Ricardo De Carli apresentou dados do Consumer Pulse 2026 sobre humor, finanças, saúde e inteligência artificial, além das economias que devem moldar o consumo até 2035
O consumidor brasileiro está mais estressado, mais preocupado com a saúde, mais adepto da inteligência artificial e menos otimista. Esse foi o retrato apresentado por Ricardo De Carli, sócio da Bain & Company, nesta terça-feira (22), no DOC, em Fortaleza, em evento realizado pelo Nosso Meio e pela Unimed Fortaleza. A apresentação teve como base o Consumer Pulse 2026, estudo da consultoria que ouviu cerca de 2 mil brasileiros em fevereiro deste ano, e projetou as tendências que devem redesenhar o consumo global até 2035.
Humor em queda e estresse financeiro
“O índice do humor do brasileiro tem ficado pior ano após ano”, afirmou De Carli. O pessimismo é mais forte entre os jovens e as mulheres. “Consistentemente a geração Z é a mais pessimista”, disse. Entre as mulheres, o saldo de humor ficou em 12% negativo, o dobro do registrado entre os homens. Ainda assim, 49% dos entrevistados acreditam que o Brasil estará melhor daqui a cinco anos.
O estudo mostra que cerca de 40% dos brasileiros estão com nível de estresse alto ou extremo, com maior tensão entre mulheres e pessoas de baixa renda. As questões financeiras lideram as fontes de preocupação. Apenas 11% dos entrevistados conseguem poupar sem abrir mão do que desejam comprar, e 22% deixaram de pagar ao menos uma conta nos últimos três meses. Para cortar gastos, os consumidores reduzem principalmente alimentação fora de casa, bebidas alcoólicas e entretenimento.
O crédito, por sua vez, é usado sobretudo para cobrir imprevistos, em um momento em que o endividamento das famílias atinge o maior nível desde 2016. “Mesmo para alta renda, os principais motivos para utilizar o crédito é uma emergência”, afirmou. Nesse cenário, De Carli chamou atenção para a percepção sobre as apostas online. “Os consumidores dizem que enxergam as bets como investimento. Isso mostra a falta de inteligência financeira dos brasileiros”, disse.
Para o executivo, esse contexto ajuda a explicar o comportamento de compra atual. “O consumidor desse ano é considerado pelo resultado das pesquisas um consumidor imediatista”, afirmou.
Saúde em conceito ampliado
“O brasileiro se preocupa mais com a saúde do que os estrangeiros”, afirmou De Carli. Os dados mostram que os aspectos mais considerados são saúde mental (66%), física (65%) e sono (61%), mesmo top 3 observado nos Estados Unidos e na Europa. Entre os principais objetivos estão manter o peso saudável, ter mais longevidade e melhorar a condição física. Na alimentação, a tendência é reduzir industrializados e indulgentes e ampliar o consumo de alimentos naturais.

O uso de medicamentos da classe GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras, também avançou. Hoje, 15% dos brasileiros usam ou já usaram esses remédios, percentual que chega a 22% na alta renda, e 17% dos que não usam demonstram interesse. A expiração da patente da semaglutida, em março, tende a ampliar o acesso. “As canetas emagrecedoras estão gerando mudanças profundas em outros aspectos de consumo”, afirmou De Carli, citando o crescimento dos gastos com suplementos, academias e roupas.
Inteligência artificial no cotidiano
A adoção de ferramentas de IA teve avanço significativo em relação a 2025, puxada pela geração Z, com ChatGPT e Google Gemini como as plataformas mais utilizadas e crescimento do uso frequente para pesquisas. “85% dos brasileiros usam ou já usaram IA, isso está acima dos Estados Unidos e Europa”, afirmou.
As economias de 2035
Na segunda parte da apresentação, De Carli mostrou que o consumo global deve saltar de US$ 60 a 70 trilhões em 2022 para US$ 110 a 120 trilhões em 2035, impulsionado principalmente por Índia e China. A partir do cruzamento entre forças macro e comportamentos de consumo, a Bain identificou oito economias emergentes, entre elas a de “2 bilhões de tons de cinza”, ligada à população com mais de 60 anos, que deve dobrar nos próximos 25 anos. “Aumento dos influenciadores seniors do TikTok tem crescido ano após ano”, disse.

Outras frentes apontadas foram a redefinição do conceito de família, o aumento dos deslocamentos entre regiões e a mistura entre trabalho e vida pessoal. “Cada vez mais, para uma parcela da população, a barreira da vida pessoal e profissional vão se misturando”, afirmou. Para o executivo, o desafio das empresas é leitura de cenário. “Precisamos entender as mudanças e antecipar movimentos”, concluiu.
