Motor da economia local, o turismo em Fortaleza vai muito além das praias e do lazer. Em entrevista, a secretária de Turismo, Denise Carrá, detalha como o setor gera emprego, movimenta diferentes cadeias produtivas e se consolida como eixo estratégico de desenvolvimento econômico e social da capital cearense.
Nosso Meio | O turismo em Fortaleza vai muito além do lazer. Como a senhora define o papel estratégico do setor na economia da cidade hoje?
Denise Carrá: O turismo é um verdadeiro motor da economia, movimentando vários setores ao mesmo tempo, mesmo aqueles que não são ligados diretamente à atividade turística. De acordo com um levantamento feito pelo nosso Observatório do Turismo, aqui da Secretaria de Turismo de Fortaleza, cada R$ 1 gasto por turistas na capital retorna à economia como R$ 1,37: é um efeito realmente multiplicador.
Quando falamos do impacto econômico do turismo, não consideramos apenas o dinheiro que entra na cidade simplesmente pelos gastos feitos por turistas. É o insumo que um restaurante compra de produtores locais para produzir os pratos, é a geração de empregos na rede hoteleira, a movimentação com transporte na cidade inteira. O turismo faz a economia girar.
Nosso Meio | Em termos de geração de emprego e renda, qual é o impacto direto e indireto do turismo na capital cearense?
Denise Carrá: O impacto é imenso. De acordo com dados do Observatório do Turismo, foram gerados quase 785 mil empregos diretos e indiretos em 2025. O impacto direto, que considera apenas o gasto médio do turista, foi de R$ 22,9 bilhões, chegando a R$ 31,7 bilhões considerando também o impacto indireto.
Esses números representam um crescimento real de pouco mais de 40% quando comparados com os valores de 2024, corrigidos pela inflação. Isso porque, neste ano, tivemos um incremento muito relevante de turistas internacionais, o que eleva, consideravelmente, o gasto médio na cidade. É um resultado muito gratificante, fruto de um trabalho conjunto entre Prefeitura, Governo do Estado e parcerias relevantes com o setor.
Nosso Meio | Fortaleza tem uma forte vocação para o turismo de sol e praia. Como essa característica se conecta com outras cadeias produtivas, como gastronomia, economia criativa e comércio local?
Denise Carrá: Gosto de dizer que Fortaleza é um destino completo. Temos sim praias lindas, sol o ano inteiro, mas temos muito mais a oferecer. Uma cultura pulsante, com equipamentos públicos
com programação gratuita todo final de semana, uma gastronomia incrível, com sabores regionais que você não encontra em outros locais. Temos nosso artesanato que é único, que chama muito a atenção de quem vem de fora e quer levar um pedaço de Fortaleza para casa. E, claro, nossa hospitalidade, que é um dos pontos mais citados pelos turistas como
fator positivo que faz com que as pessoas venham e queiram voltar.
Fortaleza é um destino único, é Sem Igual, como diz nossa campanha publicitária de promoção da cidade. Quem vem a Fortaleza pode aproveitar nossas praias, conhecer nossa cultura, encantar-se com a natureza em parques urbanos, provar nossos sabores e se apaixonar.
Nosso Meio | Quando pensamos nos principais pontos turísticos da cidade, como eles funcionam como motores econômicos para seus entornos?
Denise Carrá: Temos uma grande variedade de pontos turísticos, mas alguns são os preferidos de quem visita Fortaleza. Nossa última Pesquisa de Satisfação e Felicidade do Turista, divulgada no final do ano passado, aponta a Beira-Mar, a Praia do Futuro, a Praia de Iracema e o Mercado dos Peixes como alguns dos principais pontos turísticos da nossa cidade.
A movimentação de pessoas nesses locais é muito relevante, porque aquece o comércio local, aumenta a geração de emprego e movimenta a nossa economia como um todo.
Nosso Meio | O turismo também influencia a valorização urbana. De que forma investimentos em infraestrutura turística impactam mobilidade, requalificação de áreas e atração de novos negócios?
Denise Carrá: Os maiores especialistas em arquitetura e urbanismo têm uma máxima que uma cidade é boa para o turista quando é boa para quem mora nela. E nós acreditamos muito nisso. Quando os fortalezenses vivem Fortaleza, convivem nos espaços públicos, isso também é uma propaganda para quem vem e fora, de que esse é um bom lugar para se conhecer. É por isso que investimentos em infraestrutura, mobilidade, requalificação, são tão importantes. Queremos construir uma Fortaleza que seja melhor para moradores e para turistas.
Nosso Meio | Eventos e calendário cultural têm peso importante na dinâmica da cidade. Qual é o impacto econômico dos grandes eventos para Fortaleza ao longo do ano?
Denise Carrá: O turismo de eventos tem um papel fundamental no nosso mercado, principalmente, para aquecer a demanda turística durante o ano inteiro, muito além dos períodos de alta temporada, que os visitantes vêm a Fortaleza a lazer. De acordo com dados do Visite Ceará/ Fortaleza Conventions e Visitors Bureau, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, no ano passado, esse segmento movimentou R$ 1,17 bilhão, um crescimento de 15% em relação a 2024.
