Para celebrar o lançamento de “The Life of a Showgirl”, o Nosso Meio te convida a mergulhar na carreira, visão estratégica e influência de Taylor Swift ao longo de seus 17 anos de atuação
Na madrugada desta sexta-feira (3), a cantora e compositora estadunidense Taylor Swift lançou o seu 12º álbum de estúdio. Intitulado de “The Life of a Showgirl”, a coletânea de 12 canções traz sonoridade pop e a lírica clássica da popstar e conta com a participação da também cantora Sabrina Carpenter na faixa-título da obra. Mas para além de uma obra artística, o 12ª álbum da Loirinha (apelido carinhoso dado a Swift pelos fãs da brasileiro) também demonstra o poder de influência de sua autora, antes mesmo do seu lançamento.
No dia 13 de agosto, Taylor Swift participou de um episódio especial do podcast New Heights, apresentado pelo seu noivo Travis Kelce ao lado do irmão Jason Kelce, ambos jogadores da NFL. O podcast bateu recordes de audiência na plataforma, se tornando a mídia com mais espectadores simultâneos, cerca de 1,3 milhão de pessoas, superando o recorde anterior de 800 mil espectadores do podcast The Joe Rogan Experience, que teve o presidente dos Estados Unidos Donald Trump como convidado. Paralelamente, Taylor Swift havia iniciado uma contagem regressiva em seu site oficial, gerando expectativas nos fãs com o anúncio de lançamento do novo álbum, que ocorreu durante a transmissão do podcast.
O anúncio gerou grande comoção de usuários, mas também de veículos de comunicação, marcas e até monumentos. O icônico Empire State Building de Nova York ficou iluminado com a cor laranja, que representa a nova era de Taylor Swift. Veículos de comunicação importantes como o Women’s Wear Daily e a National Geographic publicaram matérias sobre a história, influência e importância das showgirls, tradicionais dançarinas dos teatros de revista.

Marcas consolidadas nacionais e internacionais, como Burger King, McDonald’s, Duolingo, Itaú, Santander, Natura, O Boticário, Seara, Swift, Google, Netflix e Spotify, entraram nas celebrações dos fãs com posts comemorativos que carregavam a identidade visual do “The Life of a Showgirl”, disponibilizada no site oficial de Taylor Swift a época do anúncio.

A repercussão midiática se converteu em sucesso comercial, fazendo o álbum quebrar recordes tanto no físico quanto no digital. “The Life of a Showgirl” bateu a marca de 5 milhões de pré-saves no Spotify, o maior número da plataforma, superando o “The Tortured Poets Department” (também de Swift) que detinha o título de álbum mais pré-salvado do streaming. Além disso, a Record Industry Association of America (RIAA) estima que com o lançamento de “The Life of a Showgirl”, Taylor Swift se torna a primeira mulher a ultrapassar a marca de 100 milhões de álbuns certificados pela entidade. Atualmente, a popstar ocupa o 6º lugar no ranking dos álbuns certificados pela RIAA, ultrapassando figuras renomadas da indústria musical como Michael Jackson, Madonna e Whitney Houston.
O impacto da “The Eras Tour” na economia mundial
Iniciada em 17 de março de 2023, a The Eras Tour foi a sexta turnê de Taylor Swift. Percorrendo estádios na América do Norte, América Latina, Europa, Ásia-Pacífico e Europa, num total de 149 apresentações realizadas ao longo de um ano e nove meses, a turnê celebra a carreira de Swift, em 10 atos temáticos que carregavam a estética dos 10 álbuns lançados por Swift na época, e reuniam 40 canções, sendo 38 fixas e duas variadas – as chamadas “canções surpresas”. Em 9 de maio de 2024, a turnê foi reformulada, incluindo um 11º ato para incluir o, na época, recém-lançado 11º álbum: o The Tortured Poets Department.
Sucesso de crítica, a The Eras Tour se tornou a turnê com o maior número de bilheteria da história, encerrando suas atividades no dia 8 de dezembro de 2024 com arrecadação de US$2 bilhões (cerca de R$10,7 bilhões). A turnê também foi a segunda mais assistida da história, com o total de 10,1 milhões de espectadores, cerca de 50.000 a 70.000 pessoas por concerto.
Em 13 de outubro de 2023, o filme-concerto da The Eras Tour chegou aos cinemas do mundo inteiro. Ao longo de sua temporada, o filme arrecadou cerca de US$262 milhões (cerca de R$1,4 bilhão), tornando-se o filme-concerto de maior bilheteria da história, superando em US$162 milhões (cerca de R$865 milhões) o recorde anterior de Justin Bieber com o filme Never Say Never. A rede de cinemas estadunidense AMC informou na época que o filme arrecadou US$26 milhões (cerca de R$138,5 milhões) em bilheteria doméstica em único dia, superando a quantidade de ingressos vendidos de filmes blockbusters como “Homem-Aranha: Sem Volta pra Casa”.
Após o fim da temporada nos cinemas, o filme-concerto da The Eras Tour entrou na disputa dos streamings. Gigantes como a Netflix, a Amazon Prime e o Disney+ cobiçaram os direitos de exibição da obra em suas plataformas. No final, o streaming do Mickey Mouse conseguiu vencer a concorrência, desembolsando o valor de US$75 milhões (cerca de R$400 milhões) para a Loirinha. Nos três primeiros dias de exibição do filme na plataforma, a plataforma registrou recorde de 4,6 milhões de visualizações em um único conteúdo e 16,2 milhões de horas assistidas.
A The Eras Tour também foi capaz de movimentar a economia global, especialmente o setor de hotelaria e serviços. Nos Estados Unidos, onde a turnê teve mais shows, os swifties (nome dado aos fãs de Taylor Swift) gastaram uma média de US$1.300 (cerca de R$7.000) em viagens, hospedagens, alimentação e produtos relacionados à turnê, segundo dados da US Travel Association. Esse fenômeno foi chamado de “Taylornomics” ou “Efeito Swift”.

