20ª edição

Entrevista | Thiago Façanha, sócio-diretor de Atendimento da Mulato Comunicação

Por Redação

30/01/2026 18h11

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Sobre: Thiago Façanha é sócio-diretor de Atendimento da Mulato Comunicação, agência cearense fundada em 2014. Atua também na representação institucional do mercado publicitário como presidente da ABAP Ceará e, em 2026, passou a integrar o Conselho de Ética do CONAR. Em sua formação executiva, registra passagem pela Fundação Dom Cabral, entre 2019 e 2021.

Da operação ao olhar regional

Ter uma boa ideia é apenas parte do trabalho. Para Thiago Façanha, sócio-diretor de Atendimento da Mulato Comunicação, o que sustenta uma agência está na capacidade de transformar estratégia em execução, compreender o negócio do cliente e acompanhar de perto a rotina das marcas. Essa visão orienta a Mulato desde 2014 e ganhou novas camadas à medida que a publicidade se tornou mais complexa, atravessada por dados, tecnologia e inteligência artificial. Em 12 anos de trajetória, a agência também ampliou sua atuação para projetos de alcance nacional sem abrir mão do repertório construído no Ceará e da leitura das particularidades do Nordeste. Nesta entrevista, Façanha revisita os aprendizados desse percurso, analisa as transformações do mercado e explica por que os próximos passos da Mulato passam menos por crescer em tamanho e mais por aprimorar a operação e a entrega.

NOSSO MEIO: A Mulato nasceu em 2014, em um cenário de comunicação muito diferente do atual. O que vocês enxergaram naquele momento que fez a agência apostar em um modelo próprio de fazer comunicação?

Thiago Façanha: Desde os meus 18 anos de idade eu trabalho em agência de publicidade. Na carreira, tive oportunidade de passar por grandes agências e sempre observei qual o diferencial daquela agência e os pontos de melhoria. Sempre, sempre, sempre os problemas eram operacionais e não criativos. Ter uma BIG IDEIA é uma coisa, agora desenvolver a estratégia, colocar ela na prática, respeitar os prazos e fazer acontecer é o que sempre foi o problema. As agências nunca tem problema com o ataque. A questão é o meio de campo e a zaga. Sempre considerei que ser criativo é um pré-requisito para qualquer agência de publicidade, então nascemos com a cultura de olhar pro meio de campo, para operação e ter presença no negócio do cliente. Isso é a nossa filosofia de trabalho desde o nascimento e não muda com o tempo. O que muda é que com a mudança de mercado nós temos que ir adicionando novas skills. São muitas frentes, mais pessoas envolvidas, um processo bem mais complexo e com uma receita menor, pois o mercado é assim. Hoje olhamos muito para IA, gestão financeira, dados e principalmente planejamento estratégico. Estamos com diversas consultorias nos acompanhando nessas frentes. É complexo, leva tempo, mas não estamos parados, evolução contínua sempre.

NOSSO MEIO: Ao longo desses 12 anos, a agência passou por diferentes mercados, clientes e desafios. Como essa diversidade de experiências foi ajudando a construir o jeito Mulato de pensar e fazer publicidade?

Thiago Façanha: O nome Mulato, além da brasilidade, vem justamente dessa diversidade de talentos, de repertórios culturais, de pontos de vistas e experiências diferentes que se somam, se multiplicam e agregam em cada projeto. A Mulato foi muito planejada antes de nascer e quando nasceu, já nasceu com uma carteira de clientes formada e principalmente com um time experiente, grandes profissionais com vivência no mercado onde as horas-voo e a agilidade são fundamentais para se trabalhar e representar uma marca. Trabalhar em uma agência é ter a oportunidade de conhecer como vários setores da economia funcionam pela porta de trás. Para trabalhar no dia a dia é necessário ter presença e vivenciar a operação do cliente, para conhecer como o negócio funciona de verdade, como os clientes dos clientes se comportam mas principalmente entender a cultura de cada marca. Cada marca tem sua sistemática, sem jeito de ser e entendendo isso é fundamental para fazer um bom trabalho naquela marca. É preciso não se alimentar apenas de marketing e comunicação, mas se alimentar do business, mercado e se alimentar da vida. Tudo é referência, tudo é aprendizado.

NOSSO MEIO: Crescer também significa atravessar momentos de pressão, mudanças e escolhas difíceis. Qual situação mais colocou a Mulato à prova e deixou um aprendizado importante para a agência?

Thiago Façanha: O nosso maior aprendizado é que ninguém tem o sucesso: o sucesso é alugado e se paga a prestação dele todos os dias. A vitória de ontem não garante a de hoje e não esquecer que o ego sempre vai ser o seu inimigo. Entendemos que 83% dos problemas de uma empresa são da porta pra dentro. Não é concorrência, não é precificação, não é o governo, são da porta pra dentro, é a sua operação. Nós sempre nos preocupamos muito em olhar pro nosso, cuidar do nosso, fazer o nosso, sabemos que para funcionar bem só dependemos de nós mesmos. Hoje a Mulato conta com um time de 60 talentos onde trabalhamos de forma muito próxima, cooperativa, priorizando sempre o clima operacional e o mais importante: respeitando as pessoas. Não usamos salto alto. Temos muita humildade, zero ego e muita vontade de fazer acontecer e continuamos aprendendo todo dia. Nada substitui o interesse.

NOSSO MEIO: Vocês acompanharam de perto a transformação da publicidade, da comunicação digital ao avanço da inteligência artificial. Como essas mudanças transformaram a forma de pensar e entregar comunicação dentro da agência?

