Durante duas décadas, a internet foi alimentada por um objetivo simples: fazer com que passássemos o máximo de tempo conectados. A economia da atenção gira em torno disso, mas agora alguns governos começam a se perguntar se esse objetivo deveria continuar sendo o principal indicador de sucesso.
Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, divulgou este mês que vai proibir menores de 16 anos de usar as principais plataformas de redes sociais, incluindo TikTok, Facebook, Instagram e X, o antigo Twitter. Apesar de envolver as big techs e o poder público, vou logo falando que esse debate é menos sobre tecnologia e mais sobre o impacto do uso de redes sociais na saúde e na construção cognitiva de crianças e adolescentes.
A Austrália foi o primeiro país a puxar o freio. O Parlamento australiano aprovou a chamada Online Safety Amendment Act, estabelecendo idade mínima de 16 anos para contas em redes sociais. A regra entrou em vigor em dezembro de 2025. As plataformas, e não os pais ou adolescentes, passaram a ser responsáveis por impedir o acesso de menores de 16 anos.
Agora o Reino Unido mostra que o movimento pode estar deixando de ser uma exceção para se tornar tendência. A proposta de Starmer parte da mesma idade mínima, mas amplia a discussão. O primeiro-ministro não proibiu a internet, o WhatsApp ou a comunicação digital. A crítica destaca os mecanismos considerados mais problemáticos:
- Algoritmos de recomendação
- Facilidade de contatos com desconhecidos
- Exposição a conteúdos inadequados
- Permanência excessiva e sem direcionamento para limite
Quando o Facebook surgiu, em 2004, ninguém sabia quais seriam os efeitos de uma infância mediada por algoritmos. Hoje temos mais de uma década de estudos sobre ansiedade, comparação social, distúrbios de sono, dependência digital e exposição precoce a conteúdo inadequado.
Aza Raskin e Tristan Harris, fundadores do CHT (Centro de humanidade tecnológica) e ex-colaboradores das plataformas que criaram esses mecanismos, levantam esse alerta há alguns anos. Defendem que a linha entre personalização e manipulação é muito tênue quando falamos de algoritmos e dados no ambiente digital. Com a visão de quem construiu esses algoritmos de dentro, são responsáveis pela criação do formato de feed com “Scroll Infinito”.
Quando uma tecnologia se torna infraestrutura da sociedade, ela deixa de ser apenas um produto privado e passa a ser uma questão pública. Foi assim com energia, a televisão, a internet e agora com as redes sociais e Inteligência Artificial. Diante disso, o questionamento de Starmer é basicamente: “Sabendo o que sabemos hoje, ainda permitiremos que uma criança de 11 anos passe cinco horas por dia dentro de um algoritmo?”.
A preocupação do governo britânico, na minha visão, é válida e consistente no propósito de proteger a formação cognitiva de crianças e adolescentes. Mas, como esperado, as plataformas discordam. O YouTube não está totalmente errado quando diz que muitos jovens aprendem, estudam e se desenvolvem através da plataforma. Você mesmo, que está lendo esse artigo, provavelmente aprendeu conteúdos profissionais no YouTube que o ajudaram no seu aprendizado durante a sua carreira.
O problema é que o YouTube educacional e o YouTube algorítmico são a mesma coisa, então a mesma plataforma que ensina programação também recomenda vídeos infinitos com base nos dados rastreados da sua conta. O mesmo Instagram que conecta amigos também alimenta comparação social. A mesma tecnologia que gera oportunidade também gera dependência. Por isso esse debate é tão difícil. Não existe vilão óbvio.
Se o poder executivo está tentando reduzir o tempo que jovens passam nas redes, o que isso significa para plataformas, criadores e marcas que construíram seus modelos de negócio justamente sobre atenção infinita? (Essa questão me fez refletir sobre o maior insight do SXSW 2026: A importância de eventos presenciais como ativos de construção e engajamento de comunidades para marcas.)
Uma coisa é certa: quando governos começam a limitar o acesso às redes sociais, não estamos mais discutindo tecnologia, mas qual tipo de infância queremos construir na era digital.
A indicação de conteúdo desta semana é o documentário O Dilema das Redes, da Netflix. Lançado em 2020, ele continua sendo uma das obras mais relevantes para entender como plataformas digitais, algoritmos e economia da atenção moldam nosso comportamento online.
