Por Claudinei Lopes Jr.*
Durante décadas, a ficção seriada foi pensada para ser vista na horizontal. Televisores ocupando salas de estar, telas de cinema dominando o campo visual e, mais tarde, notebooks apoiados sobre mesas consolidaram um padrão que parecia natural: histórias construídas para enquadramentos largos, paisagens abertas e composições visuais expansivas. Hoje, porém, essa lógica começa a ser reconfigurada por um fenômeno que tem se tornado viral: a verticalização do conteúdo audiovisual.
A expansão da ficção vertical não pode ser compreendida apenas como uma adaptação técnica às telas dos smartphones. Trata-se, sobretudo, de uma transformação que se insere em um processo mais amplo de reorganização da cultura midiática. Nesse sentido, para compreender melhor essa nova dinâmica, podemos recorrer a Henry Jenkins (2015) quando descreve esse cenário como resultado da cultura da convergência, na qual conteúdos circulam por múltiplas plataformas e se adaptam continuamente aos dispositivos disponíveis. Em outras palavras, a verticalização de conteúdos ficcionais não representa uma ruptura isolada, mas um desdobramento lógico de um ambiente em que histórias precisam ser flexíveis o suficiente para existir em diferentes formatos e telas. Há toda uma reorganização industrial, estética e cultural da ficção seriada contemporânea a esse novo fenômeno.
Vale lembrar que vivemos em uma sociedade organizada por plataformas, nas quais tecnologias aparentemente neutras passam a estruturar comportamentos sociais e formas culturais. Quando a tela vertical se torna dominante, ela não apenas altera o modo como assistimos, mas também redefine como as histórias são concebidas e produzidas. Na prática, a verticalização exige uma reconfiguração completa da linguagem audiovisual. Enquadramentos mais fechados, foco em rostos e corpos centrais, menor uso de planos abertos e maior ênfase na proximidade emocional são algumas das adaptações mais frequentes. Em vez de explorar profundidade e amplitude espacial, a narrativa vertical privilegia a intensidade e a proximidade. A câmera se aproxima do personagem e, simbolicamente, aproxima o espectador.
A própria forma narrativa ficcional é reconfigurada por conta da verticalização de conteúdos. Jason Mittell (2015) argumenta que as séries contemporâneas passaram por um processo contínuo de transformação formal, desenvolvendo estruturas narrativas mais dinâmicas e adaptáveis às mudanças tecnológicas. No caso das narrativas verticais, essa adaptação se manifesta em episódios mais curtos, ritmo acelerado e forte concentração dramática em poucos minutos. Em vez de longos arcos narrativos distribuídos ao longo de temporadas extensas, a ficção vertical tende a privilegiar unidades narrativas compactas, intensas e facilmente consumíveis. Essa transformação responde a pressões concretas do mercado audiovisual contemporâneo. Plataformas digitais não apenas distribuem conteúdos, mas passam a influenciar diretamente formatos narrativos, durações e estratégias de circulação. A televisão deixou de ser um meio centrado em grades fixas para se tornar um ecossistema flexível de distribuição sob demanda. Nesse ambiente, a produção vertical surge como uma estratégia eficiente para ampliar a presença das marcas audiovisuais em ambientes digitais dominados por dispositivos móveis.
O que ainda introduz uma nova camada de complexidade estética e industrial nos processos de produção, distribuição e consumo de conteúdos ficcionais verticais é a incorporação de inteligência artificial generativa. Uma das características centrais das novas mídias é a automação de processos criativos, permitindo que sistemas computacionais gerem imagens, vozes e narrativas a partir de bancos de dados pré-existentes. Quando aplicada à ficção seriada vertical, essa lógica permite a criação rápida de episódios curtos, melodramáticos e altamente padronizados, frequentemente orientados por métricas de engajamento e tendências algorítmicas, como ocorre nas narrativas que viralizaram recentemente nas redes sociais, informalmente conhecidas como novelas de fruta.
Nessa conjuntura, é curioso lembrar que o Brasil possui contornos particulares quando o assunto é ficção seriada visto que o país se consagra em uma longa tradição na adoção do formato das telenovelas, que historicamente ocupam um papel central na cultura audiovisual nacional. A emergência de narrativas verticais e automatizadas, influenciadas, sobretudo, por plataformas digitais como o TikTok, o Instagram e o YouTube, não substitui esse modelo, mas parece criar novas camadas de experimentação ao seu redor. Afinal, o simples gesto cotidiano de segurar o telefone em pé passou a definir também o formato das histórias que consumimos.
Do ponto de vista da economia, a tendência da verticalização do conteúdo também pode ser interpretada como parte de um esforço contínuo das indústrias audiovisuais para reduzir custos e aumentar produtividade. Estamos diante de um dilema que persegue as indústrias culturais: operar sob permanente tensão entre criatividade e eficiência econômica. Produzir ficção sempre foi uma atividade dispendiosa, envolvendo equipes numerosas, equipamentos sofisticados e longos períodos de gravação. Ao automatizar parte desses processos, empresas e produtores vislumbram a possibilidade de gerar conteúdos em um ritmo acelerado. Ademais, a verticalização associada à inteligência artificial representa uma tentativa de produzir mais conteúdos em menos tempo, mantendo níveis mínimos de atratividade narrativa.
Mas talvez a transformação mais significativa seja estética e cultural. A ficção vertical altera não só a forma das imagens, como também a maneira com que nos relacionamos com as histórias. Se antes assistir a uma novela envolvia um ritual coletivo, a reunião diante da televisão; hoje a experiência tende a ser individual, fragmentada e móvel. Assistimos a episódios curtos no transporte público, em intervalos de trabalho ou em momentos de distração cotidiana. A narrativa se adapta ao tempo disponível, não o contrário. Nesse sentido, a verticalização representa uma mudança simbólica importante: a ficção deixa de ocupar um espaço central e contínuo na rotina e passa a se integrar a múltiplos momentos dispersos do dia. Com isso, é possível dialogar diretamente com o filósofo Byung-Chul Han (2019) quando ele descreve o funcionamento de uma cultura orientada pela intensificação contínua dos estímulos. Em um ambiente marcado pela competição permanente por atenção, a imagem precisa ser direta, clara e impactante. A tela vertical, nesse sentido, favorece uma estética do imediato: menos contemplação, mais impacto.
A camada ética também deve ser observada, afinal, ao mesmo tempo, a verticalização de conteúdos ficcionais, produzidos, em especial, por meio de inteligência artificial generativa, levanta questões importantes sobre autoria e trabalho criativo. Se parte do processo narrativo passa a ser automatizada, qual é o papel do roteirista? O que acontece quando parte do processo criativo é delegada a algoritmos? Essas perguntas abrem espaço para reflexões importantes sobre os limites entre criatividade e automação. A inteligência artificial não substitui integralmente o trabalho humano, mas redefine seu papel diante de sistemas capazes de gerar múltiplas possibilidades narrativas em poucos segundos.
Talvez ainda seja cedo para afirmar se a ficção vertical e automatizada se tornará dominante ou permanecerá como um formato complementar às narrativas tradicionais. O que parece evidente, porém, é que estamos diante de um momento de transição. O celular se tornou um novo espaço central para a dramaturgia contemporânea, e, segundo Gustavo Reiz (2026), isso indica que as novelas verticais têm potencial para se consolidar como modelo emergente de produção audiovisual. A tela em pé não é apenas um detalhe técnico, mas sim um sinal de que as histórias estão sendo reconfiguradas para caber em novos ritmos, novos dispositivos e novos modelos de produção, de distribuição e de consumo.
Referências
HAN, Byung-Chul. A salvação do Belo. Petrópolis: Vozes, 2019.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2015.
MITTELL, Jason. Complex TV: the poetics of contemporary television storytelling. New York: NYU Press, 2015.
REIZ, Gustavo. Microdramas: entendendo a revolução vertical. São Paulo: Grupo Editorial Summus, 2026.
*Sobre o autor:
Doutorando em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2023). Mestre em Média e Sociedade (2019) pelo Instituto Politécnico de Portalegre e bacharel em Comunicação Organizacional pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2020). Tem interesse em pesquisa na área de Comunicação, com ênfase nos assuntos referentes às narrativas ficcionais seriadas, Estudos de Gênero, Estudos Feministas, Estudos Queer e Estudos Decoloniais.
