Não importa se houve intenção! O significado de um signo está nele mesmo e não nas cabeças das pessoas!

Por Redação

23/09/2026 13h51

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A Converse, dona da tradicional marca de tênis All Star, criada em 1917, publicou no último final de semana, uma campanha publicitária para divulgar o modelo Chuck 70 X, protagonizada pela cantora Karina, parte do grupo de K-pop Aespa, com desdobramentos em diferentes mídias. Um dos anúncios publicados nas redes sociais foi produzido em preto e branco, com exploração da mobilidade das cores e das sombras criando uma paisagem escura, tensa e um tanto sinistra.

A imagem central revela pés calçados com meias e tênis na cor preta, de uma pessoa vestida com uma longa saia branca. A iluminação de cima para baixo cria uma faixa triangular que se projeta no chão “formando” uma estrela, símbolo da marca. A intenção da imagem possivelmente era que o feixe de luz compusesse a quinta haste da estrela (a quinta ponta formada pelo corpo-saia branca iluminado).

Ao lado do corpo, cortado na altura da cintura, portanto, sem qualquer possibilidade de identificação, surge pendurado outro par de tênis, que em função da sombra, não se pode compreender se estão ou não calçados. No entanto, a imagem explícita sugere a posição de um corpo pendurado e desfalecido – os pés estão caídos, apontando para baixo.

Na campanha a informação é de que a cantora Karina estava segurando o par de tênis nas mãos, deixando-os soltos. A questão central é que quando uma imagem demanda explicações que estão fora dela, algo está bem errado. No anúncio não de localiza a pessoa, não se veem as mãos. Mas, se vê claramente, pés desfalecidos, imagem que imediatamente associados a enforcamentos ou linchamentos e um capuz pontiagudo branco, acessório utilizado pelos membros da Ku Klux Klan ou simplesmente KKK, organização supremacista branca fundada nos EUA, em 1866.

Em pouco tempo a marca apaga o anúncio das redes sociais, após as acusações de racismo, reconhece o erro e pede desculpas pelas “imagens perturbadoras”. Era o mínimo que deveria fazer. Mas, é pouco.

Algumas questões para refletirmos. Por que ainda surgem anúncios, fotos e imagens desse tipo? Quantas pessoas viram esse anúncio antes de ser postado? Desde a demanda, planejamento, passando pela criação, aprovação e veiculação, são dezenas de pessoas envolvidas nesse processo. Ninguém analisou essa imagem? Está “tudo” nela e não na cabeça das pessoas, como é costume se atribuir, na busca de se livarar das responsabilizações.

Com tantos Ks, triângulos alongados brancos, pés desfalecidos e sombreamentos sinistros, não se pode atribuir ao acaso ou à imaginação fértil das pessoas, a acusação de racismo. A marca errou muito. As pessoas envolvidas erraram muito. Desejo que reflitam e exercitem o princípio semiótico elementar: todos os significados contidos no signo estão nele mesmo e não nas mentes das pessoas! Por isso, indague o signo, ele fala!

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.