A The Eras Tour também movimentou a economia brasileira durante sua passagem pelo país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) revelaram que o volume de serviços prestados cresceu 0,4% em novembro ante o mês de outubro. Além disso, estimam-se que os três shows realizados no Rio de Janeiro injetaram cerca de R$158 milhões na economia local, conforme projeções da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico. Já em São Paulo, que também sediou três shows, as estimativas da SPTuris apontaram injeção de R$240 milhões na economia local.
Apesar da The Eras Tour ter sido encerrada, o “Efeito Swift” permanece, ainda que em menor escala, graças à influência de Taylor Swift, principalmente nos setores de entretenimento, com festas temáticas. Uma delas é a Taylor’s Version Night, que faz parte de um “coletivo de eventos especiais da cantora com a proposta de unir seus fãs em experiências temáticas em diferentes formatos como edições em cafés, watch parties, baladas e matinês”, conforme o DJ, publicitário e produtor de eventos, Renê Oliveira.

Segundo Renê, a Taylor’s Version Night ocorre em dez cidades de três regiões do Brasil, sendo elas Brasília (DF), Goiânia (GO), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Teresina (PI) e Vitória (ES), com média de 300 pessoas por edição e uma média de faturamento variável, mas que já chegou a atingir a marca de R$10.000, apenas com a venda de ingressos. A festa ainda conta com ativações e a presença de artesãos, tatuadores e representantes de lojas de vestuário e acessórios, que podem comercializar os seus produtos em um espaço reservado a eles durante o tempo de realização do evento.
“Nós priorizamos a experiência que o fã terá durante a festa, pois queremos que ele sinta que o ingresso pago vale a pena e que também vale a pena participar de uma nova edição. Para isso, nós trabalhos uma estratégia de marketing que envolve ações de distribuição de brindes, estandes com lojinhas, flash tattoos, drinks temáticos, sorteios e um contato mais próximo com o público por meio de enquetes, formulários e recebimento de feedbacks para que eles possam opinar, sugerir ideias, voar nas suas músicas favoritas e colaborar ativamente com a festa”, finaliza Renê.
Impacto, legado e transformação da indústria da música
Ao longo de 17 anos de carreira, Taylor Swift não se limitou a ser apenas mais uma artista dentro da Indústria da Música. A cantora também ajudou a moldá-la e definir os atuais aspectos jurídicos, comerciais e de relacionamento com as plataformas de streaming e a mídia, ao mesmo tempo em que construiu uma marca pessoal forte e reconhecida mundialmente.
Advogada pelos direitos dos artistas, Taylor Swift foi diretamente responsável pela forma em que plataformas de streaming recompensam os artistas pela disponibilização dos seus catálogos musicais. Em novembro de 2014, Swift retirou todo o seu acervo musical do Spotify em protesto pelo baixo pagamento de royalties e em 2015, ameaçou retirar seu álbum 1989 do Apple Music, após a plataforma se recusar a pagar royalties aos artistas durante o período de teste gratuito do serviço de streaming. As atitudes fizeram com que os executivos revisassem as políticas internas de pagamentos de royalties e revogassem medidas consideradas injustas para os artistas de pequeno e grande porte.
Taylor Swift também aprendeu a moldar as métricas de consumo ao seu favor no início da década de 2020, adotando uma estratégia de marketing figital para impulsionar não só o consumo no digital, mas também a venda de álbuns físicos. No caso do “Midnights”, Taylor Swift incentivou novas audições do álbum no digital com o lançamento de edições surpresas com mais músicas. Já no físico, a artista apostou em variantes do disco com cores, fotos e conteúdos diferentes, vendendo mais de 1,14 milhão de cópias, incluindo um recorde de 575.000 vinis.
Taylor Swift também apostou na construção de uma marca pessoal diferente de outras estrelas da música pop. Ao invés de se distanciar, a artista preferiu construir um relacionamento de intimidade com os fãs através de sua discografia, como também interação em redes sociais como o Instagram e o Twitter. A transparência de Swift resulta diretamente em um forte engajamento orgânico por parte dos fãs, que fizeram o post do seu noivado com o jogador Travis Kelce ser a publicação mais curtida, feita por uma artista, no Instagram, com quase 40 milhões de likes.
