O país que trocou renda por dívida

Por Redação

13/05/2026 08h00

Compartilhe
  • Whatsapp
  • Facebook
  • Linkedin

O Brasil não está apenas mais endividado. Está mais frágil do que parece — e, talvez, menos consciente do que deveria. Estamos vivendo um fenômeno silencioso, mas profundamente estrutural: a substituição progressiva da renda por dívida como base de sustentação da vida econômica.

Em apenas um ano, o crédito consignado ampliado, impulsionado pelo Governo Federal do Brasil, movimentou R$ 117,1 bilhões, com mais de 20,9 milhões de contratos e 9,4 milhões de trabalhadores impactados. O valor médio ultrapassa R$ 12 mil por pessoa — e mais de R$ 33 bilhões foram destinados a trabalhadores que recebem entre 1 e 4 salários-mínimos.

O dado não é apenas econômico. É estrutural: Porque revela onde o risco é maior: na base da pirâmide, onde a margem de erro é mínima e o impacto é máximo. Ao mesmo tempo, o país atinge um ponto crítico: Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas. Dessas, quase 30% estão inadimplentes e mais de 12% já não têm condições de pagar suas dívidas.

O Brasil soma hoje cerca de 73,7 milhões de inadimplentes — praticamente metade da sua população adulta. Não estamos diante de um desvio. Estamos diante de um padrão. E padrões, quando não são interrompidos, tornam-se cultura. A desaceleração do consumo já sinaliza esse esgotamento. Dados do IBGE mostram que o crescimento caiu de 5,1% em 2024 para 1,3% em 2025. Mais crédito. Menos força de consumo. Essa equação não fecha — ela antecipa.

A Fundação Getúlio Vargas reforça o alerta: o endividamento das famílias já representa cerca de 49,7% da renda disponível, com 29,3% da renda comprometida com dívidas. Em termos simples: quase um terço da renda do brasileiro já não pertence mais a ele. Mas o ponto mais crítico não está apenas nos números. Está na leitura que fazemos deles.

Vivemos um tempo em que é confortável olhar para fora em busca de explicações. As tensões geopolíticas envolvendo Israel, Líbano, Irã e os Estados Unidos pressionam mercados, elevam o petróleo e geram instabilidade global. Tudo isso é real. Mas não explica tudo. Porque parte relevante do que estamos vivendo nasce dentro de casa.

Nasce na ausência de preparo para decidir.
Na cultura do imediatismo.
Na ilusão de controle sobre um dinheiro que, na prática, já não existe.

E aqui está o ponto mais desconfortável — e mais necessário: Estamos olhando para os lados errados. O Brasil não enfrenta apenas um problema de acesso ao crédito. Enfrenta um problema de consciência sobre o crédito. E isso exige um alerta claro — às autoridades, às instituições de ensino, às entidades de classe e às empresas.

Estamos avançando em mecanismos financeiros mais rápido do que avançamos em educação financeira, comportamento econômico e maturidade decisória. E esse descompasso cobra preço. Não apenas na economia. Mas na produtividade do país.

Instituições como a Fundação Dom Cabral já apontam que o endividamento impacta diretamente a saúde mental e o desempenho dos profissionais. Pesquisas indicam que mais de 60% dos trabalhadores têm sua saúde emocional afetada por questões financeiras. O resultado é um colapso silencioso:

Profissionais mais ansiosos.
Menos produtivos.
Mais pressionados.
Menos capazes de decidir com clareza.

E empresas são, inevitavelmente, o reflexo disso. Por isso, este não é apenas um debate econômico. É um debate de gestão.

As empresas brasileiras precisam assumir um papel mais ativo — e mais estratégico — nesse cenário. Não como assistencialismo. Mas como construção de base. Porque organizações fortes não são feitas apenas de estratégia, produto e mercado. São feitas de pessoas capazes de sustentar decisões ao longo do tempo.

Na realidade de hoje, uma parcela significativa dessas pessoas está operando sob pressão financeira contínua. Isso compromete performance, cultura, clima e resultado. Mais do que isso: compromete o futuro.

