16ª edição

Matéria | Saúde social: conexões humanas são o antídoto contra o colapso emocional nas empresas

Por Redação

07/07/2025 12h03

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Durante décadas, o ambiente corporativo valorizou produtividade, metas e performance acima de tudo. Mas uma nova variável está se impondo com força nos debates sobre o futuro do trabalho: a saúde social. O termo, que até pouco tempo era desconhecido fora da academia, hoje ganha espaço em rodas de executivos, eventos, e, mais importante, nas decisões estratégicas de empresas que querem sobreviver à era da exaustão emocional.

Mas afinal, o que significa ter saúde social no ambiente de trabalho? De acordo com a psicóloga Wedja Costa, especialista em comportamento organizacional, a saúde social no contexto organizacional refere-se à qualidade e bem-estar das interações e relações humanas no ambiente de trabalho. Segundo a especialista, esse conceito se manifesta quando as pessoas se sentem valorizadas, inspiradas e colaboram naturalmente.

“Esse conceito ganha relevância porque a qualidade das relações interpessoais é um fator determinante para a produtividade, a satisfação, o engajamento e a saúde geral dos colaboradores”, afirma Wedja. Ela alerta que ignorar esse aspecto tem consequências sérias e “pode levar a efeitos negativos na saúde em níveis psicológicos, físicos e sociais”. Nessa discussão, o ponto central é que não há empresas sem pessoas. Além disso, esses indivíduos, como destaca Wedja, são “seres relacionais, emocionais e sociais”. Portanto, cultivar um ambiente que favoreça a conexão humana não é um capricho, é uma estratégia de sobrevivência organizacional.

Desconexão que custa caro

De acordo com uma pesquisa global da Gallup, 60% dos colaboradores estão emocionalmente desligados do trabalho. Isso significa que mais da metade da força de trabalho sente que apenas “cumpre tarefas” sem qualquer envolvimento afetivo ou propósito claro. O impacto vai muito além da produtividade.

Para a psicóloga Wedja Costa, esse afastamento afetivo tem origem em uma combinação de fatores. Ela explica que “uma ‘cultura tóxica’ que desrespeita indivíduos, impõe regras rígidas, desestimula o crescimento e ignora problemas gera um clima negativo, prejudicando comunicação e cooperação”. Outro ponto relevante trata-se da falta de clareza de função, ausência de reconhecimento, baixa autonomia e relações interpessoais frágeis também entram na conta. “Além disso, a desconfiança entre membros da equipe, o medo de expressar vulnerabilidades e a sensação de irrelevância em relação ao trabalho ou aos objetivos da empresa podem dissipar a energia e a motivação, levando à baixa produtividade e à estagnação”, ressalta.

Relacionamento é saúde literal

De acordo com os especialistas da Universidade Brigham Young, do estado do Utah, e do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte, a importância de ter uma boa rede de amigos e boas relações familiares é comparável a deixar de fumar e supera muitos fatores de risco como a obesidade e a inatividade física. Ainda segundo o estudo, após analisar os dados de 308.849 indivíduos acompanhados durante uma média de 7,5 anos, os cientistas descobriram que as pessoas com mais relações sociais têm 50% mais chances de sobrevivência do que quem se relaciona menos com outras pessoas.

Ou seja, laços humanos reduzem o risco de doenças crônicas e aumentam a longevidade. Wedja Costa pontua que essa descoberta muda tudo. “Na prática, ressalta a urgência de líderes e equipes priorizarem ativamente a construção de relacionamentos saudáveis. Significa que a confiança, a comunicação aberta e a colaboração não são apenas “boas práticas”, mas elementos vitais para a saúde mental e física dos trabalhadores, além de impulsionarem resultados organizacionais”, destacou.

Ainda segundo a especialista, para as lideranças, isso implica em modelar a vulnerabilidade, incentivar o diálogo estratégico e criar um ambiente onde erros são vistos como oportunidades de aprendizado, não como motivos para retaliação. Já em relação às equipes, a prioridade é promover o que ela chama de “segurança psicológica”, um espaço onde todos se sintam confortáveis para expressar ideias, pedir ajuda e assumir riscos sem medo de julgamento. “Os vínculos impactam diretamente o bem-estar e a produtividade”, disse.

Propósito não é palestra motivacional

Quando se trata de reverter a desconexão, um dos caminhos mais promissores é trabalhar o senso de propósito. Em contrapartida, Wedja alerta que isso não pode ser feito com discursos prontos ou frases de efeito. “As empresas podem ajudar os colaboradores a redescobrir o propósito ao articularem claramente “o porquê” da organização e o impacto que ela gera no mundo, na sociedade e nas comunidades. Isso envolve conectar os talentos individuais dos colaboradores às necessidades do mundo e aos problemas que a empresa resolve, mostrando a relevância de sua contribuição”, afirma.

Segundo a psicóloga, após períodos de exaustão ou burnout, causados muitas vezes por sobrecarga de trabalho ou falta de reconhecimento, é fundamental que a liderança redefina o que significa trabalho, focando nas dinâmicas humanas e nas relações. Para isso, é interessante que a empresa abandone o controle excessivo e desenvolva um novo relacionamento com a força de trabalho, investindo em um ambiente onde o ser humano e suas relações sejam o centro, “permitindo que a tecnologia cuide do que não é humano”.

Impacto econômico

Em sua experiência clínica, Wedja Costa reforça o que as pesquisas já indicam: o distanciamento emocional no trabalho provoca impactos sérios e mensuráveis. Segundo a psicóloga, dados apontam que ‘outros transtornos ansiosos’ foram a terceira causa de adoecimento no trabalho em 2022 no Brasil e que os transtornos mentais representaram 8,35% dos afastamentos ocupacionais.

“Globalmente, 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido a depressão e ansiedade, com um custo econômico de quase um trilhão de dólares. Em termos práticos, uma cultura que gera distanciamento leva à baixa satisfação no trabalho, aumento da tensão, estresse e intenção de rotatividade. A experiência mostra que a falta de confiança leva a comportamentos artificiais, baixa produtividade, competição interna e pouca criatividade, enquanto o medo de falhar sufoca a inovação e a experimentação”, destacou. 

NR-01

Wedja Costa conclui destacando que a recente inclusão dos riscos psicossociais na NR-1, no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), mostra que o tema começa a ganhar respaldo formal. Para ela, isso demonstra um reconhecimento regulatório da importância da saúde mental e das relações no ambiente de trabalho. Contudo, alerta que ainda há lacunas na internalização e na aplicação prática desses conceitos.

“Muitas empresas brasileiras ainda operam sob modelos antigos, focados em processos em vez de pessoas, ou confundem benefícios superficiais (como salas de jogos) com uma cultura genuína. O desafio reside em conscientizar a alta liderança sobre a necessidade de cocriar novos relacionamentos e regras, desapegando-se do comando e controle, e em traduzir a linguagem estratégica da cultura para o cotidiano, garantindo que as ações reflitam os valores declarados”, conclui.