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Economia de creators ultrapassa a lógica da influência e se consolida como novo território de negócios para as marcas

Por Redação

01/10/2026 08h00

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Mercado global pode chegar a US$ 1,07 trilhão até 2034; empresas ampliam investimentos para gerar alcance, confiança e novas formas de relacionamento com consumidores

A economia de creators entrou em uma nova fase. O que começou associado principalmente a influenciadores e campanhas pontuais nas redes sociais passou a formar um ecossistema próprio, que envolve produção de conteúdo, publicidade, comércio, assinaturas, plataformas, tecnologia, dados e construção de comunidades.

Relatório de agosto de 2026 divulgado pela Market.us estima que a economia global de creators movimentou US$149,4 bilhões em 2024 e poderá alcançar US$1,07 trilhão até 2034, com crescimento médio anual de 21,8%. O estudo considera não apenas a remuneração dos criadores, mas o ecossistema econômico formado por plataformas, ferramentas, serviços e diferentes modelos de monetização.

O avanço também aparece diretamente nos investimentos das marcas. Segundo o Interactive Advertising Bureau (IAB), o gasto publicitário com creators nos Estados Unidos atingiu US$37 bilhões em 2025, alta de 26% em relação ao ano anterior e quatro vezes superior ao crescimento projetado para o mercado de mídia como um todo. Para 2026, a entidade prevê que o investimento chegue a US$44 bilhões.

Para Giselle Freire, CEO e Diretora de Contas da DreamOne, agência de marketing integrada, os números mostram que o setor deixou de ser apenas mais um formato de comunicação para se tornar uma frente fundamental do planejamento. “Para nós, as estratégias com influenciadores cresceram 60% no último ano. Estamos falando de uma mudança estrutural na maneira como as marcas constroem relevância. O criador não é mais apenas alguém que empresta sua audiência para uma campanha. Ele pode ser mídia, produtor de conteúdo, empreendedor, parceiro de desenvolvimento de produto e, em alguns casos, uma extensão da própria cultura da marca”, afirmou a empresária.

De mídia complementar a canal estratégico

O crescimento dessa economia acompanha uma mudança no comportamento das empresas. O relatório do IAB mostra ainda que 48% dos compradores de mídia nos Estados Unidos já consideram os criadores como um investimento obrigatório, atrás apenas das redes sociais e da busca paga. Entre os principais objetivos das campanhas estão construir reconhecimento de marca (43%), alcançar novas audiências (41%), fortalecer reputação e confiança (35%) e gerar vendas ou conversões online (32%).

A Market.us também aponta as “colaborações entre marcas e creators como o principal modelo de monetização do ecossistema”, com 22,7% de participação em 2024, enquanto a receita publicitária representou 22,1%. O vídeo, por sua vez, respondeu por 24,4% do mercado por tipo de conteúdo, impulsionado pela expansão de formatos curtos e longos em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram.

Ricardo Tarza, sócio e Diretor de Inovação e Criatividade da DreamOne, avalia que a dimensão atual do mercado revela uma transformação na própria arquitetura da comunicação. “Tecnicamente, o que estamos vendo é a consolidação de uma nova camada de mídia. Os criadores combinam produção, distribuição, dados de audiência, segmentação e capacidade de gerar conversa em um mesmo ambiente. E isso pode ser ainda mais potente quando conectamos creator marketing com mídia paga, social commerce, inteligência artificial e dados de performance”, afirma.

Segundo Tarza, outro aspecto relevante é a diversificação das fontes de receita. Além dos contratos publicitários tradicionais, criadores podem monetizar comunidades por meio de assinaturas, afiliados, produtos próprios, comércio eletrônico, eventos, licenciamento e outros modelos. A própria Market.us identifica a monetização multiplataforma como um dos principais motores de crescimento do mercado.

Escala não significa necessariamente influência

O crescimento acelerado, entretanto, também traz uma contradição. Quanto maior o mercado, maior a necessidade de profissionalização, tanto dos creators quanto das marcas que trabalham com eles. A mesma pesquisa aponta “desigualdade de renda, dependência dos algoritmos, volatilidade na descoberta de conteúdo, dificuldades de mensuração e riscos relacionados à segurança das marcas” entre os principais desafios do setor. O estudo estima ainda que os 1% a 5% de criadores no topo concentram mais de metade dos pagamentos de determinados fundos e receitas de patrocínio em algumas plataformas.

Para Giselle Freire, essa é uma questão central para o amadurecimento do mercado. “Não podemos confundir tamanho de audiência com capacidade de gerar valor para uma marca. Um influenciador pode ter milhões de seguidores e não ser a pessoa certa para determinado público, produto ou posicionamento. Da mesma forma, um micro criador pode ter uma comunidade muito mais relevante para um objetivo específico. O desafio está em sair da lógica da celebridade pela celebridade e entender contexto, afinidade, credibilidade e resultado”, pondera.

A preocupação também aparece no estudo mais recente do Interactive Advertising Bureau sobre creator marketing: “2025 Creator Economy Ad Spend & Strategy Report”. A entidade aponta a identificação dos profissionais adequados como um dos principais obstáculos para os anunciantes. Mais da metade das marcas considera a reputação do criador (58%) e a aderência de sua audiência (56%) entre os principais critérios de escolha. A mensuração de resultados, a padronização de métricas e a capacidade de atribuir resultados aos investimentos continuam entre as principais lacunas do mercado. No Brasil, a relevância do fator humano também aparece em pesquisa do IAB Brasil e Offerwise. O estudo #Publi 2025 identifica que sete em cada dez brasileiros consideram a autenticidade um fator decisivo na relação com creators, enquanto oito em cada dez já compraram produtos recomendados por influenciadores e apresentaram alto índice de satisfação.

Do lado das agências, o avanço das inteligências artificiais generativas aquece as ideias e dinamiza a produção, encurta os prazos de execução e acelera as entregas. Ainda assim, o olhar humano, sensível e empático continua indispensável para criar vínculos. “A IA pode reduzir tempo e custo de produção, personalizar conteúdos, analisar grandes volumes de dados e ajudar na identificação de oportunidades. Isso significa que um creator pode operar hoje com uma estrutura que, poucos anos atrás, exigiria uma equipe muito maior. Mas a tecnologia não resolve o principal ativo desse mercado, que é a capacidade de estabelecer uma relação de confiança com uma comunidade”, reflete Tarza.

A profissionalização também deverá passar pela criação de métricas mais consistentes. Em janeiro de 2026, o IAB publicou um levantamento específico sobre mensuração na Creator Economy e apontou que o mercado ainda carece de padrões, métricas comuns e maior rigor financeiro para integrar os creators às estratégias corporativas de mídia. Entre os gargalos estão métricas fragmentadas, plataformas isoladas e modelos de atribuição baseados em indicadores indiretos.

A CEO da DreamON entende que a evolução representa uma oportunidade para as agências de marketing integrado. “É um mercado que já provou sua relevância, mas que ainda está construindo seus próprios parâmetros. E isso é saudável. A próxima etapa é transformar influência em inteligência: saber por que determinado criador funciona, para qual público, em qual contexto, com qual mensagem e com qual impacto real no negócio. A maturidade virá quando conseguirmos preservar a espontaneidade que torna os creators interessantes sem abrir mão de governança e mensuração.”