Análise

Para além das redes, o design como linguagem do cotidiano

Por Redação

27/04/2026 15h35

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Caminhar pela cidade, escolher um produto na prateleira ou encontrar o caminho dentro de um espaço cultural são experiências atravessadas pelo design, mesmo que nem sempre a gente perceba. Ainda assim, em um cenário cada vez mais dominado pelas redes sociais, é comum que o design gráfico seja associado apenas ao universo digital. No Dia Mundial do Design Gráfico, celebrado hoje ,27, a data se torna um ponto de partida para ampliar esse olhar e reconhecer o design como uma linguagem que constrói identidades e experiências para além das telas.

Esse movimento ganha ainda mais relevância diante do crescimento do mercado. Segundo dados da Cognitive Market Research, o setor global de design gráfico foi avaliado em aproximadamente 49,1 bilhões de dólares em 2024, com uma taxa de crescimento anual de 3,4% até 2031. O avanço é impulsionado, em grande parte, pela presença digital das empresas. Mas, enquanto o digital cresce, o papel do design continua se expandindo também no mundo físico e sensorial.

Antes de qualquer escolha estética, o design começa com intenção. Compreender o que precisa ser comunicado é o ponto de partida para transformar uma ideia em experiência. Para Jorge Luis Holanda, co-diretor de criação da Mulato Comunicação, esse processo passa por uma etapa essencial: “A etapa de imersão e intenção. Antes de abrir os programas e pensar na estética, eu preciso entender a ‘vibe’ do projeto. Não é só fazer algo bonito, é definir exatamente qual sensação aquela imagem precisa passar. É esse foco no clima e na emoção que transforma uma simples peça gráfica em uma experiência para quem olha”.

Essa construção vai além do visual e se aproxima de um território mais sensível, onde o design começa a dialogar com a arte. Não no sentido de romper com a função, mas de ampliar sua capacidade de expressão. Um projeto bem construído não apenas resolve um problema, mas também comunica valores, desperta sensações e cria conexões.

Na OBO Studio, esse caminho passa por um processo estruturado de escuta e investigação. Para o sócio-diretor Kauê Aguiar, entender o contexto é o que permite que o design ganhe profundidade. “Na Obo, a gente acredita que design não começa na prancheta e sim na escuta. Muitas vezes o cliente chega trazendo uma dor pela ótica dele, mas nem sempre essa dor representa a raiz real do problema”, explica. A partir dessa imersão, o processo segue por uma etapa de análise e organização de informações, até chegar na criação. “Quando a criação nasce desse processo mais profundo, ela deixa de ser apenas estética e passa a comunicar uma ideia, gerar conexão e criar experiências mais relevantes para as pessoas”.

Essa profundidade também aparece na forma como os profissionais equilibram estratégia e liberdade criativa. Afinal, o design precisa funcionar, mas também precisa marcar. Para André Mota, sócio-diretor da Bolero Comunicação, esse equilíbrio é o que dá força ao resultado final. “A liberdade criativa é fundamental para construir algo único, mas ela precisa caminhar junto com estratégia. O briefing é o ponto de partida porque ele traz um problema que precisa ser resolvido. O olhar criativo entra para transformar essas informações em algo relevante e expressivo”.

Jorge, da Mulato Comunicação, resume essa relação com uma metáfora simples: “A função é o esqueleto e a criatividade é a roupagem. O design tem que resolver o problema primeiro. A leitura tem que ser clara e a mensagem direta. O equilíbrio vem na hora de pegar essa base e injetar estilo e personalidade nela para fugir do óbvio”. É nesse ponto que o design deixa de ser apenas funcional e passa a carregar identidade.

E essa identidade não vive só nas telas. Ela se manifesta em espaços, objetos e experiências que fazem parte da rotina. Mesmo sem perceber, as pessoas interagem com o design o tempo inteiro.

“O design tá em tudo que organiza o nosso mundo físico”, afirma Jorge. “Vejo muito nas embalagens dos produtos no mercado, na sinalização e na arquitetura que nos guiam pelos ambientes de forma intuitiva, e até na genialidade dos manuais de instrução”.

Kauê, da OBO Studio, reforça essa presença ampla e estratégica: “O design está em absolutamente tudo. Está na embalagem de um produto, na sinalização de um espaço, em uma campanha publicitária, em uma experiência dentro de uma loja. Mas o verdadeiro papel do design vai muito além da execução técnica. Design é percepção. É estratégia. É criar sensações e construir posicionamento”.

No cotidiano, essa influência muitas vezes acontece de forma silenciosa, mas não menos importante. Um ambiente bem sinalizado, uma embalagem atrativa ou até o layout de um cardápio são exemplos de como o design orienta decisões e constrói experiências.

“O design gráfico está presente em praticamente todos os momentos do nosso dia, muitas vezes de forma imperceptível”, destaca André. “Mais do que estética, o design é comunicação. É ele que orienta, influencia decisões e cria conexões no cotidiano”.

Diante disso, reduzir o design ao universo das redes sociais é limitar seu alcance. Ele não apenas acompanha transformações culturais e tecnológicas, mas também ajuda a moldá-las. No fim das contas, o design gráfico funciona como uma linguagem invisível, que organiza o mundo ao nosso redor e dá forma às histórias que marcas e espaços querem contar.