Investir na atração de eventos para nossa capital é muito importante, porque esse turista que vem a Fortaleza a negócios não se limita apenas a isso. Ele conhece nossas praias, nossa gastronomia, nossa cultura, depois de participar de suas reuniões e congressos. E, muitas vezes, esse turista vem acompanhado da família, aproveita a vinda a trabalho para aproveitar e passear também.
Nosso Meio | Como a Secretaria trabalha para distribuir o fluxo turístico de maneira estratégica, evitando concentração e estimulando diferentes territórios da cidade?
Denise Carrá: A atração de eventos para Fortaleza, como disse acima, é importante para distribuir o fluxo turístico ao longo do ano. Mas também temos uma preocupação muito grande em expandir o roteiro turístico para além dos pontos mais conhecidos, da orla e das praias. A atual gestão tem um compromisso muito forte com esse desafio, com a descentralização, tanto no Réveillon, no Ciclo Carnavalesco, estendendo-se, agora, para o aniversário de Fortaleza e outros eventos.
Fortaleza tem belezas que vão muito além dos cartões postais mais tradicionais e queremos mostrar isso para quem vem de fora. A realização de eventos fora do eixo central da cidade é uma estratégia para isso, mas também estamos desenvolvendo internamente projetos de turismo de base comunitária, cuja ideia é justamente promover experiências diferentes para o turista, para que ele possa conhecer Fortaleza de verdade.
Nosso Meio | O turismo internacional tem crescido em Fortaleza. Que efeitos isso gera na economia local e na qualificação dos serviços oferecidos?
Denise Carrá: Sim, estamos tendo um aumento bem relevante na demanda internacional. No ano passado, recebemos mais de 115 mil turistas estrangeiros na capital, um crescimento de 19,5% em relação a 2024.
A chegada de mais turistas internacionais têm um impacto muito importante na movimentação econômica e na geração de empregos no turismo, porque esse é um turista que tem um ticket médio maior, que tem um perfil de contratar mais passeios, consumir em mais lugares. Queremos continuar incentivando essa vinda de turistas internacionais, buscando mais conexões aéreas diretas para Fortaleza para consolidar nossa cidade como uma das principais portas de entrada de visitantes estrangeiros no Nordeste.
Nosso Meio | A senhora acredita que o turismo pode ser uma ferramenta de inclusão produtiva? Há políticas voltadas para capacitação e inserção da população nesse mercado?
Denise Carrá: Sim, claro. O turismo é uma importante força motora da nossa economia, sendo um dos grandes agentes da geração de emprego na nossa cidade. Temos sim cursos voltados para capacitação no nosso mercado, principalmente, junto à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), que frequentemente oferece capacitação para postos de trabalho ligados à cadeia turística. Também temos a Escola do Turismo, ligada à Secretaria de Turismo, que oferece cursos pontuais em parceria com grandes instituições.
Nosso Meio | De que forma o poder público dialoga com a iniciativa privada para fortalecer o ecossistema turístico e ampliar investimentos no setor?
Denise Carrá: Temos uma parceria muito forte com o setor privado, até porque dependemos dele de certa forma para promover Fortaleza enquanto destino turístico. Estamos em constante diálogo com setor de hotelaria, alimentação, eventos e tantos outros segmentos que são cruciais para que o turista tenha uma boa experiência em Fortaleza.
Nosso Meio | Pensando no futuro, quais são os projetos estruturantes que devem ampliar o impacto econômico do turismo na cidade nos próximos anos?
Denise Carrá: Temos muitos planos para os próximos anos, em diferentes frentes. O que já estamos fazendo e vamos continuar é a promoção de Fortaleza em feiras e eventos no Brasil e no mundo, com o objetivo de atrair demanda turística para a nossa cidade. Também queremos continuar investindo em capacitação, tanto do nosso trade turístico como de agentes de viagem e operadores, que são a porta de entrada de quem chega na nossa cidade.
Seguimos no diálogo constante com a iniciativa privada e com as outras esferas do Governo, para atrair investimentos, novos voos e novos negócios. Como já disse, também queremos expandir as experiências em Fortaleza, investindo em um turismo inclusivo e que gere impacto na ponta, nos bairros e comunidades.
Nosso Meio | Se tivesse que resumir, por que podemos afirmar que Fortaleza transforma seus pontos turísticos em oportunidades de desenvolvimento econômico e social?
Denise Carrá: Isso é verdade porque nossa cidade enxerga o turismo como uma política estratégica de geração de renda, inclusão e valorização cultural. Muito mais que cartões-postais, nossos pontos turísticos são polos de geração de emprego, empreendedorismo e circulação de renda. Isso afeta uma cadeia muito extensa, que vai desde artesãos e trabalhadores da gastronomia até guias, motoristas, produtores culturais e pequenos empresários.
Ao promover a cultura, o artesanato, a gastronomia e os eventos locais, Fortaleza fortalece a identidade da cidade e cria oportunidades reais para a população, especialmente, para quem vive do comércio e dos serviços ligados ao turismo. O resultado é um ciclo virtuoso: mais visitantes geram mais renda, que impulsiona investimentos, que melhoram a infraestrutura urbana e ampliam a qualidade de vida da população.