Thiago Façanha: O mercado da comunicação é um dos poucos em que, quanto mais tempo você tem de mercado, menos você sabe. Em outras áreas, a experiência acumula conhecimento. Na comunicação, cada dia você acorda sabendo menos.

Esse trem já partiu. É uma realidade, e vivemos uma corrida contra o tempo para dominar e implementar as ferramentas de IA. Dominar e aprender é um processo; executar isso do ponto de vista de uma organização, com muitos talentos, é outro.

Hoje, ferramenta é o que não falta. Por isso, o mais importante é a curadoria. Antes, a agência basicamente só assinava o banco de imagens. Hoje, além dele, temos outras 26 assinaturas contratadas. É uma sofisticação de programas, sistemas e ferramentas que enriquecem a operação e contribuem diretamente para as marcas que assinamos. Vai desde a Kantar Ibope, com pesquisa de hábitos e comportamento do consumidor, passando pelo checking de veiculação, até inúmeras ferramentas para o digital, com análises, relatórios e dashboards, além do Perplexity e tantas outras de IA.

Mas essa adaptação está no nosso DNA desde o início. Quando nascemos, em 2014, existiam apenas agências offline e agências digitais. Quem era digital não queria fazer off, e quem era off não queria contato com o digital de jeito nenhum, porque era muito trabalhoso e não tinha margem. Só que a gente sabia que o consumidor, e na verdade a sociedade, já tinha mudado. Então nascemos como uma agência 360, fazendo o que a marca precisasse na comunicação, independentemente do meio, on ou off. Pensávamos a marca como um todo, e não a partir do meio em que o material seria veiculado. Esse foi um grande diferencial competitivo para a gente e se perpetua até hoje.

NOSSO MEIO: Ao longo dessa trajetória, a Mulato viu o mercado cearense ganhar novos espaços e disputar projetos cada vez maiores. O que mudou nesse cenário e qual é o papel de uma operação local nesse novo momento?

Thiago Façanha: O mercado publicitário cearense é feito por grandes profissionais: talentosos, preparados, estudiosos e com alto índice de produtividade. A raça do cearense é referência no Brasil todo. Basta perceber que o Ceará tem diversas capas da Forbes e é berço de grandes grupos econômicos e empresariais.

Há alguns anos, vimos um movimento de anunciantes procurando agências de fora. Eu sempre defendi a bandeira de trazer essas marcas de volta para as agências cearenses, porque o nosso mercado é super preparado. Como atual presidente da ABAP Ceará, reforcei ainda mais esse compromisso. Com muito trabalho, dedicação e, acima de tudo, profissionalismo, esse plano tem dado certo. Através da Mulato, conseguimos trazer para o Ceará a marca Minalba Brasil, que era atendida por uma agência de São Paulo. Hoje também atendemos marcas da M. Dias Branco, e tantos outros movimentos como esses já foram feitos e continuam acontecendo.

Hoje, está na moda ser nordestino. Todas as marcas e negócios do Brasil querem entrar no Nordeste, fazer negócios aqui, ampliar sua atuação na região. Daqui do Ceará, temos uma visão nacional e podemos atuar em qualquer canto do país. A Mulato faz isso: entregamos campanhas com veiculação nacional para todo o território brasileiro. Mas também temos o benefício de ser nordestinos, de falar o nosso idioma. Por isso, estamos aptos a trabalhar para marcas nacionais com um olhar segmentado para o Nordeste, traduzindo a comunicação em imagens, expressões, linguagem e comportamento, gerando, principalmente, identidade.

O mercado local ganha cada vez mais força. A comunicação nacional é como um ar condicionado central: muito interessante como projeto, mas, para atender às particularidades de cada um, não funciona tão bem. Um é mais calorento, outro mais friorento, outro está resfriado. É boa como ideia, mas, na execução, ter essa tradução e esse olhar local agrega muito a qualquer projeto de comunicação, para qualquer marca. É preciso tropicalizar, ter identidade com cada praça em que a campanha está sendo veiculada.

NOSSO MEIO: Depois de tudo o que a Mulato viveu e construiu, o que hoje define a identidade da agência, e como essa visão orienta os próximos passos?

Thiago Façanha: Do ponto de vista dos nossos clientes, somos uma agência presente. Vivenciamos a operação e a cultura de cada cliente. Além de sermos uma agência de estratégia, de dados e de criatividade, somos uma agência de disponibilidade. Os clientes sabem que somos pau para toda obra, que podem contar com a gente para o que precisarem. Estamos entregues de corpo e alma a cada marca que representamos. Nem sempre acertamos, mas a vontade, a garra, o comprometimento e o mergulho são muito particulares nossos. Focamos muito na operação e na entrega, sem burocracia, porque na comunicação, como dizia Duda Mendonça, agilidade é fundamental. E é o medo de ficar para trás que nos empurra para frente.

Do ponto de vista interno, nossa identidade é respeito pelas pessoas e humildade. Somos uma agência humilde, em que todos lutam lado a lado, no mesmo barco, remando para o mesmo lado, muitas vezes contra a maré, mas sempre avançando.

Nossos próximos passos são consolidar a operação, qualificar cada vez mais o time e atender cada vez melhor os nossos clientes. Nosso plano não é de expansão, é de NPS. Não estamos focados em crescer por crescer, e sim em trabalhar cada vez melhor. Somos ambiciosos, mas, antes disso, somos criteriosos com a qualidade da nossa operação e do nosso trabalho.