Critérios em evolução e o novo papel dos recrutadores no mundo do trabalho
O processo de recrutamento e seleção passa por uma transformação profunda. Se antes estabilidade e longevidade no currículo eram sinônimo de confiança, hoje, adaptabilidade, propósito e inteligência emocional ocupam o centro da análise. As gerações atuais têm desafiado práticas tradicionais e exigido uma nova postura de quem seleciona: mais sensível, estratégica e conectada às realidades humanas.
Segundo Bruno Goytisolo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-DF), nos dias de hoje, os processos seletivos passaram a valorizar habilidades comportamentais e inteligência emocional. “Embora as habilidades técnicas ainda sejam importantes, prioriza-se identificar candidatos com alta capacidade de comunicação, adaptabilidade, colaboração, pensamento crítico e sobretudo, a capacidade de aprender rapidamente. Dentre os critérios que perderam peso, destacam-se o tempo de empresa e a estabilidade prolongada. Atualmente, experiências variadas e até mudanças frequentes podem indicar versatilidade”, explica.
Novos filtros do recrutamento
Os processos de recrutamento, de acordo com Bruno Goytisolo, têm sido adaptados no sentido de atrair e reter talentos alinhados com o futuro do trabalho. Cada uma das questões valorizadas pelas novas gerações devem ser inseridas nos processos. Como exemplo, Goytisolo cita que as descrições das vagas devem incluir missão e valores da empresa, além disso, as entrevistas devem abordar motivações pessoais, engajamento com causas e visão de mundo. Pois, por outro lado, candidatos também “avaliam” a empresa, não apenas o contrário.
Sobre diversidade, a atenção começa desde a linguagem inclusiva nos anúncios e se estende à análise de viés inconsciente nos filtros iniciais. Já o bem-estar aparece como diferencial competitivo, com destaque para a forma como a empresa se posiciona como marca empregadora e cuida da experiência do colaborador desde o primeiro contato.
Na avaliação de competências socioemocionais, o presidente da ABRH-DF destaca o uso de entrevistas por competências, com base no modelo STAR (Situação, Tarefa, Ação e Resultado), além de testes psicométricos validados cientificamente, como formas eficazes de evitar vieses e tornar a análise mais precisa.
A perspectiva da psicologia no recrutamento
Para a psicóloga e diretora executiva da Véli RH, Daniela Araújo Lustosa, a principal mudança entre as gerações está no relacionamento com o trabalho e com as emoções. “Emocionalmente, eu vejo uma geração que fala sobre saúde mental com mais naturalidade, que questiona padrões e que valoriza o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (ou, como muitos preferem dizer, vida e mais vida). Comportamentalmente, são mais inquietos, conectados e com uma necessidade de propósito e pertencimento muito presente”, afirma a diretora e psicóloga.
Para Daniela, essa mudança se reflete diretamente nas entrevistas. “São candidatos que não têm medo de fazer perguntas, que avaliam a cultura da empresa com o mesmo peso que o salário, e que buscam ambientes onde possam ser autênticos”, diz. Para avaliar as soft skills com mais precisão, a psicóloga recomenda que as entrevistas sejam realizadas por “competências, simulações, dinâmicas, e até o famoso ‘conta uma situação em que…’ ajudam bastante”. Mas além disso, escutar de verdade, ouvir o tom, as pausas, os exemplos reais, é o que de fato revela muito sobre essas habilidades em um candidato, de acordo com a psicóloga.
“Mais do que ‘avaliar para filtrar’, o ideal é avaliar para compreender quem está do outro lado e o que essa pessoa pode construir com a empresa, porque soft skills não são só critérios de escolha, são convites para boas conexões”, destacou.
Papel do recrutador
A diretora da Véli também chama atenção para o papel formador do processo seletivo, especialmente com os jovens em início de carreira. “Nem sempre é preciso ter todas as respostas logo de início. Os processos podem ser também espaços de acolhimento e orientação”, afirma. Para ela, ferramentas como entrevistas estruturadas, devolutivas, testes comportamentais e dinâmicas são “espelhos e bússolas ao mesmo tempo: ajudam a mostrar o que está ali, mas também a apontar caminhos”.
Como presidente da ABRH-DF, Goytisolo também reforça o papel da associação como mediadora e disseminadora das melhores práticas de gestão de pessoas, destacando ações como o Prêmio Ser Humano, que reconhece projetos de excelência no setor.
Nesse sentido, como especialista e representante da área, Bruno diz que a figura do recrutador também mudou. “O recrutador é um agente de transformação cultural, pois precisa equilibrar tecnologia com empatia, processo com propósito, e gerações com diálogo. Tem ocorrido uma mudança clara e profunda no papel dos recrutadores. Eles deixaram de ser apenas “preenchedores de vagas” para se tornarem curadores de talentos, educadores organizacionais e tradutores culturais intergeracionais. Essa evolução reflete a complexidade atual do mercado de trabalho, que exige mais do que técnicas de seleção: exige mediação humana, empatia e visão estratégica”, enfatizou.
A psicóloga conclui destacando a importância de os profissionais se atualizarem constantemente, não só em ferramentas e metodologias, mas também em linguagens, culturas e novas formas de trabalhar. Para a especialista, a agilidade que o mercado exige não pode atropelar o cuidado, “por isso, o papel do RH hoje é também o de mediar, traduzir, sustentar”.
“Em resumo, acredito que a nossa missão é ser ponte entre o humano e o estratégico, entre a urgência e o que realmente importa. E quando fazemos isso com consistência e sensibilidade, conseguimos gerar valor para as organizações e para as pessoas que fazem parte delas”, concluiu.