16ª edição

Slow: tempo de pausa ganha força

Por Redação

07/07/2025 17h20

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Seja no ambiente de trabalho ou na vida pessoal, a urgência e o famoso “dar conta de tudo”, virou rotina. Porém, o movimento slow, mais do que uma filosofia de vida, começa a se firmar como resposta à sobrecarga, às distrações incessantes e ao adoecimento silencioso de quem vive em modo automático. Empresas, lideranças e indivíduos já percebem que é impossível produzir bem sem parar. E a pausa, antes vista como luxo ou preguiça, passa a ser reconhecida como estratégia de saúde, conexão e desempenho sustentável.

O burnout, mais do que um colapso individual, é também o espelho de uma falência relacional no ambiente de trabalho. Como explica Mirna Moura Holanda Tinoco, psicóloga e advogada, e CEO da Mentsaude, “o burnout é de forma reducionista um esgotamento extremo causado por condições de estresse crônico decorrente do trabalho”. No entanto, suas raízes vão além da carga de tarefas. “A empatia necessária para as relações é tomada pela impaciência e pela irritabilidade fragmentada no dia a dia”, afirma. Ou seja, quando o estresse crônico se instala, o que se perde não é só energia, mas a capacidade de se conectar, inovar e colaborar.

Estímulo demais, conexão de menos

Ainda de acordo com a psicóloga, a sobrecarga de estímulos interfere diretamente na sociabilidade do trabalho. Com isso, o afastamento social nas relações profissionais diminui a cultura de apoio, a confiança e eleva o presenteísmo que gera grande prejuízo para a pessoa, para a equipe e para os cofres da organização. 

“A sobrecarga de estímulos precisa ser amplamente discutida e cuidadosamente orientada, pois os prejuízos ainda estão na ‘Caixa de Pandora’. Sabe-se que isto catalisa a desregulação emocional, gera comprometimentos cognitivos para fazer as atividades necessárias do dia a dia na vida pessoal e profissional; afinal o córtex pré-frontal, responsável pela atenção, autorregulação e empatia, é prejudicado, uma vez que o sistema de estresse está hiperativado”, detalha.

A pausa como direito e cura

Em contraponto, em algumas organizações no Brasil, o movimento slow tem encontrado espaço na estratégia institucional. Para Maria Tereza Ramos, gerente de Marketing e Comunicação da Unimed Fortaleza, “ao desacelerar, as pessoas conseguem se reconectar consigo mesmas, percebendo os sinais do corpo e da mente, e agindo de forma preventiva”. Atualmente, a Unimed Fortaleza, conta Maria Tereza, tem investido em campanhas e conteúdos que incentivam pausas, escuta ativa e autocuidado. 

“Ao promover hábitos mais saudáveis e uma maior consciência sobre o próprio corpo e mente, ajudamos nossos beneficiários a prevenir doenças e a gerenciar melhor as condições existentes. É um investimento no bem-estar individual que gera benefícios coletivos e sustentabilidade para o setor”, diz.

Como exemplo, a campanha “Cuidar de Mim”, lançada pela empresa, trouxe à tona uma pauta ainda negligenciada: quem cuida precisa, antes de tudo, cuidar de si. Pensada especialmente para mulheres, que historicamente acumulam papéis e pressões, a ação reforça que o autocuidado é um ato de valorização, não de egoísmo. “Queremos ir além de um simples convite para cuidar-se”, explica Maria Tereza. Para ela, a campanha fomenta nas mulheres a importância de cuidar “da sua própria saúde física, mental e emocional para que possam viver plenamente e cuidar dos outros com mais plenitude e energia”.

Hype

Contudo, o movimento slow não tem se restringido apenas às empresas. Um dos fenômenos que mais crescem nas redes sociais entre jovens é o Bobbie Goods, que viralizou no TikTok com vídeos de desenhos, cerâmicas e hobbies analógicos. O perfil oficial do Bobbie Goods no TikTok acumula 1,3 milhão de seguidores. No Instagram, a página tem 462 mil seguidores e oferece kits de pintura e atividades manuais que se tornaram símbolo de uma geração que quer escapar do digital por alguns minutos ao dia.

Além disso, em 2025, tablets, celulares e videogames foram substituídos por passatempos como palavras cruzadas, tricô, cerâmica e crochê. Com o engajamento, as empresas fornecedoras têm se beneficiado com a tendência. Ainda neste ano, a Shopee realizou um levantamento, a pedido do jornal O Globo, apontando que no último trimestre de 2024, as buscas por itens relacionados à prática de crochê, por exemplo, saltaram 600% entre o público com até 17 anos. Em relação aos produtos específicos para amigurumi, técnica japonesa que cria bonecos de crochê ou tricô,  o crescimento foi de 200%.

Ainda dentro do segmento, o relatório apresentou que a procura de produtos para cerâmica aumentou 270%. Já materiais como tintas, pincéis e outros itens para pintura subiu 500% entre o mesmo público. Atrelado a isso, a psicóloga Mirna Tinoco reforça que “a parada obrigatória é uma exigência da fisiologia humana e independe do sistema econômico que estejamos inseridos”. Quando se trata de ambientes profissionais, a especialista destaca que a criação de uma cultura organizacional que valorize pausas e conexões humanas não deveria ser exceção, mas regra. 

“Precisa-se de uma mudança de narrativa, pois “trabalhar enquanto eles dormem” é falacioso e impraticável. O limite do corpo e da mente não é um ‘HD’ onde pode ser introjetado um cartão de memória para expansão. As reações orgânicas em nosso corpo precisam ocorrer de forma fisiologicamente aceitável. E, neste ‘pacote’, estão as pausas. Estas precisam ser vistas como estratégia para a performance; afinal, tratam-se de condições sustentáveis de desempenho”, ressalta Mirna Tinoco. 

Em concordância, Maria Tereza Ramos aponta que “a saúde perpassa não só pelo bem-estar físico, mas também pelo social e mental.” Com a campanha, a gerente de marketing destaca que os maiores aprendizados vieram diretamente do impacto genuíno na vida do público. “Recebemos inúmeros depoimentos de mulheres que tiveram suas vidas positivamente afetadas: algumas saíram de quadros de depressão, outras buscaram ajuda para a ansiedade, e muitas resgataram o amor por hobbies que estavam adormecidos”, contou.

Maria Tereza conclui destacando que a ação mostrou que a mensagem sobre a importância do autocuidado ressoou de forma relevante, indo além do esperado “e reafirmando a relevância de abordar esses temas de forma empática e inspiradora”.