A pergunta parece infantil. Mas talvez seja uma das mais pertinentes para o mundo empresarial neste momento. O lobo, neste caso, tem nome: inteligência artificial. E não estou falando da IA das assinaturas mensais, dos textos produzidos em segundos ou das apresentações automáticas. Estou falando da inteligência artificial entrando na estrutura das empresas, redesenhando processos, transformando a produtividade e modificando a maneira como trabalhamos, decidimos e fazemos negócios.
Em pouquíssimo tempo, passamos do encantamento à preocupação. Os próprios criadores e pesquisadores dessa tecnologia alertam para riscos que incluem a perda de controle humano e consequências imprevisíveis. Governos discutem regulamentações. Especialistas debatem segurança, ética e impactos sobre o emprego. Preocupações legítimas e necessárias. Mas existe um fato que nenhuma dessas discussões consegue apagar: a inteligência artificial já está entre nós. E não há caminho de volta ao mundo anterior.
Vale observar a velocidade dessa transformação. As empresas levaram entre 15 e 20 anos para se informatizar, outros 10 a 15 anos para digitalizar processos e, mais recentemente, 5 a 10 anos para incorporar a inovação às suas estratégias. E muitas sequer concluíram essas etapas.
Agora, o cenário é completamente diferente. O que antes levava décadas para acontecer terá de ser enfrentado em apenas três ou quatro anos. Entre 2027 e 2030, a IA deverá deixar de ser apenas uma ferramenta de apoio para integrar processos, decisões e modelos de negócio. E aqui está uma provocação: se muitas empresas ainda não acompanharam as transformações das últimas décadas, como enfrentarão, em tão pouco tempo, uma ruptura muito mais profunda?
Os números ajudam a compreender essa mudança. Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, até 2030 poderão surgir 170 milhões de novos postos de trabalho, enquanto 92 milhões poderão ser deslocados, resultando em um saldo positivo de 78 milhões. O estudo também projeta que 22% dos empregos atuais passarão por transformações estruturais.
Não estamos falando apenas de profissões que desaparecerão, mas de competências, responsabilidades e modelos de trabalho que precisarão ser reconstruídos. O trabalho não está desaparecendo. Está mudando de natureza. E isso já acontece.
O Walmart, uma das maiores redes varejistas do mundo, utiliza inteligência artificial na previsão de demanda, na cadeia de suprimentos e na operação de suas lojas. Entre os resultados apresentados no estudo, está a redução do tempo de planejamento de turnos de 90 para 30 minutos.
No Brasil, o iFood desenvolve agentes de IA para análises comerciais, atendimento e decisões operacionais. Entre os indicadores apresentados, determinadas análises passaram de 30 para cinco minutos, e a plataforma registrou 12 milhões de pedidos com apoio de seu modelo de IA em fevereiro de 2026.
O Nubank também vem reconstruindo processos com inteligência artificial. Entre os resultados divulgados estão ganhos de 50% na produtividade de engenharia e ciclos de testes 90% mais rápidos.
O que essas empresas têm em comum? Não estão apenas acrescentando IA aos negócios. Estão reconstruindo seus negócios com IA. E essa diferença muda tudo.
Uma coisa é utilizar inteligência artificial para executar tarefas mais rapidamente. Outra é integrá-la à operação, conectando dados, pessoas, processos e decisões. No primeiro caso, ganhamos tempo. No segundo, transformamos a capacidade competitiva da organização. É aqui que surge um dos maiores desafios para as lideranças.
Durante décadas, aprendemos a administrar equipes, departamentos e indicadores. Agora, teremos de aprender a gerir ambientes nos quais pessoas e agentes de inteligência artificial trabalharão de forma integrada. Isso exigirá novas competências: redesenhar processos, aprender e desaprender rapidamente, interpretar dados e tomar decisões com apoio da IA, sem abrir mão do julgamento humano.
E há um ponto fundamental: não adianta colocar uma tecnologia nova dentro de uma estrutura de gestão ultrapassada e esperar resultados revolucionários. Por isso, a cultura da organização precisará também ser repensada. A transformação não acontecerá isoladamente no marketing, nas finanças, no comercial ou na logística. A IA exige integração entre áreas e uma nova cultura organizacional. Aliás, a IA não respeita Silos. Portanto, o desafio não é apenas tecnológico. É estrutural, cultural e, principalmente, de liderança.
Isso não significa ignorar os riscos ou entregar decisões indiscriminadamente aos algoritmos. Segurança, ética, governança e regulamentação precisam acompanhar a inovação. E quanto mais inteligência artificial incorporarmos ao trabalho, mais importantes serão competências essencialmente humanas: criatividade, empatia, pensamento crítico, capacidade de julgamento e coragem para liderar mudanças. Talvez esteja aí um dos maiores paradoxos desta transformação: quanto mais inteligência artificial nas empresas, mais precisaremos de lideranças verdadeiramente humanas.
Pequenas e médias organizações também fazem parte desse movimento. Não precisam começar com investimentos gigantescos, mas identificando problemas reais, testando aplicações, medindo resultados e preparando suas pessoas. Porque começar é diferente de esperar. E esperar pode custar caro.
Não sabemos exatamente como será o mundo em 2030. Mas já sabemos que não estamos apenas mudando a tecnologia que utilizamos. Estamos mudando a maneira de trabalhar, gerir empresas, competir e viver. Por isso, volto à pergunta que dá título a este artigo: Quem tem medo do lobo mau?
Ter medo pode ser prudente. Ignorar os riscos seria irresponsável. Mas permitir que o medo paralise decisões estratégicas pode custar a relevância e até a sobrevivência de um negócio. Porque, daqui a três anos, poderemos estar diante de um mundo com uma nova configuração de trabalho, de negócios e de relações humanas. E quem tiver medo de encarar o lobo mau talvez descubra, tarde demais, que não foi a inteligência artificial que o deixou para trás. Foi a decisão de não se preparar para um mundo que já começou a mudar.
Até breve,
Cuidem-se
Simone Moura
