Sobre: Hisbello de Andrade Lima Neto é CEO do Grupo Raymundo da Fonte. Com formação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), construiu sua trajetória profissional ligada à companhia, atuando na gestão do grupo e no desenvolvimento de seus negócios.
Grupo Raymundo da Fonte completa 80 anos e defende o território como vantagem competitiva
Fundado em Pernambuco em 1946, o Grupo Raymundo da Fonte chega aos 80 anos diante de um desafio comum às empresas longevas. Manter reconhecível aquilo que construiu sua identidade enquanto acompanha um consumidor, um mercado e uma sociedade em permanente transformação. Com marcas presentes na rotina das famílias e uma atuação que ganhou alcance nacional a partir do Nordeste, a companhia encontra no conhecimento do território uma das bases para seguir avançando. Nesta entrevista, Hisbello de Andrade Lima Neto, CEO do Grupo, fala sobre o peso dessa proximidade na construção de confiança, a valorização da inteligência nordestina e as mudanças que devem preparar a empresa para as próximas gerações.
NOSSO MEIO: O Grupo Raymundo da Fonte chega aos 80 anos tendo atravessado diferentes gerações de consumidores, transformações econômicas e mudanças profundas no comportamento de compra. Olhando para essa trajetória, quais foram as decisões que mais ajudaram a empresa a permanecer relevante sem perder a identidade construída desde a sua origem?
Hisbello de Andrade: Acredito que uma das principais decisões foi entender que tradição de marca não significa fazer sempre da mesma forma, mas preservar sua essência enquanto evolui com o tempo.
O Grupo Raymundo da Fonte preservou valores muito importantes desde a sua origem, mas soube acompanhar as transformações do mercado, da indústria e dos consumidores.
Isso passa por investir continuamente em qualidade, inovação e pessoas. Nossos produtos fazem parte da rotina das famílias e, por isso, precisamos entender como essa rotina muda ao longo do tempo.
NOSSO MEIO: Nesta edição do Nosso Meio, que discute o valor da presença, queremos entender também a força da proximidade. O Grupo construiu sua trajetória a partir de uma relação muito próxima com o Nordeste e com os hábitos de seus consumidores. Como essa presença no território se transforma, na prática, em confiança e em vantagem competitiva para as marcas?
Hisbello de Andrade: Estar no Nordeste não é apenas uma questão geográfica para nós. É parte da nossa identidade e da maneira como enxergamos o mercado. Conhecer o território significa entender hábitos, ocasiões de consumo, diferenças entre os estados e aquilo que é importante para o nordestino.
Essa proximidade nos permite tomar decisões com uma leitura mais real do consumidor. E confiança é construída justamente dessa forma, ao longo do tempo, quando uma marca demonstra que entende aquela realidade e entrega produtos que fazem sentido para ela.
Existe também uma vantagem importante para uma empresa que conhece o seu mercado de origem: você consegue transformar conhecimento local em inteligência de negócio. O Nordeste tem particularidades e um mercado enorme, diverso e cheio de oportunidades. Ter essa leitura próxima ajuda nossas marcas a continuarem conectadas com as pessoas, sem perder a capacidade de dialogar com consumidores de diferentes regiões.
NOSSO MEIO: Hoje, parte importante das relações entre marcas e consumidores acontece por telas, algoritmos e plataformas digitais. Para uma companhia que trabalha com produtos presentes no cotidiano das famílias, que experiências ou pontos de contato presenciais continuam sendo insubstituíveis na construção de vínculo com o consumidor?
Hisbello de Andrade: O digital ampliou muito a nossa capacidade de conversar com o consumidor, mas não substitui a experiência real. No nosso segmento, isso é muito importante porque estamos falando de produtos que as pessoas usam dentro de casa.
O contato com o consumidor em pontos de venda, eventos, ativações, experiências e ações nas comunidades continua trazendo uma compreensão que nenhum algoritmo entrega sozinho. São nesses momentos que conseguimos observar, ouvir e conversar diretamente com as pessoas que surgem percepções muito valiosas sobre hábitos, necessidades e expectativas.
NOSSO MEIO: O Grupo destaca a valorização de profissionais, agências, fornecedores e criadores nordestinos como parte de sua estratégia. Como essa aposta na inteligência local evoluiu ao longo dos anos e o que ainda existe de potencial para explorar nessa conexão entre talento regional, inovação e negócios?
Hisbello de Andrade: Essa é uma conexão que temos muito orgulho de construir. Ao longo dos anos, o mercado nordestino se desenvolveu muito e, hoje, temos profissionais e empresas com capacidade técnica e criativa para atuar em projetos de grande relevância.
Valorizar essa inteligência local não significa olhar apenas para a origem de quem está fazendo, mas reconhecer que existe conhecimento sobre o território que pode gerar soluções melhores para o negócio. Quem vive essa realidade conhece códigos, comportamentos e referências que muitas vezes não aparecem em uma pesquisa convencional.
NOSSO MEIO: O Grupo chega aos 80 anos em um momento em que inovação, sustentabilidade e mudanças no comportamento do consumidor caminham juntas. Quais são hoje os principais movimentos que estão sendo estudados ou colocados em prática para preparar a companhia para os próximos anos, seja em produtos, processos, tecnologia ou relacionamento com o consumidor?
Hisbello de Andrade: Estamos olhando para esse futuro de uma maneira bastante ampla. Inovação, para nós, não está restrita ao lançamento de um produto. Ela também está nos processos, na forma como nos relacionamos com as pessoas, na utilização de tecnologia e na maneira como conseguimos tornar a experiência do consumidor cada vez mais relevante.
A sustentabilidade também passou a estar muito mais integrada às decisões do negócio. Temos avançado em iniciativas relacionadas à economia circular, gestão de resíduos, eficiência e logística reversa. Em sete anos de parceria nessa frente, por exemplo, já tivemos mais de 27 mil toneladas de embalagens destinadas adequadamente, um resultado que mostra a importância de transformar a agenda ambiental em prática.
Na relação com o consumidor, também estamos experimentando novas formas de criar proximidade. A comunidade Casa em Dia é um exemplo disso. A proposta é estabelecer uma conversa que vá além do produto e esteja conectada aos desafios reais da rotina das famílias. Esse tipo de iniciativa nos ajuda a entender melhor as pessoas e, ao mesmo tempo, cria possibilidades para as marcas dialogarem com elas.
NOSSO MEIO: O que significa pensar nos próximos 80 anos para uma empresa que já construiu um legado tão associado ao Nordeste? Existe algo que o Grupo considera inegociável preservar e, ao mesmo tempo, quais aspectos da companhia precisam necessariamente se transformar para que esse legado continue fazendo sentido para as próximas gerações?
Hisbello de Andrade: Pensar nos próximos 80 anos é entender que o legado continua. Ele precisa continuar vivo e sendo renovado. O que não podemos perder é a nossa essência: a proximidade com as pessoas, o respeito, a ética, a simplicidade na forma de fazer as coisas e essa conexão muito forte com o Nordeste.
Mas preservar a essência não significa preservar os mesmos processos, produtos ou formas de comunicação. O consumidor de amanhã será diferente, as tecnologias serão outras e os desafios da sociedade também.
Para mim, o grande desafio é fazer com que as próximas gerações reconheçam no Grupo Raymundo da Fonte os mesmos valores que construíram essa história, mas encontrem uma companhia com novas ideias, novas tecnologias, novas formas de produzir e de se relacionar.
