Durante muito tempo, para conquistar uma audiência nacional, era necessário adaptar a linguagem, suavizar o sotaque e se aproximar de um padrão de comunicação construído pelos grandes canais de comunicação do país. Foi nesse cenário que a economia dos criadores começou a mudar essa lógica.
Ontem, 8 de outubro, celebramos o Dia do Nordestino. Trabalhando há mais de dez anos com criação de conteúdo e marketing de influência, vejo nessa data uma oportunidade de olhar para uma transformação que vai além das redes sociais: o repertório cultural deixou de ser uma característica regional para se tornar um diferencial na comunicação.
Não estou falando apenas do sotaque, mas do humor, das referências, das expressões, das histórias e da maneira como cada pessoa interpreta o mundo a partir das próprias vivências.
Durante anos, o mercado associou influência à capacidade de alcançar grandes audiências. Quanto mais seguidores, maior parecia ser o poder de influenciar. Mas a creator economy vem mostrando que alcance e influência não são necessariamente a mesma coisa.
Ser visto por milhões de pessoas é diferente de ser reconhecido por elas. Alguns criadores nordestinos ajudam a entender muito bem essa diferença:
Max Petterson (@maxpetterson), por exemplo, construiu parte da sua trajetória compartilhando experiências na França sem abrir mão das referências do Cariri cearense. O contraste entre culturas virou matéria-prima para seu humor e o que poderia ser tratado como uma barreira de comunicação se transformou em uma das características mais autênticas da sua narrativa.
Mila Costa (@nocasomila) encontrou no cotidiano, nas situações comuns e na maneira espontânea de contar histórias uma forma de criar identificação. Seu conteúdo não depende necessariamente de acontecimentos extraordinários e, muitas vezes, o público se reconhece nas situações que ela apresenta.
Mas a influência nordestina não se resume ao humor. O arquiteto cearense Carlos Filho (@carlosfilhoarq), por exemplo, utiliza as redes sociais para conectar arquitetura, moda, design e referências culturais nordestinas. Ao analisar cores, materiais, construções e escolhas estéticas, ele transforma conhecimentos técnicos em conteúdos acessíveis, sem abrir mão do sotaque e da profundidade.
Esse movimento me interessa principalmente porque mostra a possibilidade para os criadores de não apenas representar uma cultura, mas ajudar as pessoas a compreendê-la e valorizá-la. Durante décadas, o acesso à informação dependia muito mais de quem tinha espaço nos grandes veículos. Hoje, um profissional com conhecimento, repertório e domínio da linguagem digital consegue compartilhar suas ideias diretamente com milhares de pessoas.
Isso não significa que toda informação publicada nas redes seja confiável, mas que as formas de produzir, distribuir e consumir conhecimento se multiplicaram. Existe uma diferença importante entre simplificar uma informação e torná-la acessível.
- Simplificar pode significar retirar sua complexidade.
- Tornar acessível é encontrar uma linguagem que permita que mais pessoas participem daquela conversa.
Para criadores de conteúdo, existe a oportunidade de traduzir conhecimentos e experiências sem apagar suas origens. Para as marcas, existe um aprendizado importante. Não basta inserir um influenciador regional em uma campanha para construir identificação. É preciso compreender os códigos culturais que fazem aquela comunicação funcionar, respeitar sua linguagem e reconhecer que comunidades diferentes não necessariamente respondem às mesmas narrativas.
A autenticidade, tão repetida nos briefings de marketing de influência, não é um filtro que se aplica na edição de um vídeo. Ela nasce de repertório, experiência, consistência e da relação construída com uma comunidade. Não existe uma única maneira de ser nordestino. São nove estados, múltiplas culturas, sotaques, expressões e realidades. Reduzir toda essa diversidade a um personagem ou a um tipo de humor seria repetir a lógica que a influência local tem potencial para transformar.
Vou trazer o famoso ditado popular do marketing “quem fala com todo não fala com ninguém” para lembrar que os criadores nordestinos não precisaram abandonar suas particularidades para participar de uma conversa nacional. Na economia dos criadores, falar com milhares de pessoas não exige parecer com milhares de pessoas.
A dica de conteúdo hoje vai para um episódio do Nosso Meio Cast, onde aprofundei um pouco sobre essa conversa com a criadora de conteúdo cearense Letícia Diógenes e a apresentadora Gabriela Veras:
