Pela primeira vez desde a Constituição de 1988, o Brasil aprovou uma nova redução da jornada de trabalho. Assim como Chile, Coreia do Sul e Islândia, estamos acompanhando um movimento global em busca de maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Para as empresas, contudo, a mudança traz novos desafios. A primeira reação de muitos gestores é pensar em como compensar as horas reduzidas, seja contratando mais funcionários, repassando os custos aos consumidores ou reorganizando as escalas. Mas será que essas são as únicas alternativas?
O Brasil convive há décadas com um problema estrutural de produtividade. O estudo “Economic Surveys: Brazil”, publicado pela OCDE em 2020, já mostrava que o crescimento da nossa economia vinha mais da expansão da força de trabalho do que de ganhos de produtividade. Reduzir a jornada sem questionar essa lógica é deixar de lado uma parte importante da discussão.
Em países onde a mão de obra é mais cara ou escassa, a inovação deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a ser uma necessidade. Afinal, quando não é tão simples aumentar a força de trabalho, as empresas precisam buscar caminhos mais inteligentes para crescer e manter a competitividade.
É justamente aí onde enxergo uma oportunidade. A necessidade de fazer mais com menos pode levar as empresas a experimentar soluções que nem estavam no radar. Vimos algo parecido durante a pandemia, quando pequenos negócios passaram a vender pelo WhatsApp, digitalizar processos e oferecer serviços de forma remota. Mudanças que poderiam levar anos aconteceram em poucos meses, porque era preciso se adaptar.
Inovar não exige necessariamente grandes investimentos ou soluções sofisticadas. A inteligência artificial, por exemplo, está tornando a automação mais simples e acessível. Tarefas que antes dependiam de sistemas caros ou profissionais especializados agora podem ser automatizadas sem exigir um departamento de TI.
Mas, claro, ter acesso à tecnologia não significa saber como utilizá-la. O dono de um pequeno negócio pode até conhecer as possibilidades da IA, mas não sabe por onde começar nem tem tempo para descobrir. Por isso, capacitação prática, ferramentas adequadas e incentivos são fundamentais para que a redução da jornada também se traduza em ganhos de produtividade.
O fim da escala 6×1 representa muito mais do que uma mudança nas relações de trabalho. É uma janela de oportunidade para o Brasil enfrentar um problema que se arrasta há décadas. Nosso maior desafio agora não é apenas trabalhar menos, mas descobrir como produzir mais sem precisar trabalhar tanto.
