Liderança Ambidestra: o executivo que entrega o trimestre sem destruir o futuro

Por Redação

28/05/2026 16h22

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Na pressão por resultado imediato, muitas empresas criam líderes altamente eficientes para salvar o mês, e perigosamente incapazes de sustentar o negócio no longo prazo

Existe uma armadilha silenciosa se formando dentro das organizações: líderes estão sendo aplaudidos e recompensados por entregar o trimestre, mesmo quando destroem a capacidade de crescimento do negócio para o ano seguinte. E isso ajuda a explicar por que tantas marcas vivem presas em ciclos contínuos de urgência, retrabalho e reinvenção operacional.

De um lado, temos executivos completamente consumidos pelo curto prazo. Obcecados por bater a meta da semana, reduzir o CAC na marra, aumentar a conversão a qualquer custo e responder ao conselho. Líderes que operam permanentemente em modo de sobrevivência.

Do outro, empresas fascinadas por uma inovação performática. Times construindo laboratórios, squads e iniciativas “disruptivas” que geram apresentações esteticamente impecáveis, mas possuem pouca ou nenhuma conexão real com a receita, a operação ou a estratégia de crescimento.

O problema é que os dois extremos produzem exatamente o mesmo efeito: uma desconexão entre a execução e o futuro.

Enquanto alguns líderes sacrificam o amanhã para proteger o bônus do trimestre, outros se escondem em discursos de inovação incapazes de sobreviver ao primeiro teste de viabilidade financeira.

No meio desse cabo de guerra, surge uma competência cada vez mais rara, e absolutamente decisiva para os próximos anos: a liderança ambidestra. A capacidade de operar com excelência o presente, sem abandonar a construção do amanhã.

A empresa não quebra de uma vez. Ela é sacrificada aos poucos.

Grande parte das decisões corporativas que parecem eficientes e heróicas no curto prazo carregam custos invisíveis e altíssimos no longo prazo:

  • Descontos agressivos e canibalização de preços para salvar a meta do mês.
  • Campanhas de Marketing focadas apenas em volume de leads qualificados, sem aderência real ao perfil de compra
  • Contratações apressadas para inflar o time de Vendas.
  • Cortes cegos de estrutura que comprometem a retenção de clientes.
  • Pressão comercial desalinhada da entrega real do produto.

Tudo isso infla os números temporariamente e garante o tapinha nas costas na reunião de fechamento. Mas, nos bastidores, essa postura corrói a cultura, destrói a margem de contribuição, queima a reputação da marca e mata a sustentabilidade do crescimento.

O mercado corporativo treinou uma geração de bombeiros para apagar incêndios, não arquitetos para construir empresas resilientes.

Isso se agrava drasticamente em áreas como Marketing, Vendas e Customer Success, onde o ponteiro precisa mexer todos os dias. O diretor que “salva o trimestre” vira referência interna. Pouco importa se ele está deixando uma bomba relógio armada para o próximo ciclo.

O hype não paga o software: a armadilha da inovação sem impacto

Ao mesmo tempo, muitas organizações reagiram ao excesso de foco no curto prazo criando outro monstro: a inovação desconectada da realidade do caixa.

Executivos viajam para os grandes eventos globais de inovação e voltam repetindo buzzwords do momento: IA generativa, retail media, ecossistemas de dados, Revops e hipersonalização. Mas, dentro de casa, essas iniciativas frequentemente fracassam em responder à pergunta mais elementar do ecossistema de negócios: como isso se traduz em receita previsível?

Inovação sem integração de processos e pessoas vira apenas entretenimento corporativo de luxo.

E o mercado, compreensivelmente, perdeu a paciência para projetos que geram curtidas no LinkedIn, mas não geram margem de lucro. Mas isso não significa abandonar a experimentação ou a visão de futuro. Significa entender que: a inovação madura não nasce isolada em um pedestal. Nasce conectada ao modelo de receita do negócio.

O Perfil do Líder Ambidestro

É aqui que a liderança ambidestra se torna um divisor de águas. O executivo ambidestro é aquele que aprendeu a operar em duas dimensões simultaneamente:

  • Entrega o resultado no presente sem comprometer o LTV (Lifetime Value) do cliente.
  • Protege a eficiência da máquina sem asfixiar o espaço para o erro controlado da inovação.
  • Constrói previsibilidade de receita sem matar a velocidade de adaptação do time.

Na prática, ser ambidestro significa tomar decisões menos impulsivas e mais sistêmicas. Significa ter o estofo para questionar metas comerciais que vão gerar um churn violento logo ali na frente. Significa revisar modelos de incentivos que premiam volume em detrimento da qualidade. Significa amarrar Marketing, Vendas e CS sob a mesma governança de dados e processos de RevOps.

E, talvez o mais difícil no cenário atual: resistir à tentação corporativa de transformar toda urgência em prioridade absoluta.

Porque empresas não morrem apenas por obsolescência tecnológica. Muitas morrem por overdose de curto prazo.

O futuro pertence aos líderes que sustentam a tensão

Durante muito tempo, o mercado premiou dois opostos: ou o especialista bitolado em eficiência imediata, ou o visionário romântico desconectado da planilha de custos.

Os próximos anos favorecerão quem consegue habitar a zona de desconforto entre esses dois mundos. Executivos que conseguem entregar a meta da semana enquanto redesenham a infraestrutura dos próximos cinco anos. Que entendem de geração de demanda, mas também respeitam a construção de marca. Que operam dados com precisão, sem terceirizar o pensamento crítico para o algoritmo.No fim das contas, a liderança ambidestra não é sobre fazer duas coisas ao mesmo tempo. É sobre ter a maturidade de evitar que o sucesso imediato do presente destrua a empresa que deveria existir no futuro.

Fernanda Rocha
CRO e Estrategista em Revenue Operations
CEO da Revening Educação e Estrategista em Revenue Operations, especializada na estruturação de modelos previsíveis e escaláveis de crescimento de receita, conectando Marketing, Vendas e Customer Success. Pioneira no Brasil como Chief Revenue Officer (CRO), há mais de 10 anos estrutura máquinas de crescimento baseadas em RevOps. Com mais de duas décadas de experiência executiva, sendo 10 anos em posições C-Level, atua como consultora e mentora de empresas em fase de crescimento e transformação. É colunista do portal Nosso Meio, onde assina a coluna Reviravolta, com reflexões sobre estratégia, liderança e crescimento. É mestre em Administração com foco em Marketing (UFC), especialista em Finanças (IBMEC) e graduada em Comunicação Social (UFC).