E se a maior ameaça ao sucesso da sua empresa não estiver na concorrência, mas na convicção de que ela continua jogando o mesmo jogo?
Durante décadas, aprendemos a admirar os favoritos. Os maiores orçamentos. As marcas mais valiosas. Os profissionais mais reconhecidos. Os líderes mais experientes. Os campeões de sempre.
No futebol, essa lógica parece incontestável. Elencos avaliados em cifras bilionárias, técnicos consagrados, centros de treinamento de última geração, patrocinadores globais e seleções acostumadas ao protagonismo entram em campo carregando uma convicção silenciosa: a de que a história continuará jogando a seu favor. Até que a bola rola.
A Copa do Mundo de 2026 vem revelando um movimento que merece atenção muito além das quatro linhas. Enquanto algumas potências perderam protagonismo — e outras sequer chegaram ao torneio, como a Itália, ausente pela terceira Copa consecutiva — seleções como Marrocos, Noruega, Suíça, Cabo Verde e Egito mostram que organização, inteligência coletiva, velocidade de adaptação e disciplina tática podem superar tradição, orçamento e estrelato.
O futebol, afinal, não premia reputação. Premia adaptação. Talvez seja exatamente por isso que o futebol tenha tanto a ensinar ao mundo dos negócios.
Existem empresas sólidas, lucrativas e líderes de mercado que, paradoxalmente, tornam-se prisioneiras do próprio sucesso. Seus processos funcionam. Sua governança é admirada. Seus indicadores parecem confortáveis. Seus resultados continuam positivos. Mas, silenciosamente, algo começa a mudar.
Em vez de descobrir o que clientes, colaboradores e a sociedade esperam delas, passam a acreditar que já conhecem todas as respostas. Quando isso acontece, a eficiência começa a substituir a curiosidade. Os processos passam a valer mais do que as perguntas. A experiência passa a pesar mais do que a capacidade de aprender. E a cultura, que deveria impulsionar a transformação, transforma-se em um mecanismo de proteção do passado. Esse talvez seja um dos maiores riscos da liderança contemporânea.
Clayton Christensen descreveu esse fenômeno como o Dilema da Inovação: organizações altamente eficientes em aperfeiçoar o presente frequentemente encontram dificuldade para construir o futuro. Não porque lhes faltem recursos, inteligência ou talento, mas porque o próprio sucesso cria uma perigosa sensação de permanência.
Peter Drucker foi igualmente preciso ao afirmar que o maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência em si, mas agir com a lógica de ontem. O mercado muda antes que os relatórios consigam explicar a mudança. Os consumidores mudam antes das pesquisas de mercado. Os talentos mudam antes dos organogramas. E a tecnologia muda antes dos planejamentos estratégicos.
Enquanto algumas organizações continuam investindo para proteger modelos que um dia as tornaram líderes, outras — muitas vezes menores, menos conhecidas e com menos recursos — concentram seus esforços em aprender mais rápido do que o ambiente muda.
No futebol, isso aparece em seleções menos estreladas, mas extremamente organizadas. Nos negócios, aparece em empresas que escutam antes de falar. Que experimentam antes de afirmar. Que fazem perguntas antes de oferecer respostas. Que entendem que estratégia deixou de ser apenas prever tendências e passou a significar desenvolver capacidade permanente de adaptação.
Edgar Schein defendia que culturas organizacionais fortes não são aquelas que preservam respostas, mas aquelas que permanecem abertas ao aprendizado. Talvez essa seja a principal mensagem que o futebol esteja oferecendo às empresas neste momento. Não existe camisa pesada capaz de vencer um campeonato sozinha. Não existe marca forte capaz de garantir relevância para sempre. Não existe histórico de sucesso que substitua a capacidade de ouvir, desaprender e evoluir.
O mercado nunca foi gentil com quem acredita que o passado é uma garantia do futuro. Porque, no fim das contas, clientes não compram tradição. Profissionais talentosos não escolhem apenas estabilidade. Investidores não remuneram nostalgia. E a inovação não pede licença para entrar em campo.
Assim como no futebol, o mercado não distribui medalhas pelo passado. Ele recompensa aqueles que conseguem entender o próximo jogo antes dos outros.
Até breve. Cuidem-se.
Referências bibliográficas
CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da Inovação: Quando Novas Tecnologias Levam Empresas ao Fracasso. São Paulo: M. Books, 2012.
DRUCKER, Peter F. Desafios Gerenciais para o Século XXI. São Paulo: Cengage Learning, 2015.
SCHEIN, Edgar H.; SCHEIN, Peter A. Cultura Organizacional e Liderança. 5. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2023.
TALEB, Nassim Nicholas. Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos. Rio de Janeiro: BestSeller, 2019.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
