Esta edição de Executivas em Foco traz Cibele Linhares, HR Manager da FSB Holding, e Isabela Suarez, empresária, advogada e presidente da Associação Comercial da Bahia e da Fundação Baía Viva. A partir de experiências em áreas distintas, as duas líderes refletem sobre os desafios de conduzir organizações em um cenário marcado por transformações aceleradas, uso intensivo de dados, novas demandas sociais e a necessidade crescente de equilibrar performance, governança e desenvolvimento humano.
Nosso Meio | Nos últimos meses, quais transformações mais impactaram sua rotina de gestão e as decisões de negócio?
Cibele Linhares: Na FSB Holding lidamos com um contexto de gestão bastante complexo. Somos um ecossistema que reúne diferentes empresas e especialidades de comunicação, atuando há mais de quatro décadas em temas institucionais e estratégicos para grandes organizações. Nos últimos meses, duas transformações impactaram bastante a rotina de gestão. A primeira é o uso cada vez mais intenso de dados para apoiar decisões de pessoas, o que exige uma gestão mais analítica e menos baseada apenas em percepção. Hoje conseguimos cruzar indicadores de desempenho, engajamento e retenção para entender melhor o que está acontecendo nas equipes e agir com mais precisão. A segunda transformação é a velocidade das mudanças no ambiente de negócios, especialmente no setor de comunicação e reputação. Isso exige estruturas mais ágeis, lideranças mais preparadas para lidar com incerteza e uma área de gente e gestão muito próxima das decisões estratégicas do negócio.
Isabela Suarez: Tenho percebido uma aceleração muito forte na forma como instituições e empresas precisam se posicionar diante das mudanças econômicas, tecnológicas e também das novas demandas da sociedade. Isso exige capacidade de adaptação, uma gestão mais ágil e baseada em diálogo constante com o setor produtivo. Na minha experiência à frente da Associação Comercial, na Fundação Baía Viva e também na atuação das empresas das quais sou sócia, esse movimento se traduz em ampliar conexões, ouvir diferentes setores e buscar soluções que conciliem desenvolvimento econômico com responsabilidade social e sustentabilidade. Hoje, liderar passa muito por construir pontes e articular diferentes agendas. Governança é a palavra de ordem.
Nosso Meio | Ao analisar o que realmente faz a diferença na prática, que indicadores ou resultados você acompanha de perto para medir o sucesso da sua área?
Cibele Linhares: Na área de Gente & Gestão da FSB Holding acompanhamos indicadores que conectem pessoas diretamente aos resultados do negócio. Alguns deles são engajamento das equipes, turnover em posições-chave, evolução de lideranças e prontidão para sucessão. Temos ainda bastante atenção para indicadores mais qualitativos, como qualidade da liderança percebida pelas equipes e capacidade de colaboração entre áreas. Acreditamos que a qualidade das relações e da liderança impactam diretamente o desempenho.
Isabela Suarez: Mais do que números isolados, observo se as ações estão gerando valor, fortalecendo as relações institucionais e criando condições para crescimento. Resultados sustentáveis, capacidade de adaptação a cenários econômicos complexos e a qualidade das decisões tomadas pela equipe são sinais importantes que devem ser analisados. Entretanto, não podemos negar que os números ainda são uma grande referência. O conceito de lucro está sendo revisado. Lucro é crucial para toda empresa, especialmente o lucro que é resultado de uma atuação com propósito.
Nosso Meio | No seu dia a dia, qual é o maior desafio de liderar equipes em um cenário cada vez mais orientado por dados, metas e tecnologia?
Cibele Linhares: O maior desafio é garantir que a gestão baseada em dados não desumanize a liderança. Dados são fundamentais para melhorar decisões e dar mais transparência à gestão, mas eles precisam vir acompanhados de escuta, o contexto importa!
Isabela Suarez: O desafio é equilibrar eficiência e visão humana. Dados e tecnologia são fundamentais para orientar decisões, mas liderança continua sendo sobre pessoas. É preciso transformar informação em estratégia sem perder a escuta, o senso de propósito e o alinhamento da equipe.
Nosso Meio | Como você equilibra performance e desenvolvimento humano dentro da sua equipe?
Cibele Linhares: Na FSB Holding, acreditamos que performance e desenvolvimento não são agendas opostas — na verdade, uma sustenta a outra. Em um ecossistema de comunicação que trabalha com desafios complexos, equipes preparadas e em constante aprendizado são essenciais para entregar resultados consistentes. Por isso trabalhamos muito com conversas frequentes de desenvolvimento, definição clara de objetivos e estímulo à autonomia, criando um ambiente onde os profissionais entendem o que se espera deles e ao mesmo tempo têm espaço para evoluir.
Isabela Suarez: Acredito que a performance nasce de um ambiente de confiança e clareza de objetivos. Quando as pessoas entendem o propósito do que estão construindo e têm espaço para se desenvolver, os resultados tendem a aparecer. O papel, a presença e a motivação do líder são sempre importantes.
Nosso Meio | Vemos diariamente que o mercado está mais competitivo e mais exigente. Quais movimentos você considera essenciais para manter a empresa relevante e próxima do cliente?
Cibele Linhares: Hoje é essencial combinar três fatores: capacidade de antecipar tendências, proximidade real com o cliente e desenvolvimento contínuo das equipes. Na FSB Holding trabalhamos muito próximos dos clientes, em temas que muitas vezes envolvem comunicação institucional, posicionamento público e gestão de temas sensíveis. Isso exige equipes preparadas, visão estratégica e capacidade de adaptação constante.
