Marcas apostam em experiências e identidade regional para se inserir no maior palco cultural do Nordeste
O Carnaval no Nordeste é um dos principais motores culturais e econômicos do país. A cada ano, cidades como Salvador, Recife e Olinda atraem milhões de foliões, movimentam o turismo e fortalecem setores como hotelaria, alimentação, transporte e comércio.
Dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo ajudam a dimensionar esse impacto. Em Salvador, a expectativa é superar 11 milhões de foliões, com cerca de 1,2 milhão de turistas e taxa de ocupação hoteleira acima de 90%. Em Recife, a projeção chega a 3,6 milhões de participantes e um impacto econômico estimado em R$ 2,7 bilhões. Já Olinda deve receber mais de 4 milhões de pessoas.
Com esse volume de público e consumo, o período se consolida também como um território estratégico para as marcas. Mais do que patrocinar eventos pontuais, empresas de diferentes setores têm investido na criação de narrativas que dialoguem com a cultura local, adotando artistas regionais, linguagens populares e experiências presenciais para construir identificação com o público nordestino.
No mercado de bebidas, a Beats aparece como um dos exemplos mais evidentes dessa estratégia. Antecipando suas ações, a marca realizou uma campanha promocional que selecionou quatro fãs para se hospedar no QG Beats, uma experiência proprietária que coloca consumidores literalmente dentro do Carnaval de Salvador.
A marca patrocina diversos eventos pelo Nordeste, como o Bloquinho de Verão, realizado no período de pré-Carnaval em Fortaleza, e mantém forte presença em Salvador com a Torre Beats. Para 2026, a programação do espaço será composta exclusivamente por artistas baianos, reforçando o compromisso com a valorização da cultura local. Ao priorizar vozes da própria região, a empresa busca se posicionar não apenas como patrocinadora, mas como parte ativa da festa.

“O Carnaval é, por essência, um território de experimentação e criatividade, e Beats nasceu exatamente desse espírito. A cada ano, a marca se desafia a ir além da comunicação para criar experiências culturais reais, colocando as pessoas no centro de tudo.”, afirma Mariana Porto, diretora de Marketing de Beats.
A construção de pertencimento também orienta as ações do O Boticário, que mantém presença recorrente no Carnaval nordestino. A marca participa de blocos tradicionais, como o Galo da Madrugada, em Recife, além de camarotes e eventos em Salvador, com distribuição de brindes, experimentação de produtos e espaços de maquiagem, perfumaria e cuidados pessoais.
Neste ano, a empresa apostou em uma ação de grande visibilidade ao reunir centenas de pessoas em Recife para um revezamento contínuo de aplicação de perfumes, iniciativa homologada pelo Guinness World Records. Realizada próximo ao Galo Gigante e à Ponte Duarte Coelho, a ação transformou a ativação em espetáculo coletivo e associou o produto a um dos principais símbolos do Carnaval local.
“Já virou tradição da nossa marca marcar presença nas mais diversas e autênticas celebrações dessa, que é a mais brasileira das festas. O Carnaval é um momento de celebração, expressão e conexão e só uma marca presente em 99% dos lares brasileiros poderia promover uma presença tão democrática, e falar com a voz local sobre a cultura e os ritmos da festa. É a nossa forma de acompanhar as pessoas em experiências que fazem parte da cultura brasileira, valorizando as diferentes identidades regionais que atravessam essas celebrações”, afirma Jacqueline Tobaru, diretora de Marketing Regional do Grupo Boticário.
Segundo dados da Kantar citados pela marca, 80% dos brasileiros valorizam empresas que se conectam a eventos culturais relevantes, o que reforça a aposta em ações territorializadas.
A Cimed adota uma estratégia descentralizada, em que cada submarca constrói sua própria comunicação. A KMed, voltada ao bem-estar sexual, utiliza linguagem informal e referências locais nas redes sociais para anunciar presença em Recife, enquanto a Ressaliv, focada em pós-ressaca, confirma participação em blocos e camarotes com distribuição de produtos e promotores interagindo diretamente com o público.
“Mais do que presença, buscamos relevância: levar bem-estar, autocuidado e soluções do nosso portfólio para diferentes momentos da jornada do consumidor, respeitando as características de cada região e de cada evento”, afirma Camille Lau, diretora de Marketing da Cimed.
A Trident segue caminho semelhante ao priorizar experiências de rua. Em Recife, a marca promove ativações interativas, como distribuição de produtos, pontos de encontro e ações como a “Kiss Cam” nos intervalos dos shows, buscando integrar o consumo ao clima espontâneo do Carnaval e estimular a socialização entre os foliões.
A conexão com o território também passa pela gastronomia, elemento central das celebrações. A Primor retorna ao Galo da Madrugada com ações que destacam a culinária nordestina. No camarote oficial, a marca oferece degustações de ícones pernambucanos, como bolo de rolo e bolo de noiva, além de levar para as ruas um trio elétrico comandado por um artista regional.
“Apoiar o Galo da Madrugada é uma forma de celebrar a cultura e a gastronomia do Nordeste”, afirma Tannia Fukuda Bruno, diretora de marketing da marca. “Produzida em Pernambuco, Primor tem uma relação histórica com o público nordestino, que reconhece a marca como a mais lembrada da região pelo Top of Mind por 15 anos consecutivos. Isso mostra que estamos presentes nas mesas, nas tradições e nos momentos de celebração de milhares de famílias”, completa.
Em comum, as iniciativas apontam para uma mudança na forma como as empresas se posicionam durante o período. Em vez de campanhas padronizadas para todo o país, as marcas investem em estratégias que incorporam referências culturais, artistas locais, linguagem regional e presença física nos blocos e camarotes.
No Carnaval nordestino, onde tradição e identidade pesam tanto quanto entretenimento, não basta apenas aparecer. Para ganhar espaço, é preciso construir uma narrativa que dialogue com o território e faça sentido para quem vive a festa de dentro.
