10ª edição

Visão Empresarial | Dilma Campos

Publicado em

12/12/2023 09h06

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Dilma Campos, Founder & CEO da Nossa Praia

Uma mulher forte e inspiradora que traz consigo uma trajetória singular, a qual vai além dos holofotes do palco para se tornar uma referência global em ESG e Marketing Regenerativo.

Nesta entrevista, ela compartilha como seu começo na vida empreendedora e como isso se entrelaça com a missão de regenerar ecossistemas sociais, econômicos e ambientais.

Além disso, Dilma Campos revela sua expectativa de um futuro norteado pelo ESG e aconselha empresas para que mudem hoje, para viver melhor o amanhã.

Confira entrevista na íntegra:

Nosso Meio (NM): Atualmente você é considerada uma referência global em ESG e Marketing Regenerativo. Como esse tema chegou no seu radar e de que forma se interessou em aprofundar seus estudos?

Dilma Campos (DC): O tema ESG e Marketing Regenerativo chegou na minha vida há muitos anos atrás. Há 15 anos, quando eu tive a minha primeira incursão na jornada empreendedora. Mas o que aconteceu? Eu abri uma empresa chamada Dmagrella, ideias em movimento, e essa empresa era uma bicicleta. Naquela época, eu falava sobre sustentabilidade e sobre locomoção dentro da cidade através de bicicleta. Então eu sempre tive uma paixão muito grande pelo ESG. E aí mergulhei e vim estudando isso ao longo dos anos. Saí desse primeiro lugar e fui montar a Nossa Praia.

Aí então o tema ESG fica ainda mais latente para mim. E aí eu vou entendendo essa chegada à era da regeneração, quando surge a economia regenerativa, quando a gente começa a discutir sobre regeneração. E quando a gente vai discutindo isso, entendendo a função do marketing regenerativo no impacto positivo do que a gente precisa construir para o planeta, olhando para marcas, pessoas e meio ambiente. E aí, obviamente, fui aprofundando meus estudos com cursos de pós-graduação. Hoje dou aula de ESG no Instituto de Pesquisas Ecológicas e na ESPM [Escola Superior de Propaganda e Marketing] também. Neste contexto, você vai entrando em grupos, se juntando às pessoas, trocando ideias, compartilhando conteúdo e vai, cada vez mais, aprofundando o seu conhecimento. Foi assim que tudo começou.

NM: Sendo CEO e Partner na Nossa Praia, uma ESG Tech, você lidera uma empresa que busca regenerar ecossistemas sociais, econômicos e ambientais. Pode compartilhar algumas iniciativas ou projetos notáveis que a Nossa Praia está realizando para alcançar esses objetivos?

DC: Temos, por exemplo, um estande que recentemente ganhou o Prêmio Caio. É totalmente sustentável, sendo 85% construído com base nos princípios ESG, utilizando materiais recicláveis. Não se trata apenas de montar o estande e afirmar que o material é reciclável, e pronto, joga na caçamba. Não, todo esse material foi destinado de forma rastreável, com certificação do seu destino.

Outro projeto que também realizamos foi o gerenciamento ESG do décimo congresso de inovação da Confederação Nacional das Indústrias. Começamos mapeando o nono congresso para entender a maturidade ESG desse evento e, a partir disso, entregamos uma maturidade muito maior. Desenvolvemos esse projeto com a intenção de causar um impacto positivo.

Por exemplo, durante o evento, contamos com uma composteira que realizou a reciclagem e decomposição dos resíduos orgânicos, transformando-os em adubo. Os copos eram de papel, e as pessoas obtinham água através de máquinas específicas. Assim, não havia nenhum aspecto que não compreendêssemos ou que considerássemos prejudicial ao meio ambiente ou à questão social. Acredito também que este seja um dos primeiros eventos no Brasil a realizar um censo de diversidade em todas as empresas do ecossistema que compuseram esse espaço. Portanto, estamos inovando a partir desse olhar e pensamento ESG.

NM: Além de seu papel na Nossa Praia, você também assume a posição de Head de ESG na B&Partners.co. Como essas duas funções se complementam e contribuem para o avanço das práticas ESG no mercado?

DC: Bem, na nossa área de atuação, sou o CEO, enquanto na B&Partners, desempenho a função de Head de ESG. Como a minha empresa é uma ESG Tech e está totalmente alinhada com os princípios ESG, assumir essa outra posição dentro da rede foi, basicamente, uma transição natural. Era como uma passagem para falar sobre: “Consegue pensar nas melhores práticas ESG para outras 17 empresas?” Isso é o que fazemos na vida. Pensamos em como podemos elevar a maturidade ESG das empresas, utilizando, além da nossa plataforma, muita comunicação. Porque é através da comunicação interna que as pessoas começam a perceber o que acontece do lado de fora.