Existe uma conexão direta — ainda negligenciada — entre liderança, educação financeira e produtividade nacional. Se não houver ação coordenada — entre empresas, entidades de classe e instituições — consolidaremos um ambiente econômico onde o crescimento será cada vez mais limitado pela fragilidade estrutural das pessoas. E isso não se resolve com mais crédito. Se resolve com mais consciência.

O modelo atual de consignado ainda insere as empresas no fluxo operacional da dívida — retenção, repasse e gestão em folha — aumentando a complexidade e aproximando ainda mais o ambiente corporativo desse fenômeno. E há um ponto que não pode ser ignorado:

A dívida não desaparece.

Ela acompanha o trabalhador.

Ela atravessa vínculos.

Ela se acumula.

Ela molda comportamento.

Ela define decisões.

E, no limite, ela redefine o próprio futuro econômico do país.

Nesse contexto, a reflexão do professor de Harvard Clayton Christensen é precisa: “Para entender a estratégia de uma organização, observe o que ela faz — não o que ela diz.” Se queremos um país próspero, mas normalizamos um modelo onde a renda já nasce comprometida, então estamos, na prática, construindo outra coisa.

O Brasil não precisa parar de oferecer crédito. Precisa parar de oferecer crédito sem preparo. Porque crédito sem consciência não é inclusão. É antecipação de problema. E talvez o ponto mais importante — e mais ignorado — seja este: Nenhuma nação sustenta crescimento consistente com uma base produtiva emocionalmente fragilizada. Nenhuma economia prospera com pessoas exaustas, pressionadas e financeiramente comprometidas. Nenhuma empresa cresce de forma sustentável ignorando a realidade dos seus próprios times.

O Brasil não está apenas mais endividado. Está mais vulnerável. E vulnerabilidade não começa quando falta dinheiro. Começa quando falta lucidez.

E, antes que alguém tente reduzir este debate a um ruído ideológico, é importante deixar claro: este não é um texto sobre esquerda, direita, centro ou qualquer variação conveniente dessas classificações.
Este é um texto sobre o Brasil. Sobre o que estamos nos tornando — ou permitindo nos tornar-se.

Estamos diante de uma pandemia silenciosa, mas devastadora. Uma crise que não ocupa leitos, mas ocupa vidas. Que não aparece nos boletins diários, mas corrói, de forma contínua, a dignidade, a autonomia e a capacidade produtiva de milhões de brasileiros. Uma engrenagem que produz miséria, empobrecimento e dependência — e que, se ignorada, compromete não apenas indivíduos, mas o tecido inteiro das empresas e da economia.

O que mais assusta não é apenas a gravidade do problema. É o silêncio.
É a ausência de posicionamento.
É a confortável omissão.

Causa perplexidade observar organizações inteiras atravessando esse cenário — convivendo com colaboradores endividados, emocionalmente exauridos, improdutivos — sem assumir uma postura firme, clara e responsável. Onde estão as lideranças? Onde estão os setores de Cultura e Recursos Humanos que tanto discursam sobre bem-estar? Onde estão as entidades, os sindicatos, as estruturas que têm capilaridade real sobre a vida econômica do país?

Não faremos nada a respeito? Seguiremos tratando os efeitos e ignorando as causas? Falamos, com frequência, sobre saúde mental — mas seguimos evitando encarar aquilo que, de fato, nos adoece.

Cuidem-se e até breve!

Simone Moura

Simone Moura
Fundadora da Ping Pong Estratégia e CMO da Medeiros Distribuidora & 365 Medeiros
Simone Moura é formada em comunicação social, especialista em branding, MBAs nas áreas de marketing, comportamento de consumo e neuro marketing, e cursos de especialização na Universidade de Harvard em disrupção e teorias jobs to be done. Mestre e Doutora em Comunicação e novas tecnologias pela Universidade do Minho, Portugal, e especialista em neurociência aplicada ao consumo Possui 30 anos de atuação profissional e já contribuiu para vários players de diversos segmentos como indústria, varejo, serviços e publicidade e propaganda. Simone tem vasta experiência em planejamento estratégico de comunicação com foco em propósito, posicionamento de mercado e gestão de branding. É embaixatriz da Ikigai Brasi. Fundou a Ping Pong Estratégia em 2010 e atua em todo o Brasil.