As que insistirem em modelos ultrapassados, cedo ou tarde, perderão espaço para quem souber inovar.

A pergunta que fica é: sua empresa está preparada para essa nova realidade?