Sob comando da Zamp, rede planeja abrir 30 novas lojas em 2026
Depois de um período marcado pela recuperação judicial da SouthRock, antiga operadora da marca no país, a rede Starbucks retoma a expansão no Brasil com um novo ciclo apoiada na estratégia de recuperar o conceito de “third place” (terceiro lugar), filosofia que ajudou a transformar a Starbucks em uma das marcas mais valiosas do varejo mundial, o que vai além da venda de café.
Agora, sob gestão da Zamp, empresa que também opera Burger King, Popeyes e Subway no Brasil, a Starbucks prevê abrir 30 novas lojas ao longo de 2026, um crescimento de aproximadamente 27% sobre a base atual de 112 unidades. A expansão marca o primeiro plano estruturado de crescimento desde a reorganização da operação brasileira.
Da reconstrução à expansão
A nova fase acontece após um dos momentos mais delicados da história da Starbucks no Brasil.
Em dezembro de 2023, a SouthRock Capital entrou em recuperação judicial com dívidas de cerca de R$ 1,8 bilhão. A crise resultou no fechamento de aproximadamente 50 lojas e colocou em dúvida a continuidade da operação da rede no país. Em 2024, a Zamp adquiriu os direitos de operação da Starbucks Brasil por R$ 120 milhões, valor posteriormente ajustado para R$ 101,8 milhões, assumindo a missão de reconstruir a marca.
Segundo a presidente da Starbucks Brasil, Mariane Wiederkehr, o primeiro ano da nova gestão foi dedicado à reorganização da operação. A empresa investiu em treinamento de equipes, fortaleceu processos internos e retomou indicadores de satisfação do cliente antes de acelerar novamente a expansão.
O retorno do “terceiro lugar”
A Starbucks quer recolocar suas cafeterias como um “terceiro lugar”, conceito criado pelo sociólogo americano Ray Oldenburg e incorporado pela marca desde sua expansão global. A ideia é oferecer um espaço que não seja nem a casa (primeiro lugar) nem o trabalho (segundo lugar), mas um ambiente onde as pessoas possam permanecer, estudar, trabalhar, realizar reuniões ou simplesmente conviver.
No Brasil, essa proposta ganhará uma nova tradução. A primeira unidade do formato Community Coffee House, que será inaugurada em Pinheiros, em São Paulo, foi concebida para ampliar a conveniência e estimular diferentes ocasiões de consumo, aproximando a cafeteria da rotina do consumidor brasileiro.
Crescer significa ampliar ocasiões de consumo
A expansão da Starbucks também passa por uma revisão do próprio negócio.
Além das novas lojas, a empresa anunciou mudanças no cardápio para aproximar a marca dos hábitos locais. Pela primeira vez, a rede passa a estruturar uma plataforma dedicada ao café tradicional brasileiro, com bebidas como cafezinho, média e pingado. O menu de alimentos também será renovado com sanduíches, bowls, saladas e iogurtes.
Hoje, os alimentos representam cerca de 30% do faturamento da Starbucks Brasil. A expectativa da companhia é elevar essa participação para 50%, reduzindo a dependência das bebidas e aumentando as ocasiões de consumo ao longo do dia.
Outro foco é o delivery. Atualmente disponível em 75 das 112 lojas, o canal responde por aproximadamente 6% das vendas, mas a empresa estima que possa alcançar 15% no médio prazo.
A cafeteria volta a disputar tempo, não apenas consumo
A estratégia da Starbucks acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor.
Com a consolidação do trabalho híbrido, cafeterias passaram a desempenhar um papel que vai além da alimentação. Elas se tornaram locais para reuniões informais, estudos, videoconferências e trabalho remoto. Nesse contexto, o tempo de permanência do cliente passa a ser tão importante quanto o ticket médio.
Ao investir em um formato voltado para comunidade e convivência, a Starbucks procura reforçar um diferencial que sempre fez parte de sua identidade, mas que ganha nova relevância em um cenário de maior concorrência entre cafeterias especializadas e redes de alimentação.
Reconstruir uma marca é mais do que abrir lojas
A abertura de 30 novas unidades é um marco importante para a operação brasileira, mas o desafio da Starbucks vai além da expansão física.
Depois da crise que afetou a percepção da marca e levou ao fechamento de dezenas de unidades, a rede busca recuperar sua posição por meio de uma combinação de excelência operacional, adaptação ao mercado local e fortalecimento da experiência nas lojas.
Ao resgatar o conceito de “terceiro lugar”, a Starbucks indica que pretende competir menos pelo produto em si e mais pelo papel que suas cafeterias ocupam na rotina das pessoas. Em um mercado onde o café pode ser encontrado em praticamente qualquer esquina, transformar a loja em destino continua sendo um dos principais ativos da marca.