Isabela Suarez: As instituições e empresas precisam estar muito próximas da realidade do mercado e das demandas da sociedade, por isso escuta ativa e capacidade de antecipar mudanças são imprescindíveis. Atualmente, a relevância passa por inovação, diálogo e constante adaptação. Mais do que nunca é preciso entender o perfil do cliente. Neste aspecto, a liderança feminina sai na frente pela capacidade que as mulheres têm de analisar cenários diferentes e complexos.
Nosso Meio | Ao longo da carreira, como a sua liderança evoluiu e qual virada de chave mudou sua forma de gerir pessoas e os projetos?
Cibele Linhares: Com o tempo, percebi que o papel do líder é muito mais criar contexto, desenvolver pessoas e remover obstáculos para que as equipes possam performar. Liderança não é sobre controle, mas sobre confiança, clareza de direção e construção de um ambiente onde as pessoas conseguem dar o seu melhor.
Isabela Suarez: Com o tempo, aprendi que liderar não é centralizar decisões, mas criar condições para que as pessoas contribuam com o melhor de si. A grande virada de chave foi entender que liderança é, acima de tudo, uma construção coletiva. Essa visão se fortaleceu muito na minha atuação à frente da Associação Comercial da Bahia e também no trabalho desenvolvido na Fundação Baía Viva. São espaços diferentes, mas que exigem algo em comum: capacidade de articulação, escuta ativa e colaboração para transformar ideias em projetos que gerem impacto real para a sociedade.
Nosso Meio | Ser mulher em posição executiva ainda traz desafios específicos. Quais avanços você percebe e o que ainda precisa mudar?
Cibele Linhares: Houve avanços importantes nos últimos anos, especialmente na ampliação do debate sobre diversidade e na presença maior de mulheres em posições de liderança. Ao mesmo tempo, ainda existem desafios relacionados à representatividade em cargos estratégicos.
Isabela Suarez: Avançamos muito na presença feminina em espaços de decisão, mas ainda há um caminho importante pela frente. O grande capital e muitas posições estratégicas ainda são majoritariamente ocupados por homens. Ampliar a diversidade no ambiente de negócios não é apenas uma pauta de equidade, é uma estratégia de desenvolvimento. As mulheres precisam continuar avançando na representatividade e também no acesso ao capital. Esse é um passo essencial para ampliar nosso espaço nas decisões econômicas.
Nosso Meio | Que tipo de cultura você trabalha para fortalecer dentro da sua área e como isso se conecta com o propósito maior da empresa?
Cibele Linhares: Buscamos fortalecer uma cultura baseada em confiança, colaboração e responsabilidade. No nosso segmento, o trabalho é altamente coletivo e depende da qualidade das relações entre as equipes. Na FSB Holding valorizamos muito essa troca entre pessoas com diferentes repertórios e experiências. Quando conseguimos construir um ambiente onde as pessoas se sentem reconhecidas, desafiadas e parte de algo maior, isso se reflete diretamente na qualidade do trabalho entregue aos clientes e no impacto da empresa no mercado.
Isabela Suarez: Trabalho para fortalecer uma cultura de colaboração, responsabilidade institucional e visão de longo prazo. Essa perspectiva dialoga diretamente com a agenda de sustentabilidade e transformação da realidade que também orienta o trabalho que eu desenvolvo na Fundação Baía Viva e nas empresas em que atuo como sócia. No ambiente empresarial, isso significa estimular iniciativas que gerem desenvolvimento econômico, mas também impacto positivo para a sociedade. É uma visão que conecta o propósito da Associação Comercial da Bahia com a construção de um futuro mais equilibrado e sustentável para a Bahia.
Nosso Meio | Olhando para o futuro, que tendências do seu setor devem moldar os próximos anos e como você está se preparando para esse cenário?
Cibele Linhares: O uso de inteligência artificial, uma gestão cada vez mais orientada por dados e necessidade crescente de lideranças adaptáveis. Na área de gente e gestão da FSB Holding, isso significa sermos capazes de sustentar e apoiar líderes para ambientes mais complexos, investir em desenvolvimento contínuo e fortalecer a capacidade das equipes de aprender e se reinventar rapidamente.
Isabela Suarez: A transformação digital, a agenda de sustentabilidade e a necessidade de maior articulação entre setor público e privado serão determinantes. Diversidade gera, inevitavelmente, segmentação. Mais do que nunca, o mundo é de quem faz governança. Estamos fortalecendo o diálogo institucional e ampliando o papel da ACB como espaço de construção de soluções para o desenvolvimento.
Nosso Meio | Como sua área se posiciona na estratégia corporativa da empresa e de que forma ela influencia decisões de crescimento e posicionamento de mercado?
Cibele Linhares: A área de gente & gestão tem um papel cada vez mais estratégico. Nosso objetivo é garantir que a organização tenha as competências, lideranças e cultura necessárias para sustentar o crescimento e a reputação da empresa. O nosso setor vive um momento de transformação acelerada, e isso exige organizações cada vez mais preparadas para aprender e se adaptar. Participamos ativamente de discussões sobre estrutura organizacional, desenvolvimento de lideranças, atração de talentos e desenho de equipes. Em última instância, nosso trabalho é ajudar a empresa a transformar estratégia em capacidade real de execução. Na FSB Holding, acreditamos que o diferencial está justamente na capacidade de desenvolver pessoas que consigam lidar com complexidade, colaborar e evoluir continuamente.
Isabela Suarez: A atuação institucional tem um papel estratégico porque conecta diferentes atores do ecossistema econômico. Ao articular empresários, lideranças e poder público, conseguimos influenciar debates e decisões que impactam diretamente o ambiente de negócios e as oportunidades de crescimento. As instituições nunca foram tão fundamentais como agora. Não existe desenvolvimento consistente sem equilíbrio entre o poder público e a iniciativa empresarial. Quando esses dois pilares caminham juntos, toda a sociedade avança.