“Eu enxergo a Taylor como um exemplo de branding impecável. Ela construiu uma marca pessoal baseada em storytelling, consistência e reinvenção planejada. Cada ‘Era’ é praticamente uma campanha de marca, com identidade visual, narrativa e experiência pensadas nos mínimos detalhes. Além disso, ela não se limita a lançar música: cria todo um universo para que os fãs mergulhem. Isso faz com que a marca Taylor Swift vá além do palco e se torne também uma experiência completa”, avalia a profissional de marketing Cyntia Fernandes.
Cyntia também destaca que “ao compartilhar suas vivências, ela gera identificação genuína com o público. Como fã, eu me sinto conectada porque encontro nas músicas dela histórias que também já vivi (As vezes rola até de querer comparar alguma era dela com alguma vivência nova que alguma amiga está passando). Como profissional, vejo isso como um caso claro de autenticidade: em um mundo saturado de mensagens superficiais, a transparência e a emoção constroem confiança e fidelidade”.
Além do relacionamento íntimo com os fãs, Taylor Swift também fortaleceu sua marca pessoal ao assumir o controle das narrativas que a envolvem dentro da indústria da música, transformando crises em oportunidades de projeção e defesa da própria reputação. Falando em reputação, um dos casos que mais emblemáticos é o do álbum Reputation, onde a cantora assumiu a personalidade de “cobra” na identidade visual do álbum, após a polêmica envolvendo Kanye West e Kim Kardashian com a canção “Famous”, que levou ao cancelamento de Swift em 2016 após a manipulação feita por Kardashian de uma gravação onde Swift aparentemente sabia que West iria chamá-la de “vadia” em uma canção. E o que a mídia declarava como um fim de carreira definitivo para Swift, transformou-se em um dos maiores retornos midiáticos da indústria da música com o álbum “Reputation”, que explora as polêmicas em que Taylor Swift se envolveu a partir da sua perspectiva, como também suas fragilidades emocionais e românticas.
“Esse é um caso de ressignificação estratégica. A Taylor não ignora os problemas, mas os transforma em oportunidades criativas e de posicionamento. Ela assume o controle da narrativa, reforça os seus valores de autonomia e autenticidade e constrói produtos que convertem a crise em fortalecimento de marca. Isso é uma aula de gestão de crise aplicada ao branding pessoal”, comenta Cyntia.
Recentemente, Taylor Swift recuperou a gravação de seus primeiros álbuns, após anos de disputas com sua antiga gravadora, a Big Machine Records, e o empresário Scooter Braun, com quem não tinha uma boa relação devido às polêmicas envolvendo Kanye West e Kim Kardashian. Na época da venda de seu catálogo, Taylor Swift se recusou a firmar parcerias com Braun e apostou na regravação dos seus álbuns sobre um novo selo, graças aos direitos de composição que detinha sobre as obras. A medida, na época, era arriscada, já que não haveria garantias que seus fãs abandonariam as gravações originais que estavam sob o domínio de Braun.
O selo Taylor’s Version, entretanto, não foi apenas um sucesso de crítica quanto comercial, mas ajudou também a transformar os contratos das gravadoras no que diz respeito às regravações de álbuns e canções por parte de artistas, estendendo períodos para novas versões em até 30 anos. As novas versões dos álbuns Fearless, RED, Speak Now e 1989 também apostaram em conteúdos extras para manter o frescor e o interesse dos fãs, com o resgate de músicas compostas por Taylor Swift na época das gravações originais, mas que foram descartadas no corte final, as chamadas “From The Vault Tracks”. A emissora americana KOAA News estimou que Swift ganhou mais de US$8,5 milhões (R$45,4 milhões) por mês com suas músicas regravadas no Spotify, o que ajudou também a impulsionar a The Eras Tour e trazer uma nova base de fãs.

Há quem a ame, há quem a odeie, mas um fato é claro: Taylor Swift é um nome forte na indústria do entretenimento e pode servir como inspiração para quem deseja também construir uma marca pessoal forte em qualquer segmento profissional. Afinal, não se trata apenas de ter um bom produto, mas entender que narrativa, relacionamento e visão de mercado são fundamentais para quem quer ser memorável e, quem sabe, uma estrela.
“O segredo está em entender que a essência dela não está no gênero musical, mas em quem ela é e como conta suas histórias. A Taylor mantém três elementos fixos: letras profundas, narrativas fortes e conexão com os fãs. O resto — estética, sonoridade, posicionamento — ela adapta conforme o momento. Isso mostra algo que aplico no marketing: marcas fortes podem se reinventar porque têm um núcleo identitário sólido”, finaliza Cyntia.
