Uma pessoa reúne milhões de seguidores, transforma sua imagem em uma marca, conquista consumidores e movimenta um negócio milionário. Parece a fórmula perfeita de sucesso. Mas o que acontece quando a influência que ajudou a construir uma empresa já não é suficiente para determinar seus rumos?
A recente controvérsia envolvendo Mari Saad e a Mascavo, marca de cosméticos fundada pela influenciadora em 2024, coloca essa pergunta no centro de uma discussão que vai muito além da indústria da beleza. Em setembro, Mari anunciou seu afastamento da operação, relatando divergências sobre decisões estratégicas, acesso a informações financeiras e problemas relacionados a produtos. Os demais sócios, por meio da Black Rocket, contestaram suas declarações e afirmaram que os acordos societários foram respeitados. A disputa segue no campo jurídico, onde as alegações precisarão ser examinadas.
Independentemente de quem tenha razão, o episódio expõe um paradoxo: é possível ser a principal referência pública de uma marca sem necessariamente deter o controle sobre todas as decisões que determinam seu futuro? E isso nos leva a uma distinção que o marketing, muitas vezes, insiste em ignorar. Influência, autoridade e poder não são sinônimos.
Influência é a capacidade de mobilizar pessoas, despertar interesse e orientar comportamentos. Autoridade é o reconhecimento de competência, credibilidade e legitimidade em determinado campo. Poder de decisão, por sua vez, depende de atribuições, estruturas e direitos formalmente estabelecidos. Esses três elementos podem coexistir, mas um não garante automaticamente os outros.
Na creator economy, essa diferença se tornou particularmente relevante. Uma comunidade fiel pode assegurar visibilidade, acelerar lançamentos e impulsionar vendas. Mas audiência não substitui governança, conhecimento de mercado, controle de qualidade, gestão financeira ou uma operação capaz de sustentar as promessas feitas ao consumidor.
A influência pode abrir as portas de um negócio, mas não significa que seja suficiente para administrá-lo. E o que a advocacia tem a ver com isso? Mais do que parece.
Nos últimos anos, o mercado jurídico também passou a conviver com uma valorização crescente da presença digital. Advogados produzem conteúdo, participam de podcasts, ampliam suas redes e conquistam públicos que antes dificilmente alcançariam. É uma transformação positiva. O conhecimento jurídico deixou de circular exclusivamente entre profissionais do Direito e passou a integrar conversas relevantes para empresas, empreendedores e sociedade. O problema começa quando visibilidade passa a ser confundida com autoridade.
Um advogado pode alcançar milhares de pessoas com uma publicação e não ser reconhecido como referência no mercado em que deseja atuar. Da mesma forma, pode construir uma reputação extraordinária entre empresários e decisores sem possuir uma audiência expressiva nas redes sociais.
Alcance mede distribuição. Engajamento sinaliza interação. Nenhum dos dois, isoladamente, comprova competência, confiança ou capacidade de gerar negócios.
É aqui que o marketing jurídico precisa amadurecer. Construir autoridade não significa simplesmente aparecer mais, significa desenvolver um posicionamento reconhecível, produzir conhecimento relevante, demonstrar compreensão dos desafios do cliente e sustentar, na prática, aquilo que a comunicação promete.
A diferença pode parecer sutil, mas transforma completamente a estratégia. Em vez de perguntar quantas pessoas visualizaram determinado conteúdo, um escritório deveria investigar quem foi alcançado, que percepção foi construída, quais relacionamentos se fortaleceram e se aquela presença contribuiu para torná-lo uma escolha confiável.
A autoridade que interessa ao mercado jurídico não termina na tela. Ela precisa sobreviver ao encontro com o cliente. E sobreviver significa entregar o que foi prometido. Está na qualidade da orientação, na capacidade de compreender negócios, na clareza da comunicação, na organização dos processos, na experiência oferecida e na consistência das relações. Uma presença digital brilhante pode despertar interesse, mas dificilmente compensará uma experiência profissional que não sustente as expectativas criadas.
Há ainda uma oportunidade importante para a própria advocacia no caso Mascavo. Negócios construídos a partir de marcas pessoais exigem uma compreensão sofisticada da relação entre reputação, patrimônio, imagem, contratos e governança. O advogado que compreende essa dinâmica deixa de ser apenas o profissional chamado para resolver conflitos e passa a contribuir para a estruturação de negócios mais sólidos. Essa é também uma forma de autoridade: conhecer profundamente um mercado a ponto de antecipar questões que seus clientes ainda não perceberam.
No fim, o caso Mari Saad nos convida a refletir sobre algo que vale tanto para influenciadores quanto para advogados. Ser conhecido pode abrir oportunidades. Ser reconhecido por aquilo que se entrega é o que ajuda a transformá-las em relações duradouras.
A internet pode amplificar uma voz. O marketing pode construir percepção. Mas a autoridade precisa encontrar sustentação na competência, na consistência e na confiança. Porque influência faz alguém prestar atenção. Autoridade faz alguém confiar. E confiança, especialmente na advocacia, continua sendo um dos ativos mais valiosos de uma marca.
