Por David Nogueira da Costa, doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, mestre em Sociologia e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará
“Ás vezes eu gosto de me esconder nas sombras / criar uma nova persona / uma identidade diferente / Eu posso ser quem eu quiser”. É assim que Madonna inicia “I Feel so Free”, música lançada este mês e primeiro material de divulgação do seu mais novo álbum, Confessions II, a ser lançado em 3 de julho.
Musicalmente, a faixa combina elementos de deep house e EDM, vertentes da música eletrônica e remete às sonoridades já exploradas pela cantora em outros trabalhos. O som, assinado por Stuart Price, não chega a ser uma novidade, mas a estratégia de Madonna é. Conhecida por seu foco no presente e no futuro, a eterna material girl já disse em entrevistas que seu álbum favorito é sempre o “próximo”.
Por isso, o anúncio do Confessions II chega com um quê de surpresa e um tom de familiaridade. Pensado como uma segunda parte do Confessions on a Dance Floor, lançado há vinte anos, o álbum explora gêneros musicais e temas já abordados anteriormente, inclusive em outros discos. Família, perdão, fama, espiritualidade e sexo são assuntos recorrentes na discografia de Madonna e agora, enquadrados em um som dançante, sensual e leve, devem ser exorciçados no espaço-símbolo da diversão e do hedonismo, a pista de dança.
Na única faixa de abertura, Madonna quase sussurra os versos por cima de uma batida abafada e crescente, como se estivesse tendo um momento de reflexão enquanto dança em uma boate. A estratégia é proposital e remete à dimensão ritualística das festas e das pistas, espaços de imersão, de comunhão entre amigos e de cura para feridas internas, inseguranças e vulnerabilidades. Ao explicar o processo criativo da construção do álbum com seu parceiro, Stuart Price, ela comenta: “[…] a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com suas feridas, com sua fragilidade. […] É sobre desafiar os seus limites e se conectar com uma comunidade de pessoas que pensam igual a você […]”.
Nada disso é novo. Se prestarmos atenção aos movimentos que a cultura pop, em especial a indústria fonográfica, têm feito nos últimos seis anos, percebemos que todos os caminhos levam ao ambiente pulsante, quente e escuro da pista de dança. O lançamento do Confessions II chega na esteira de uma série de álbuns que, a seu próprio modo, exploram questões profundamente humanas e íntimas enquanto convidando as pessoas à dançar, como o Chromatica (2020) de Lady Gaga, o Renaissance (2022) de Beyoncé, o Brat (2024) de Charli xcx ou o Through the Wall (2025) de Rochelle Jordan. A lista é grande e eu poderia continuar, mas esses exemplos já nos revelam uma tendência estética, e porque também não ética, que músicos vêm seguindo nos últimos anos, principalmente após a pandemia do covid-19.
A cultura dos clubes e da música eletrônica nunca esteve tão em alta. Quase todos os trabalhos citados anteriormente foram retrabalhados em lançamentos conhecidos como remix albums, nos quais as músicas ganham novas roupagens com a presença de DJs e produtores das cenas da música eletrônica de cidades como Londres, Berlim, Nova York, São Paulo, Tóquio e por aí vai. O fenômeno fica também evidente na proliferação de conteúdos online que podem ser encontrados no Instagram ou TikTok, com vídeos dando dicas de como entrar nos clubes mais exclusivos da Alemanha ou como se vestir para passar horas em uma rave e até tutoriais de como dançar techno.
Apesar destes signos terem forte presença midiática, na prática a realidade se apresenta de maneira distinta. Veículos jornalísticos como o BBC, o The Guardian e o NPR noticiam, desde o ano passado, o fechamento de inúmeras boates boates em Berlim, Londres, Brooklyn e Los Angeles. Os motivos especulados são muitos, como alta nos custos para manter infra estruturas do tipo funcionando, menor poder de consumo e mudanças de comportamento e estilo de vida das novas gerações, que passaram a sair cada vez menos após o advento da pandemia.
