A família Abravanel fez valer. Tornou público metade de um gol. Não era jornal, era televisão. E o campo, para tal papel, bastava. Confesso que, ontem, procurei a CBN. Não a encontrei. Estava fora do Brasil. Curioso: perdi minutos do primeiro tempo do jogo e ganhei metade ao encontrar Galvão no SBT. Quem diria?! A croniqueta explora hoje a experiência de catar cada vocativo de uma gramática que nunca mais se verá, a vitória do Brasil na metade de Galvão.
Nunca falo apenas para ti. Metade de meu descompasso pertence ao interlocutor, a outra metade, à audiência invisível que nos escuta sem responder. Tal Galvão Bueno que compreendeu isso antes de muitos filósofos da linguagem. Raramente narrava apenas para quem estava em campo. Narrava para quem estava no sofá. Seus vocativos jamais buscavam o lateral-direito, buscavam o país. Um olho na TV portátil, outra no papel digital e, claro, um terceiro no tamanho do matador. Que gigante a tristeza, logo Dudinho remeteu no grupo do C7S. O Doutor me conhece, e se não.
“Olha!”
“Vamos ver!”
“Vambora!”
“Pra cima deles!”
Essas expressões não descrevem absolutamente nada. Convocam. Não acrescentam informação ao lance, acrescentam presença ao espectador. O jogo de ontem era esperado. O que verdadeiramente me interessou, contudo, não foi o placar, mas a gramática dos chamamentos. Cada “olha!” ampliava o campo. Cada “lá vem!” suspendia o tempo. Cada “quase!” transformava centímetros em tragédia nacional. Cada “agora!” convertia o relógio em eternidade. Wow! Cada palavra padece do tamanho que recebe.
Nunca chames uma vírgula de ponto. Há palavras que nasceram para respirar e outras para encerrar. Galvão conhecia esse segredo. Não gritava o gol porque a bola entrara; a bola entrava porque sua voz já a tornara acontecimento. Eis o verbo que nos faltava: galvanear. Não o metal, sim a linguagem. Jamais o narrador, sempre a gramática da enunciação. Explico:
Os bordões de Galvão Bueno: todas as expressões que marcaram sua narração esportiva
A gramática de Galvão Bueno, notada por mim, organiza-se menos pela descrição do jogo do que pela repetição de um pequeno conjunto de locuções que se completam com o nome do jogador da vez. Sua narração é construída por interpelações constantes, nas quais a primeira metade da frase permanece praticamente inalterada e a segunda é preenchida conforme a jogada. É uma sintaxe da convocação. Assim surgem construções como “Olha, Vini!”, “Olha, Martinelli!”, “Olha, Danilo!”, “Faz, Vini”, “Vai, Martinelli!”, “Calma, Danilo!”” “Dá pra ir, Vini!”, “Insiste, Martinelli!”, “Experimenta, Bruno!”, “Aperta, Rayan!”, “Grande partida de Martinelli!”, “Grande partida de Casemiro!”, “Tá bem, Vini!”, “Tá produzindo, Martinelli!”, “Bom de cabeça, Marquinhos!”, “É um tanque, Casemiro!”, “Quase, Vini!” e “Quase, Martinelli!”. O jogador muda, a locução permanece. É como se o narrador dispusesse de um repertório limitado de molduras enunciativas, nas quais apenas o nome próprio fosse substituído.
Ao lado dessas interpelações individuais, há um segundo conjunto de expressões que convoca não o atleta, sobretudo o espectador. São fórmulas que suspendem a narrativa factual para produzir comunhão: “Vambora!”, “Pra cima deles!”, “Vamos ver!”, “Vamos chegando!”, “Vamos nos aproximando!”, “Tá na hora de fazer o gol!”, “Tá na hora de gritar o gol!”, “Lá vem o Brasil!”, “Vem o Brasil!”, “Outra vez!”, “Mais uma vez!”, “Recomeça!”, “Recupera!”, “Sai jogando!”, “O tempo vai passando!” e “Finalzinho do primeiro tempo!”. Nenhuma delas acrescenta informação nova ao lance; todas ampliam sua espessura dramática. Periculum in mora ao gol. Digo, ao não gol.
Em termos quantitativos, “jotapêriano”, a transmissão parece apoiar-se num vocabulário surpreendentemente enxuto. As locuções mais recorrentes podem ser agrupadas em poucos núcleos:
- Chamamento: “O-lha”, “Va-i”, “Fa-z”, “Cal-ma”, “A-per-ta”, “In-sis-te”, “Ex-pe-ri-men-ta”.
- Convocação coletiva: “Vam-bo-ra”, “Pra ci-ma de-les”, “Va-mos ver”, “Tá na ho-ra, Bra-sil”.
- Progressão narrativa: “Lá vem…”, “Vem…”, “Ou-tra vez…”, “Mais u-ma vez…”, “Re-co-me-ça”, “Re-cu-pe-ra”, “Sai jo-gan-do”.
- Avaliação: “Gran-de par-ti-da…”, “Tá bem…”, “Tá pro-du-zin-do…”, “É um tan-que…”, “Bom de ca-be-ça…”, “Qua-se…”.
Top 10 fórmulas narrativas de Galvão Bueno
- Olha: o chamamento, per excellentiam, abre atenção para o lance.
- Vamos ver: suspende o tempo e cria expectativa.
- Lá vem… : anuncia a progressão ofensiva.
- Outra vez: marca repetição e insistência.
- Quase!: dramatiza a frustração do gol não consumado.
- Vambora!: convoca narrador, torcida e seleção para um mesmo movimento.
- Pra cima deles!: imperativo coletivo de ataque.
- Faz, [jogador]!: interpela diretamente o protagonista da jogada.
- Vai, [jogador]!: incentiva a continuidade da ação individual.
- Grande partida!: consagra o desempenho do atleta ou da equipe.
Talvez resida aí o segredo de Galvão. O tamanho do gol nunca pertence apenas ao gol. Pertence, sobretudo, à metade fixa da frase. A outra metade é ocupada, sucessivamente, por Vini, Martinelli, Casemiro, Danilo, Bruno Guimarães, Rayan, Marquinhos, Alisson, Matheus Cunha ou Gabriel Magalhães. O nome muda, sem nenhum embargo, a gramática permanece. É essa permanência que faz da voz um acontecimento maior que o próprio lance.
Sua narração obedecia menos à gramática normativa do que à gramática da expectativa. “Olha!”, “Outra vez!”, “Lá vem!”, “Vai!”, “Faz!” e “Agora!”. Nenhuma dessas palavras possui grande densidade semântica. Todas, porém, possuem enorme densidade humana. São partículas de comunhão. Metade pertencia à voz, a outra me-ta-de, à experiência compartilhada do torcedor.
Talvez por isso o narrador nunca diga “eu”. Diz “vamos!”. Nunca diz “vejo”. Exprime “olha!”. Jamais dita “aconteceu”. Revela “lá vem!”. O singular é insuficiente para o futebol, o futebol exige o plural.
Foi então que compreendi meu próprio equívoco. Muitas vezes escrevo como quem entrega relatórios. Galvão escrevia, e falava, como quem reúne pessoas em torno de um acontecimento comum. Entre informar e convocar existe um abismo. O gol dura um segundo; o vocativo prepara sua eternidade.
Não chores. O gol sempre dura metade do que a voz faz dele. A outra metade sempre pertence à memória. Imenso.
