20ª edição

Entrevista | Ricardo Mugnol, consultor empresarial e conselheiro de administração

Por Redação

30/01/2026 18h07

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Sobre: Ricardo Mugnol é consultor empresarial e conselheiro de administração. Executivo com mais de 20 anos de experiência nas áreas de operações e desenvolvimento de negócios, integra atualmente o Grupo COBAP e tem trajetória ligada à gestão empresarial e à condução de projetos estratégicos. Possui formação executiva pelo Harvard Business School, onde concluiu o programa CORe (Credential of Readiness), além de outras formações na área de gestão. Em sua atuação profissional, também acumulou experiência no setor industrial, incluindo passagem pela Delfa.

Cenário muda, fundamento não

A velocidade dos negócios mudou, mas os fundamentos da gestão permanecem. É a partir dessa perspectiva que Ricardo Mugnol, executivo com mais de 20 anos de experiência em operações e desenvolvimento de negócios, analisa os desafios de conduzir empresas em um ambiente de decisões cada vez mais rápidas, maior disponibilidade de informação e avanço da inteligência artificial. Ao longo da carreira, com passagem pelo setor industrial e atuação em projetos estratégicos, ele consolidou uma visão que coloca execução, disciplina e clareza de gestão no centro das escolhas empresariais. Nesta entrevista, Ricardo discute o amadurecimento das empresas, as bases da vantagem competitiva e as mudanças que os líderes precisam começar a enfrentar.

NOSSO MEIO | Ao longo de mais de 20 anos no mercado, você acompanhou diferentes momentos da economia, mudanças no comportamento do consumidor e transformações na forma de fazer negócios. O que mudou de forma mais profunda na maneira de gerir uma empresa e o que continua sendo essencial, independentemente do cenário?

Ricardo Mugnol: O que mais mudou foi a velocidade: antes havia tempo para planejar em ciclos longos, hoje a gestão precisa ser contínua, baseada em dados e ajustes rápidos. O cliente também ficou mais informado e menos fiel. O essencial continua o mesmo: caixa sob controle, margem real, gente certa nas posições certas e disciplina na execução. Cenário muda, fundamento não.

NOSSO MEIO | Muitas empresas sabem crescer, mas têm dificuldade em estruturar a gestão na mesma velocidade. Na sua experiência, quais sinais mostram que uma empresa precisa deixar de depender da figura do empreendedor e amadurecer sua gestão? E o que costuma acontecer quando essa mudança é adiada?

Ricardo Mugnol: Os sinais são claros: toda decisão passa pelo dono, os indicadores não existem ou ninguém confia neles, o crescimento de faturamento não vira lucro e os bons profissionais saem por falta de autonomia. Quando essa transição é adiada, a empresa bate no teto do próprio fundador. Em muitos casos que acompanhei, o problema aparece primeiro no caixa e só depois é reconhecido como problema de gestão, às vezes já perto de uma recuperação judicial.

NOSSO MEIO | Em posições de liderança, nem sempre as decisões mais importantes são as mais populares. Como equilibrar pressão por resultados, interesses de diferentes stakeholders e a necessidade de tomar decisões que podem gerar desconforto no curto prazo, mas são importantes para a sustentabilidade do negócio?

Ricardo Mugnol: O equilíbrio vem de ter critérios claros antes da crise, não durante ela. Se a estratégia, os valores e os números estão transparentes, a decisão impopular deixa de parecer arbitrária. Ouço os stakeholders, mas não tercerizo a responsabilidade. Explicar o porquê com honestidade reduz o desconforto, e adiar uma decisão necessária quase sempre custa mais caro.

NOSSO MEIO | Hoje, tecnologia, acesso à informação e ferramentas de gestão estão cada vez mais disponíveis para empresas de diferentes portes. Se os recursos estão mais acessíveis, onde está, na sua visão, a verdadeira diferença entre uma empresa que apenas acompanha o mercado e outra que consegue se destacar e construir vantagem competitiva?

Ricardo Mugnol: A ferramenta virou commodity; a diferença está na capacidade de execução e de aprendizado. Empresas que se destacam transformam informação em decisão e decisão em rotina, com método e acompanhamento. Têm cultura de responsabilidade, clareza de posicionamento e coragem de dizer não a oportunidades que desviam do foco. A vantagem competitiva hoje é mais organizacional do que tecnológica.

NOSSO MEIO | Estamos entrando em um período em que inteligência artificial, automação, mudanças no trabalho e novas formas de consumo devem alterar profundamente os negócios. O que você acredita que os líderes precisam começar a repensar agora para não administrar, daqui a alguns anos, empresas preparadas para um mercado que já não existe?

Ricardo Mugnol: Os líderes precisam repensar o desenho do trabalho: quais tarefas serão feitas por IA e automação, e onde o ser humano realmente gera valor. Também é hora de rever modelos de negócio, estruturas de custo e as competências das equipes. Quem usar IA só para fazer o mesmo mais rápido vai ficar para trás. A pergunta certa é: se eu fundasse essa empresa hoje, faria do mesmo jeito?

NOSSO MEIO | Depois de duas décadas tomando decisões, liderando equipes e acompanhando empresas em diferentes momentos, o que você passou a enxergar nos negócios hoje que talvez não enxergasse no início da sua carreira? E que conselho daria para os executivos que estão construindo suas trajetórias agora?

Ricardo Mugnol: No início eu via os negócios como números e processos; hoje vejo que, no fundo, são pessoas, incentivos e conversas difíceis que precisam acontecer. Aprendi que governança e simplicidade valem mais que sofisticação. Aos executivos, meu conselho é: construam sua reputação pela coerência entre discurso e prática, conheçam profundamente o caixa e a operação e cerquem-se de pessoas com coragem para discordar, provocar novas perspectivas e construir soluções alinhadas aos objetivos e aos valores da companhia.