Então, por quê estamos presenciando um resgate ou retorno aos signos da cultura de clubes na dimensão do consumo? Os sociólogos Colin Campbell e Lívia Barbosa apontam para a faceta hedonista do consumo, isto é, a presença do prazer, da satisfação e da estimulação sensorial nestas práticas. O consumo moderno e hedonista preza pela busca por estímulos agradáveis e não agradáveis. Este foco articula a elaboração imaginativa do sujeito e a sua capacidade de sonhar, devanear e fantasiar; brinca com o repertório simbólico, afetivo e emocional das pessoas, extraindo matéria-prima para a criação do prazer, ao mesmo tempo em que alimenta o imaginário.
Já Raúl Eguizábal, comunicólogo espanhol, explica como a publicidade, enquanto forma expressiva do consumo, explora o prazer e o corpo, transformando-os em signos que compõem a linguagem publicitária. Coincidentemente, no universo estético e ético dos clubes e da música eletrônica, o prazer, o escapismo, o corpo e a sexualidade também são evocados como formas de expressão.
Além disso, estudiosos do consumo ressaltam a sua dimensão política e a sua capacidade para unir minorias sexuais, raciais e sociais, oferecendo formas distintas de acesso à cidadania, ao lazer, ao autodeterminismo e ao ativismo político. Historicamente, o disco, o house e o techno vêm das subculturas pretas, proletárias e sexuais que surgiram no período da Guerra Fria, em espaços clandestinos e ocultos, mas cheios de vida e de arte.
Se partimos desse ponto de vista, é fácil perceber a motivação por trás do retorno às pistas de dança. As quase diárias reportagens que trazem notícias sobre conflitos armados, tensões geopolíticas internacionais, pessoas em situação de vulnerabilidade social, colapsos ambientais, dentre outras tristezas, geram medo, insegurança e dúvida. Frequentar os espaços das festas, mesmo que simbolicamente, pode ser uma reação à isso.
Porém, esse hiperfoco pode também indicar uma saturação crescente na indústria fonográfica, que assim como o cinema e a televisão, passa por um momento de retorno ao passado. Em Hollywood, os remakes, as franquias cinematográficas, os reboots, sequências e revivals de séries de sucesso apontam para um certo esgotamento criativo onde a resposta é reaver antigas histórias, narrativas e personagens. O que é conhecido é mais seguro.
No pensamento de Charles S. Peirce, vemos que nós, seres humanos, somos seres da crença, aptos a nos prendermos a determinadas opiniões, visões de mundo e formas de pensar. Essa “fixação” promove em nós um senso de segurança, pertencimento e equilíbrio, imprescindíveis para nos sentirmos confortáveis diante dos outros e do mundo. Se formos por essa via, podemos começar a entender porque os grandes mercados culturais e artísticos do ocidente, incluindo forças produtivas e competências receptoras, se voltam agora ao ambiente familiar das festas, boates, clubes e pistas de dança.
Portanto, cabe perguntar: o retorno de Madonna à dancefloor, rainha do Pop e símbolo absoluto desta cultura, é um sintoma do desamparo social que o mundo vive ou expressão do hedonismo que reside no consumo? Ou ainda, reflexo do desgaste sentido pela indústria criativa ocidental?
Há quem diga que Madonna está desesperada e alguns fãs torceram o nariz para sua nova empreitada musical. Entretanto, libertação, sexo, corpo e dança são traços perenes em seu catálogo. Seja como dominatrix, mãe, ativista, rainha das pistas de dança ou cowgirl, a Madame X sempre encarnou os códigos estéticos e discursivos dos clubes e do consumo, se reinventando, controlando a narrativa ao seu favor e brincando com a percepção do público sobre qual será o seu próximo passo.
Quanto às perguntas feitas anteriormente, é difícil respondê-las. Por enquanto, só nos resta aceitar o convite da majestade e dançar!
