Final de semestre de primavera em Pittsburgh. Aderi semana passada a uma oferta da T-Mobile. Talvez tenha sido a primeira vez em anos que tive em mãos um dispositivo concorrente da Apple. Minha relação com a marca sempre espelhou minha relação com a cidade. Intermitente. Afetiva. Nunca completamente resolvida. Tive um primeiro iPhone usado no derradeiro 2012, ainda sob a sombra recente de Jobs. A relação foi tão fecunda que quando ele pifou, eu o enterrei. Literalmente. Durou cinco anos. Na primeira versão da minha tese, em 2017, registrei esse gesto como símbolo. Dr. Hanke, mandou rasgar, seria um pecado científico. Concordei.
Hipnose não é transe, é uma forma de adesão baseada em atenção extrema e confiança.
“Só depois entendi que aquilo já era uma forma erótica, de paixão, uma tensão hipnótica”
Steve Jobs operava como origem. Um tipo de liderança cuja densidade talvez nem Weber devesse contar. Seu produto não era objeto, era ocasião. O lugar onde o futuro surgia como ruptura sensível, como se cada dispositivo fosse a tradução de algo ainda sem nome. Lembro do primeiro computador no Colégio 7 de Setembro em 1999. Do iPod na minha temporada em Atlantic City em 2008. Trabalhava ali, na cidade dos cassinos associada a Donald Trump. E do iPhone que me capturou em uma loja da Target na East Liberty quando eu ainda morava em Friendship. Jobs não vendia tecnologia. Instaurou experiência. Primeiro amor. Manifestação política de um Kochav que não sabia o que o sim de um altar simbolizaria. Modalidade de hipnose que não se iteratur mysterio. Explico:
Como funciona a hipnose: concentração extrema, sugestão e imersão total
A experiência da hipnose, se você se atém ao que está na maçã de suas mãos, não é um transe misterioso nem um estado separado da consciência. Remete-se dentro da própria vigília, como uma intensificação da atenção que, ao mesmo tempo em que foca algo com força, bloqueia todo o resto. É menos “entrar em outro estado” e mais “ficar completamente tomado por uma coisa só”. Como quando você lê e não escuta nada ao redor, a exemplo de encontrar um nova feature, ou quando uma história de memórias de fotos armazenadas te captura a ponto de você não estar mais aqui, mas lá, dentro dela.
Esse efeito depende de duas condições fundamentais. Primeiro, uma relação de confiança ou entrega, o que o texto chama de rapport. Você se deixa conduzir. Segundo, uma disposição ativa de aceitar o que está sendo apresentado, aquilo que a tradição literária chama de suspensão voluntária da descrença. A hipnose, nesse sentido, não é imposição, é cooperação. Você participa dela. Jobs te ensinou a tensionar quando acreditastes em cada nova promessa.
Outrossim, esta pode ser entendida como um fenômeno retórico. Não é o corpo sendo desligado, é a imaginação sendo mobilizada por imagens convincentes, por uma fala persuasiva, por um estilo que prende. O sujeito entra em um acordo implícito com quem conduz a experiência, seja um terapeuta, um autor ou até um interrogador. E nesse acordo, torna-se mais sugestionável, mais disposto a preencher lacunas, a seguir uma narrativa, a acreditar no que está sendo organizado para ele.
Tim Cook, segundo líder da Apple, não seduziu você pela ruptura Foi além, te segurou pela continuidade. Sua hipnose é mais silenciosa. Não acontece no palco, acontece na duração. Cook transforma encanto em sistema e sistema em rotina confiável.
A segunda forma de hipnose no UX é a estabilidade: não surpreender, mas funcionar melhor a cada vez.
“Cada novo iPhone já não precisa surpreender. Basta funcionar melhor. Mais preciso. Mais integrado. Mais inevitável.”
Se Jobs me capturou pelo espanto, Cook me reteve pela estabilidade. Uma segunda sedução. Menos febril, mais profunda. Aquela que não exige paixão constante porque se instala como hábito.
Os 10 mandamentos da hipnose aplicados ao UX: como a atenção te leva “lá”
No limite, a hipnose é isso. Um estádio de concentração extrema sustentado por confiança e linguagem. Um momento em que você não perde o controle, mas o entrega parcialmente. E justamente por isso ela é potente e também perigosa. Porque o que se vive ali pode parecer profundamente verdadeiro, mesmo sendo apenas a continuação lógica de uma história que alguém ajudou você a construir. Ao lado de Dr. Thames, sendo seu auxiliar como Adjunto na Duquesne University, aprendi:
- Retorne e via o espaço que te faz valer
Há de querer. A experiência vale porque te leva “lá”, para fora do aqui imediato. Quem não consegue sair de si, não entra. - Não é um “transe” separado da consciência
Não há evidência de que hipnose seja um estado físico distinto. É uma variação do estado normal de vigília. - Concentração extrema (monoideísmo)
A experiência consiste em focar intensamente em uma ideia ou estímulo e bloquear o restante do ambiente. - Bloqueio do entorno
Quanto maior a concentração, maior a exclusão de estímulos externos. Exemplo clássico é leitura imersiva onde nada mais é percebido. - Estado de sugestibilidade ampliada
O sujeito torna-se mais receptivo a sugestões, não por perda de consciência, mas por foco e adesão ao que é apresentado. - Relação de confiança (rapport)
A hipnose depende de um acordo implícito entre quem conduz e quem participa, sustentado por confiança. - Imersão semelhante ao drama ou leitura
Funciona como entrar profundamente em uma narrativa, com suspensão voluntária da descrença. - Fenômeno retórico (persuasão por imagens)
Historicamente ligada à “imaginação” como produção de imagens convincentes, portanto próxima da persuasão. - Construção narrativa guiada
Sugestões podem levar o sujeito a completar histórias ou memórias coerentes com o que foi induzido. - Não produz nada exclusivo
Nada ocorre na hipnose que não possa ocorrer na consciência normal, apenas em grau intensificado.
O novo anunciado, John Ternus, parece aprender tudo isso. Ainda mais promessa do que presença. Sua hipnose não é do vivido. É do porvir. Como li recentemente na WIRED, haverá um momento em que Ternus subirá ao palco e dirá que a Apple encontrou sua forma de lidar com a inteligência artificial. Talvez não seja uma revolução técnica. Talvez seja algo mais perigoso. Uma tradução. Colocar o poder difuso da AI nas mãos de todos como experiência cotidiana. Ternus carrega um problema delicado. Reencantar sem desorganizar. Inovar sem romper o que Cook estabilizou. Terceira sedução. Ainda em gestação.
Pioneiro. Guardião. Herdeiro. Três formas de hipnose. E talvez três maneiras de nos ensinar a desejar tecnologia não pelo que ela é, mas pelo modo como ela passa a organizar silenciosamente a nossa vida .Aqui, basta saber: o herdeiro show no palco dará, ou só produz melhor o enquadrará?


