19ª Edição

Techtônica | Existe um Nordeste que ainda relutamos em reconhecer

Por Redação

02/07/2026 11h35

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Ciência, tecnologia e inovação estão abrindo caminhos concretos para uma nova agenda de desenvolvimento regional

Muitas vezes, a imagem que fazemos de algo envelhece mais devagar do que a própria realidade. É uma espécie de efeito halo: a impressão inicial continua influenciando as percepções seguintes, mesmo quando os fatos apontam para outra direção. 

Com o Nordeste, isso acontece com frequência. Ainda temos dificuldade de atualizar a imagem que fazemos de nós mesmos. É como se o nosso cérebro ficasse preso a uma fotografia velha e desbotada. Hoje, empresas nordestinas de tecnologia disputam mercados Brasil afora, startups têm acesso a fontes mais sofisticadas de financiamento, universidades fortalecem sua produção científica e centros de pesquisa transformam conhecimento em inovação que ajuda a resolver problemas reais da nossa região. 

Uma evidência recente dessa transformação em curso está na infraestrutura para a economia digital. Em um mundo cada vez mais movido por inteligência artificial, nuvem e processamento de dados, grandes projetos de data centers encontraram no Ceará uma combinação única de energia renovável, conectividade internacional e posição geográfica. O data center da ByteDance na ZPE do Pecém, por exemplo, mostra que o impacto desse tipo de investimento não se resume à estrutura física dos servidores: envolve capacitação em tecnologia, pesquisa aplicada e uma cadeia local de serviços especializados. 

Um novo Nordeste também está surgindo na pesquisa científica em áreas como saúde, energia, computação, biotecnologia e engenharia aplicada. O conhecimento produzido por aqui está deixando o campo estritamente acadêmico e começando a disputar espaço em mercados internacionais. Um bom exemplo vem da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas: uma lente intraocular multifocal, desenvolvida sob a liderança de um pesquisador alagoano em parceria com uma multinacional britânica, combinou medicina, física óptica e inteligência artificial para reduzir distorções visuais comuns em lentes tradicionais usadas em cirurgias de catarata. 

Muito além do patrimônio natural, nossa biodiversidade também entra nessa conversa como um ativo relevante para a nova economia do Nordeste. Universidades e empresas já transformam nosso repertório biológico em projetos de P&D voltados a soluções em saúde, alimentos, agricultura e cosméticos. Das sementes de moringa usadas em filmes biodegradáveis para conservação de frutas ao maracujá-do-mato utilizado no desenvolvimento de protetor solar, a nossa biodiversidade começa a se transformar em tecnologia. Não por acaso, segundo levantamento da Sudene/Data Nordeste divulgado pela Agência Gov, as universidades federais nordestinas já aparecem com participação expressiva nos pedidos de patentes em biotecnologia no país. 

Essas mudanças, claro, também passam pela educação. Do ensino básico à pós-graduação, o Nordeste vem acumulando experiências que ajudam a formar a próxima geração dessa nova economia. O Ceará, por exemplo, se tornou referência nacional em aprendizagem no ensino fundamental a partir do PAIC, o Programa de Alfabetização na Idade Certa. Na outra ponta, programas de pós-graduação do Nordeste avançaram na

Avaliação Quadrienal 2021-2024 da CAPES. A chegada do ITA a Fortaleza reforça esse movimento. Não é apenas a abertura de um novo campus, mas o reconhecimento de uma cultura educacional que colocou o Ceará entre os estados com o maior número de aprovações em um dos vestibulares mais difíceis do país. 

Durante décadas, formamos gente qualificada e vimos boa parte desses talentos indo embora. Esse roteiro ainda existe e continuará existindo. Mas, hoje, muitos profissionais encontram mais perto de casa as condições para crescer, inovar e trabalhar em projetos relevantes, sem achar que fazer as malas é o único caminho possível. 

Sei que não podemos romantizar. Ainda temos gargalos enormes de capital, infraestrutura, formação e articulação institucional, sem falar da desigualdade que atravessa a região. Também seria ingenuidade achar que toda boa ideia nascida aqui encontrará um caminho certo até sua adoção pelo mercado. A diferença é que, agora, temos mais elementos para transformar ciência, tecnologia e inovação em um projeto real de desenvolvimento regional. 

Estamos em um ponto de inflexão. As decisões dos próximos anos vão definir se essa transformação será apenas uma sequência de bons exemplos isolados ou o início de uma nova fase da economia nordestina. Talvez nosso maior desafio esteja em reconhecer a mudança e abandonar definitivamente aquela fotografia velha e desbotada que ainda temos de nós mesmos.