Então, esse foi realmente o nosso objetivo ao assumir esse papel. Para mim, é uma transição muito tranquila. Às vezes, um pouco estranha, especialmente após muitos anos empreendendo, retornar ao mercado de trabalho como executiva, onde é necessário cumprir algumas outras responsabilidades, mas eu não vejo essa separação. Continuo a incorporar os princípios ESG no meu dia a dia e, por vezes, até utilizo esses princípios como um laboratório com 17 empresas diferentes para entender o que deu certo, boas práticas, lições aprendidas, melhorias contínuas. É ali que permanecemos focados.

NM: Sua carreira inclui diversas atividades, desde ser conselheira da Universidade São Judas até participar do Museu das Pessoas, todas envolvendo o ecossistema de comunicação. Dentro desse know how, como você pode enxergar o varejo, um fragmento indispensável do mercado, como uma ferramenta de mídia?

DC: O varejo, de fato, é uma ferramenta poderosa de mídia, certo? E não é apenas algo indispensável, ele é o próprio mercado, não é mesmo? Quando menciono varejo, estou falando sobre o varejo de vendas, que também passou por transformações. Os comércios eletrônicos cresceram significativamente durante a pandemia. Atualmente, as pessoas compram de tudo pela internet, inclusive carros. Elas podem visitar o local, mas, com certeza, a jornada delas envolve passar por vários sites, entender diferentes modelos, até determinar qual seria vantajoso ou não, para finalmente chegar ao melhor produto e à melhor compra para elas. Portanto, o varejo é verdadeiramente indispensável. Agora, quando abordamos o ESG, há uma pesquisa recente da PWC que indica que mais de 60% dos consumidores desejam produtos que tenham alguma ligação com os princípios ESG. Esse aumento significativo, desde a pandemia até agora, destaca como os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos alinhados com esses valores.

NM: A Nossa Praia é uma empresa que visa avaliar a maturidade ESG da atuação das marcas. Como você enxerga o papel das estratégias ESG no contexto atual, especialmente no setor de varejo, e como a Nossa Praia está contribuindo para essa transformação?

DC: Quando falamos sobre ESG e olhamos para o varejo, muitas pessoas podem pensar: ‘Ah, não. Não. Somos varejo, ESG não se aplica aqui’. Mas, eu gosto sempre de mencionar que todo mundo está realizando ações ESG. Eu não conheço uma empresa que não tenha alguma iniciativa nesse sentido. Sendo assim, o varejo pode trazer muitas inovações relacionadas ao ESG, seja na forma de descartar, na forma de armazenar. Apenas na logística, já existem inovações incríveis acontecendo. Além disso, oferecer produtos alinhados com os princípios ESG para venda é outra possibilidade. Portanto, acredito que o ESG veio para ficar em todos os setores, e o varejo será, sim, no futuro, muito exigido para ter todos os pilares ESG aplicados.

NM: No contexto da crescente conscientização sobre as dimensões ESG por parte dos investidores e consumidores, como a Nossa Praia está ajudando as empresas a quantificar seus dados, estabelecer metas e alcançar um impacto positivo?

DC: Nós ajudamos as empresas a quantificar seus dados por meio de uma plataforma que adaptamos para o Brasil, onde conseguimos avaliar através de um questionário a maturidade ESG de cada empresa. A partir desse momento, geramos insights, prognósticos e entregamos para a empresa um plano de ação, certo? Mas isso é o que qualquer consultoria faria, assim como fazemos na nossa consultoria ESG.

Nesse ponto, no entanto, a partir desse momento, conseguimos mostrar para cada uma das marcas o poder da comunicação a partir desse olhar. Então, é um poder da comunicação que começa internamente, do que estamos fazendo da porta para dentro, até conseguirmos evoluir e entender e comunicar isso da porta para fora. Porque aí sim, temos a certeza de comunicar isso de uma forma que qualquer funcionário, qualquer colaborador entenda e possa dizer: ‘é isso mesmo que é feito lá’.

NM: Dada sua experiência, qual conselho você daria a empreendedores e profissionais que desejam promover iniciativas de marketing regenerativo e práticas ESG em suas empresas?

DC: Eu simplesmente diria para as marcas que a era da Regeneração já está acontecendo, não é que ela vai acontecer, ela já está acontecendo, e o marketing regenerativo vem aí para trazer a comunicação que causa impacto positivo. Então, comece de fato a entender o marketing regenerativo, comece a entender essa era da Regeneração, comece a estudar ESG e entender as suas práticas, porque esse vai ser o futuro. Não vai haver produto que tenha uma venda muito grande que consiga não externalizar o que ele está fazendo de ESG. Ele vai sim ter que externalizar, e as pesquisas mostram que os produtos que têm essa visão ESG têm, inclusive, maior fidelidade do consumidor. Então, não deixe para amanhã, comece a fazer hoje. É esse o meu conselho.

Não vamos de zero a 100 de um dia para o outro. ESG é construção, e construção demora tempo. Não adianta querer chegar de hoje para amanhã. O ESG veio para ficar. Daqui a pouco, nós vamos ver bancos oferecendo juros menores em empréstimos para empresas que têm maior maturidade ESG. Isso vai aumentando a cada ano. Então, o conselho que eu deixo é não deixar para amanhã. Começa a fazer hoje, porque quando chegar esta fase, você já estará preparado.