A moda está definitivamente na pauta dos grandes eventos, dos shows, concertos, mas também nos torneios, nos uniformes, e, claro, na competição esportiva mais badalada, a Copa do Mundo de futebol masculino. E quando se juntam o contexto mundial da Copa com a instituição “seleção brasileira”, tudo melhora (ou piora). Recentemente pudemos acompanhar a seleção brasileira de futebol iniciando sua trajetória na competição, partindo em voo com destino aos EUA, para uma série de jogos amistosos e para, efetivamente, concorrer no mundial de seleções 2026. E como nas edições recentes, a roupa dos jogadores, o uniforme dos jogos, mas também os looks sociais, são tema de grande interesse, pitacos e mobilização midiática. Até as opções de vestimenta e acessórios da comissão técnica vira pauta, principalmente nas redes sociais digitais, despertando um enxame de opiniões, juízos estéticos e morais.
Pela terceira vez consecutiva, a seleção brasileira de futebol masculino foi vestida por Ricardo Almeida, conhecido e reconhecido estilista brasileiro. O uniforme social dos jogadores é composto por peças em alfaiataria contemporânea, com calça mais larga, um caban soltinho, que é uma releitura do casaco dos marinheiros e uma camiseta de algodão por baixo, tudo na mesma cor azul petróleo suave e acinzentado. Peças muito bem cortadas, bonitas, confortáveis e elegantes. Até aí, tudo certo. No entanto, não é Brasil. E não adiante vir à público dizer que a cor é composta por azuis e verdes, o que fica é o efeito gerado, ou seja, cinza.
Somos grandes, diversos, tropicais e emocionais. Só para relembrarmos algumas das nossas características que fundamentam o que podemos compreender como brasilidade. Esse jeito de ser, ou se quisermos nos vincular a Roberto DaMatta, esse jeitinho de ser, reverbera em signos estéticos que expressam alegria, intensidade, vibração, entusiasmo, potência. Quando tomamos a seleção brasileira de futebol, outras camadas se juntam, reforçando sua influência na identidade nacional, ainda que menos presente do que em décadas atrás.
A seleção brasileira de futebol tem na cor amarela, seu signo cromático mais expressivo. Daí surgiu a nomeação “seleção canarinho” e sua mascote, o canário-da-terra, ave silvestre nativa do Brasil. Origem da nomeação da camisa da seleção “a amarelinha” e outros desdobramentos. As cores verde e azul, também presentes nos símbolos nacionais, compuseram vários dos uniformes sociais e dos jogos da seleção brasileira de futebol e de diversos outros esportes. Mesmo quando a cor amarela foi tomada por uma parte específica da população brasileira, ela não deixou de comunicar a seleção brasileira de futebol e todos os demais esportes coletivos, principalmente em competições internacionais.
Por curiosidade, fiz uma rápida incursão pelas redes sociais para colher impressões a partir dos comentários nas postagens onde surgiu a foto ou vídeo dos jogadores com o tal uniforme social cinza. Reuni algumas opiniões que juguei bem expressivas dos efeitos gerados, vejamos: “Prontos para um plantão no Pronto Socorro”, “Alisson envelheceu 30 anos”, “Pijama”, “Indo cumprir pena no semiaberto”, “Foi um Enzo que confeccionou”, “Uniforme de firma”, “Achei tão veterinário esses gatinhos”, “Coleção chão de fábrica”, “Parece formatura do Senai”, “Motorista de condomínio”, “Final de expediente na transportadora”, “Jaiminho está chegando com as cartas”, “É o pessoal da clínica de recuperação”. E, por aí vamos. Essas impressões, longe de serem representativas do todo, apontam para um julgamento negativo das roupas, com pitadas de muito humor, irreverência e, às vezes, crueldade.
O uniforme monocromático em tom de azul suave acinzentado, certamente é signo de elegância e sofisticação, mas também é de sobriedade, seriedade, contenção, trabalho braçal, maturidade, frieza e distanciamento, discrição, formalidade, fechamento. Nenhuma dessas conexões faz sentido com os emocionais jogadores brasileiros e, com o Brasil, principalmente, no contexto de uma competição esportiva mundial de futebol, onde as alegrias já vividas, os inúmeros craques formados e o pentacampeonato, fundamentam a esperança, ainda que fugidia, de um bom desempenho, quiçá, de vitória, e se nada disso acontecer, teremos vivido momentos emocionantes de uma certa partilha festiva e coletiva e uma possibilidade frágil de união nacional.
Talvez o cinza seja mesmo a manifestação da dificuldade de um sonho comum, de um Brasil nublado, com céu encoberto, que nos impede de observar e sentir a luz do sol, que por acaso, é amarelo (como a camisa da seleção) e é dourado (como a taça de campeão do mundo). Prenúncio?
