Por Anselmo Albuquerque, CSO da Lean Agency e Presidente ABAP-PE
Tem uma premissa sobre inteligência artificial que repito bastante nas minhas aulas e palestras: a IA não transforma quem somos. Ela amplifica.
Hoje, praticamente todo mundo tem acesso às mesmas ferramentas. Duas pessoas podem abrir o mesmo ChatGPT, fazer uma pergunta parecida e chegar a resultados completamente diferentes. A diferença está em quem está do outro lado da tela: repertório, experiência, curiosidade, capacidade de formular o problema e, principalmente, critério para saber se aquilo que recebeu presta ou não.
Tem uma expressão antiga da computação que explica bem isso: garbage in, garbage out. Se entra lixo, sai lixo. Com IA, ganhamos uma capacidade enorme de produzir esse lixo com ótima aparência.
Falo bastante sobre o workslop, aquele trabalho gerado por IA que parece bom, mas não é bom. Você pede uma pesquisa e, quinze minutos depois, recebe o maior relatório da história. Tem capa, quinze páginas, gráficos, texto bem escrito. Aí começa a ler e percebe que tem muito texto e pouco conteúdo. Parecer trabalho não significa que seja trabalho.
Por isso tenho dificuldade quando a conversa sobre IA fica restrita à produtividade. Fazer mais rápido pode ser ótimo. Produzir mais também. Mas primeiro precisamos saber se aquilo precisava ser feito.
Quando existe repertório, a IA permite explorar mais possibilidades. Uma boa estratégia pode ser testada por caminhos que antes consumiriam horas. Uma pessoa curiosa consegue se aprofundar em assuntos que talvez nunca estudasse sozinha. Só que a conta funciona para o outro lado também. Uma premissa ruim pode ser desenvolvida mais rápido. Uma ideia medíocre pode ganhar uma apresentação impecável. Uma decisão errada pode ser executada com muito mais eficiência.
E tem uma parte que não dá para terceirizar: o critério.
Podemos delegar para a IA uma pesquisa, uma primeira versão, uma análise ou uma tarefa operacional. O que não podemos entregar junto é a responsabilidade de decidir se aquilo está certo, se faz sentido e se merece seguir adiante.
A ferramenta pode ser a mesma para todo mundo. O que colocamos nela e o que fazemos com a resposta continua dependendo da gente.
A IA não transforma quem somos. Ela amplifica. A pergunta é: o que queremos ver ampliado?
