18ª Edição

Artigo de Opinião | A IA substitui funções, não direção

Por Redação

24/03/2026 13h10

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Por Luiza Maia, CEO da agência Converse

A inteligência artificial já substituiu profissionais e continuará substituindo, por lógica econômica. Porém, existe uma confusão perigosa acontecendo agora: muita gente está terceirizando para a IA não só a execução, mas o pensamento. E aí o problema começa. Na prática, vejo isso dos dois lados da mesa.

Do meu lado, a IA já substituiu na operação a descoberta de caminhos, a simulação de cenários, a proposição de soluções. A equipe rende muito mais. A IA virou dupla de trabalho e isso é real, é positivo, é irreversível. Mas, tem um detalhe que nenhum case de sucesso sobre IA costuma mencionar: ela entrega o óbvio. Quase sempre.

Sem senso crítico humano na saída, o que a IA entrega é superficial e genérico. O que eu quero da IA é aprofundamento e aprofundamento ela só alcança quando há um humano que sabe conduzir, questionar e exigir mais do que a primeira resposta.

Isso vale também para os agentes de IA, que estão em alta agora. Muita empresa configura um agente, ele executa, parece funcionar e ninguém questiona a profundidade do que está sendo entregue. Na prática, um bom prompt no chat geral costuma ser mais eficaz do que um agente mal configurado. O problema não é a ferramenta, mas a maioria das pessoas que ainda não sabe configurá-la bem o suficiente para extrair algo além do óbvio.

Isso mudou o que eu busco nas pessoas que contrato. Não preciso mais do melhor analista, preciso de quem sabe fazer as perguntas certas, de quem trata a IA como braço direito, mas entende que o pensamento precisa vir do humano.

Do outro lado da mesa, o cenário é ainda mais revelador.

Recebo de clientes materiais “revisados” que a equipe entregou sem erros e é nítido que passaram por IA sem critério, sem contexto, sem sensibilidade. O resultado? A revisão do cliente muitas vezes compromete o material, colocando em risco a clareza da comunicação.

Isso não é um problema de tecnologia, é um problema de julgamento de quem acreditou que delegar à ferramenta substitui o pensar. É aí que está o novo eixo de diferenciação.

Capacidade de resolução de sistemas complexos virou commodity. Antes, o jogo era contratar as melhores cabeças. Hoje, capacidade analítica e de processamento deixam de ser o gargalo porque a IA já entrega boa parte disso. O novo gargalo é a clareza de direção.

A IA responde. Mas, alguém precisa saber o que perguntar, alguém precisa definir qual problema realmente importa, alguém precisa escolher qual caminho seguir e assumir as consequências.

Profissionais que terceirizam pensamento para a IA tendem a se tornar dispensáveis, não porque a tecnologia os elimina diretamente, mas porque deixam de oferecer o único ativo que ainda não tem substituto: julgamento. A IA pode sugerir caminhos, mas não assume risco institucional e não sustenta um posicionamento quando ele é contestado.

Quanto mais funções são automatizadas, mais evidente se torna quem realmente agrega valor e quem estava só executando.

A IA pode até substituir funções, porém a liderança continua sendo humana porque envolve escolha, responsabilidade e consequência. Direção não se automatiza.